Nosso totem tabu

Hoje é dia das mulheres, 8 de março e aquela história toda. E, bom, eu sou feminista, edito uma revista feminista, vivo falando de feminismo por aí. Ficaria esquisito deixar passar esse dia em branco. Então, cá estou escrevendo algo especial sobre mulheres nesse dia de hoje.

Antes de começar esse texto, no entanto, me veio a grande questão: o que dizer a vocês se já estamos num ponto que tem textão na internet sobre tudo? Vocês já devem ter lido milhões de textos sobre a importância da legalização do aborto, a necessidade de ler mulheres, a falta de mulheres em todos os ambientes de trabalho, a objetificação da mulher e a comercialização de um dia que deveria ser símbolo da nossa luta. Pelo menos, acredito que, se você chegou até mim, você deve ter contato com esse tipo de discussão nas suas comunidades sociais e internáuticas. E, sabe, eu não queria ser mais uma falando sobre o assunto – até porque muitas outras mulheres podem falar bem melhor sobre essas coisas do que eu. Também não queria vir aqui contar a minha história sobre crescer como mulher e ser mulher, porque não sinto que vou acrescentar nada em especial contando da minha vida assim, da mesma forma que acho muito mais interessante que nos conheçamos aos poucos e eu guarde minhas histórias para outros momentos (e aproveito para contar a vocês que comecei uma newsletter porque eu não tenho limites e queria me aproximar mais de vocês <3).

Por causa disso, resolvi falar sobre um dos temas mais batidos de todos: a Capitu.

– E aí, galera? Traiu ou não traiu Bentinho? rsrsrs

Brinks. Todo mundo sabe que não importa se ela traiu ou não – apesar de que, nos nossos corações, todo mundo torça para que ela tenha sim traído, porque eita cara chato. Essa piada chega até a ser chata, mas eu sou uma tradicionalista no quesito piadas e todo ano na ceia de natal eu pergunto se é pavê ou pacumê, e olha que nunca teve pavê na minha casa. Por isso tive que perguntar -e por isso também peço desculpas, mas a zoeira, por pior que seja, ainda é maior que o controle da minha escrita. Espero que isso não mude.

Mas voltemos à Capitu.

Olhos de cigana oblíqua e dissimulada, olhar de ressaca, Capitu que vem de capitã. Todos nós já ouvimos esse papo da análise da personagem em algum momento na vida. Como a visão do leitor sobre a Capitu é manipulada pelo Bentinho, como ela é esperta e sabe manipular o cara, como ela usa sua feminilidade pra conseguir o que quer, como ela é dona de si, uma verdadeira capitã da própria vida, blablabla.

Gente, a menina tinha 15 anos em quase metade do livro. Mesmo que ela fosse super esperta, ela continua sendo uma garota de 15 anos que estava flertando com o bói vizinho. Aconteceu uma situação parecida com todas nós. Aconteceu até com a Taylor Swift, sabe? Quem nunca fantasiou uma história dessas quando tinha 15 anos, néam? A ficção – seja ela contada nos livros e filmes, seja ela contada por nossos parentes que dão aquele sorrisinho quando nos vêem brincando com um menino qualquer e depois vêm nos perguntar com olhos curiosos quem era – nos ensina a fantasiar esse tipo de coisa o tempo todo. A Capitu é que nem nós nessa, com a única diferença que ela conseguiu mesmo pegar o bói (porque, sejamos honestas, nunca ouvi uma história real em que vizinhos se apaixonaram. Na maioria dos casos, inclusive, o cara era gay).

Então, Capitu era uma menina de 15 anos, mas os críticos literários afirmam porque afirmam que ela era dona do próprio nariz e que podemos perceber isso a partir do que conta o Bentinho, a partir de como ela se portava diante dele. Os críticos dizem: é preciso entender a manipulação do narrador, é preciso ler nas entrelinhas para entender quem é Capitu seria ela uma espécie de Lolita brasileira?. Eles estão certos quanto a isso. Mas eles continuam caindo no conto do Bentinho, eles continuam sendo homens e não entendendo nada do universo da mulher.

Os críticos se focam tempo demais na descrição do olhar da personagem, mas se esquecem da coisa mais simples, mais óbvia, mais factual: seu nome.

Capitu vem de capitã, dizem. Mas isso é mentira, lorota boa. E posso comprovar pra você apenas abrindo o livro, porque lá está escrito de forma clara e explícita que Capitu vem de Maria Capitolina. Não tem nada que ver com capitã, por mais que soe bem aos ouvidos dos críticos.

Capitu vem de Maria Capitolina, diz Bentinho, Machado de Assis e eu, que não tenho nada a ver com a história, mas cá estou dizendo:

– Maria Capitolina.

Maria, uma mulher virgem, prometida para casar, a qual ficou grávida de Deus e quase foi condenada à morte se José não tivesse a ~bondade~ de não entregá-la às autoridades e que quase se tornou mãe solteira no meio de uma região desértica se não fosse a ~honestidade~ de Deus de ter contado pra José o que fizera. Maria, uma mulher que, depois de ter o filho de Deus, nunca mais teve contato com ele, pois agora ~Ele~ se comunicava apenas com seu marido e seu filho. Maria, uma mulher que viveu na pobreza a vida toda, que viu seu filho ser assassinado pelo governo enquanto ainda era jovem, que perdeu seu filho único numa guerra de ideias e ideais. Maria, uma mulher que deu a luz ao símbolo de um dos maiores impérios, o império religioso.

Esse é o primeiro nome de Capitu, e todo mundo sabe que o nome não está aí à toa, que a história que ele carrega é também a história da personagem. Parte de Capitu carrega consigo a marca da virgem, da mãe do espírito santo, de uma gravidez não desejada nem planejada mas que aceitou porque era o jeito.

Mas aí é que entra o segundo nome da personagem mais famosa da literatura brasileira: Capitolina.

Capitolina é a loba que deu de mamar para Remo e Rômulo, na mitologia da construção de Roma. Capitolina, uma mãe que adotou filhos que não eram dela. Capitolina, uma loba. Capitolina, aquela que amamentou os irmãos que construiriam uma das cidades mais importante da história. Capitolina, aquela que alimentou um dos maiores impérios já existentes.

Capitu é construída por duas imagens de mulheres extremamente fortes. Duas mães isso ajuda a responder se ela traiu ou não Bentinho? Quem sabe? Quem liga?, duas mulheres que tomaram decisões difíceis, mas se mantiveram firmes. Duas mulheres que amamentaram impérios.

Aí é que vemos o erro dos críticos. Capitu não é capitã, ela não tem sua vida nas mãos, essa interpretação é tão pobre, tão parca, que chega a ser risível ver que Os Grandes Pensadores Da Literatura Brasileira™ nunca conseguiram ir além. Toda interpretação que já vi sobre Capitu acaba aí – no meu segundo e terceiro ano de colégio, durante toda a faculdade de Letras, mesmo na música do Tatit ou nos textos do Bosi, Candido, Villaça ou qualquer outro dos grandes nomes da nossa literatura.

Todos esses homens ignoraram o primordial, todos esses homens fizeram como todos os outros homens e ignoraram o começo de tudo: o nome da mulher e, logo, sua identidade.

Eu acreditei neles por muito tempo. Até chegar o dia em que eu, Sofia e Lorena percebemos que precisávamos dar um nome à revista que queríamos lançar. Ou melhor, até um pouco depois desse dia. Pois acontece que eu lembrei que Capitu era apelido e que ela tinha um outro nome. Então, fui ver no livro e lá estava: Maria Capitolina. Era muito grande pra uma revista, então ficamos com o segundo nome. Era forte, era bonito, era enigmático, era a referência à mais importante personagem da nossa literatura. Capitolina juntava tudo o que queríamos: uma garota brasileira adolescente que sofreu muito por causa do patriarcado – era exatamente esse o público que queríamos atingir. Foi o encaixe perfeito – e as garotas da revista concordaram.

A Mazô disse que pesquisou no google e que o resultado era maravilhoso. Na época, ninguém deu muita boa pra isso. Mas um ou dois meses depois, tendo que explicar toda vez o nome da revista, lembrei do post da Mazô e pesquisei o nome. Foi quando descobri quem era Capitolina e, junto a isso, descobri duas coisas: o que estávamos fazendo com a nossa revista e quem era Capitu.

Eu gosto particularmente quando o Tatit fala na sua música:

Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu

Eu gosto particularmente da ideia de totem tabu, porque é exatamente isso que é a Capitu na sociedade patriarcal. Ela é o sonho e o pesadelo não apenas do Bentinho, mas de todo cara que leu Dom Casmurro. E eles nos fazem querermos ser como a Capitu, mesmo quando não temos e nem queremos ter olhos de cigana oblíqua e dissimulada, mesmo quando somos as pessoas mais transparentes e honestas que alguém podia encontrar, mesmo quando o final da personagem é horrível. Nós não somos a Capitu – e por isso mesmo gosto tanto também do verso seguinte, “a mulher em milhares”.

Capitu também não era a Capitu™. Ela era uma outra pessoa que a gente nunca vai saber porque o Machadão quis assim. A Capitu era uma garota como todas nós somos garotas, como todas nós fomos garotas. E nós também fomos e somos colocadas como totem e como tabu. Nós também fomos e somos o sonho e o pesadelo de muito cara por aí. E isso não é porque somos capitãs da nossa própria vida, mas sim porque somos mães de um império que o alimentamos e construímos todos os dias. Porque nós somos as responsáveis pelo mundo onde as mulheres são livres e o patriarcado é uma lenda antiga.

Toda mulher quando deixa de se encaixar num dos estereótipos que os homens criaram é ameaçadora. Toda mulher não se encaixa nesse estereótipo. Isso é um tabu no mundo patriarcal.

Toda mulher quando assume que não se encaixa no lugar que lhe foi concedido, quando nega esse lugar e decide mudar a sociedade que a fez estar ali constrói parte do nosso império. Não falo aqui do matriarcado e não me venham com papo de feminismo como opressão dos homens, falo de um império em que todas as pessoas independentemente de seus gêneros (e de suas raças, sexualidades, nacionalidades, classes sociais etc.) são livres. E cada mulher que alimenta parte desse império é um totem na nossa história.

Nesse 8 de março, espero que nós mulheres sejamos totem-tabu. Um totem-tabu à nossa maneira, de acordo com as nossas regras. E, assim, construamos mais um pedacinho desse império que começou com Maria, com Capitolina e vai continuar conosco.

As gentes da literatura infantil, como sobrevier a elas e um voto pela polêmica

Toda área de trabalho tem seus clubinhos especiais, aquele grupo de migas que te olham de cima a baixo e falam que você não pode sentar com elas porque é quarta-feira e você não está de rosa. Pois é, colegas. A gente acha que clubinhos acabam na escola, mas a verdade que tenho descoberto é que, depois dos 13 anos ninguém mais verdadeiramente amadurece. As pessoas continuam sentindo amor e ódio intensamente, criando picuinha a torto e a direito e, claro, formando seus clubinhos pra poder julgar quem ficou de fora rsrsrs.

giphy

Não é necessariamente um problema, no sentido de que é claro que pessoas com pensamentos próximos vão se encontrar e se aproximar. E isso é bom. É bom poder encontrar pessoas que te deixam confortável e que façam com que você se sinta menos estranha no mundo. Nesse sentido, os clubinhos são ótimos. Você já sabe que tem o clubinho X que pensa de uma forma e que o clubinho Y pensa de outra forma. E, se você discordar de todo mundo, você pode sempre começar o seu próprio clubinho, mesmo que seja bloco do eu sozinho. (sim, a rima foi proposital) (não, eu não gosto desse álbum) (sim, eu odeio muito Los Hermanos e nunca vou entender essa ocorrência musical que eles criaram e pessoas gostaram).

A moda tem seu clubinho, as artes plásticas têm seu clubinho, a música tem vários clubinhos dependendo do gênero musical, a academia tem seu clubinho. Toda área tem seu clubinho, mas eu acabei por cair no clubinho da literatura infantil. Ops.

Como uma pessoa que não sabia o que queria, eu decidi abraçar tudo o que dava pra abraçar. Poesia, prosa, artes plásticas, teatro, música, feminismo, astrologia, educação, zoeira. Eu fiz milhões de mapas conceituais pensando nas coisas que queria e, nesse meio tempo, acabei caindo no universo da literatura infantil (prosa/ poesia + ilustração + educação + zoeira, pareceu uma boa equação). Poxa, eu já curtia uma série de livros, já me interessava trabalhar com editoração, sempre quis trabalhar com diálogo entre texto e imagem. Pois bem, né?, muito bacana. Foi assim que fui fazer cursos sobre o assunto.

Eu fiz cursos de ilustração, de edição de livros infantis especificamente, cursos de livro-álbum (aka: aquele livro que só tem imagem, 0 palavras) e fui também fazer matéria sobre literatura infantil na minha faculdade. Conheci gente maneira que me faz dar risada da vida, mas em geral conheci umas pessoas nada a ver que me fizeram perder a fé na humanidade. Pensando nisso, decidi contar pra vocês os três grandes clubinhos dessa área, mas de forma personificada. Assim, caso estejam afim de entrar pro universo da literatura infantil, vocês já ficam ixpertos com o que vão topar pelo caminho.

burn book
Adulto nº1: “Mas a criança adoooora esse tipo de coisa”

É aquele adulto com ar de professora ruim do primário que acredita que a infância é só um mundo lúdico e maravilhoso. Esse adulto sempre fala as coisas mais óbvias com o tom de alumbramento, como se estivesse descobrindo que a roda roda naquele instante. Ele esquece que o universo da crítica literária passa muito além dos contos de fada e acha que está arrasando quando fala sobre a Disney e, principalmente, quando revela ~o final original~ de qualquer conto clássico, mesmo que todo mundo já saiba (porque ouvimos isso desde que deixamos de ser consideradas crianças). Esse adulto acredita que criança gosta de tudo que tem música e cor, acha Alice no País das Maravilhas uma história muito contemporânea, mesmo tendo feito 150 anos agora, e acha incrível sempre que um personagem da literatura mundial aparece no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Provavelmente, seu livro de cabeceira e ~guia pra vida~ é O Pequeno Príncipe.

Adulto nº2: “Mas o mercado é foda”

É aquele adulto que, quando decidiu entrar pro meio da literatura infantil, provavelmente pensava de forma muito parecida como o Adulto nº1, mas se desiludiu quando deu de cara com o mercado. Ele é aquele cara que diz que concorda quando você fala algo bonito ou engajado, mas logo em seguida ele vai destruir suas ideias e dizer que “é triste, mas é o mercado”. Basicamente, ele é o pessimista do rolê. Ele acredita piamente que o capitalismo acaba com todos os sonhos e que o único jeito de sobreviver ao mundo é cedendo à entidade Mercado – o que foi basicamente o que ele fez: deixou de buscar produzir coisas de qualidade e passou a publicar livros imbecis porque “é isso que vende” (esquecendo-se, é claro, de que se ele não produz livros infantis de boa qualidade, obviamente estes nunca serão vendidos). Seu livro preferido provavelmente é algum do Bartolomeu Campos de Queirós, que fala sobre as dores da vida com uma lírica que beira ~o olhar inocente de uma criança~.

Adulto nº3: “Não existe literatura infantil, só literatura”

É aquele adulto acadêmico que sofreu os preconceitos dos coleguinhas que desdenham da literatura infantil como forma de arte e, por causa disso, em vez de defender a área de sua escolha, prefere negar a existência do nicho infantil. Em outras palavras, é o adulto que nega o que faz. Ele defende que o livro é objeto de arte e ignora a realidade pra poder se defender (ou, quem sabe, pra dormir em paz com suas escolhas de vida). Esse adulto ignora tudo o que o Adulto nº2 fala, jurando de pé junto que o preço dos livros ou se eles serão lidos ou não por crianças não importa, um literata que ignora o leitor. É um elitista. Provavelmente, seu livro preferido não é nem um livro infantil ou que fala da infância, é apenas um clássico que a Academia Brasileira de Letras considera ~literatura~. Deve ser algo como Em busca do tempo perdido ou alguma coisa bem amargurada do Valter Hugo Mãe.

 

Esses são os tipos mais comuns da galera da literatura infantil. Todos eles são bem chatos. Se vocês querem saber, admito que, pra mim, o menos pior é o cara do mercado, porque pelo menos ele tem pé no chão (mesmo que esse chão seja o chão do fundo do poço). O tipo nº1 me dá coceira especialmente porque subestima demais a criança, mas o pior mesmo é o terceiro puramente por ser um elitista. Mal ou bem, os dois primeiros clubes ainda consideram o leitor, mesmo fazendo isso errado.

i'm scared

Agora, você me pergunta: Clara, como sobrevivo a essa gente? Como eu sobrevivo a esse universo?

Primeiro ponto: é legal ir nos eventos, fazer cursos, conversar com as pessoas. É importante porque você vai ouvir essas pessoas falando e vai descobrir os pontos que você discorda e os pontos que você concorda com elas. Também é ali que tem um montão de outras pessoas que estão fazendo o mesmo que você. Lembre-se: não é porque as pessoas parecem estar interessadas que elas concordam com o que está sendo dito. Quantas vezes você mesmo não fingiu estar super interessado em um papo péssimo? Ou sorriu e balançou a cabeça quando alguma figura de autoridade falou alguma coisa absurda, mas você deixou passar só pra não criar caso? Pois é, você tem que achar essas pessoas.

Uma possibilidade é ficar de olho nas pessoas que estão se movimentando muito durante a palestra – elas provavelmente estão bem incomodadas. As pessoas que estão dormindo também podem ser bacanas, mas é mais difícil contata-las porque, bem, elas não estão muito conscientes nesse momento, néam. Isso também funciona para cursos. Busque as pessoas que estão desenhando ou que parecem não estar prestando atenção. As chances de elas serem maneiras são enormes. Você pode começar com um comentário ambíguo, um olhar de cansaço ou mesmo aquela pergunta com o maior tom de sinceridade que você consegue (“você tá curtindo isso?”). É infalível pra peneirar os interessantes dos cansados!

Se o evento estiver muito ruim, você pode sempre (e eu recomendo muitíssimo) sair do auditório e ir comer os biscoitos que dão de graça. Outras pessoas que também não aguentaram a conversa lá dentro estarão ali e você pode conversar com elas. Inclusive: foi isso que fiz no último evento sobre literatura infantil e foi ótimo! Não só conheci pessoas interessantes, como também reencontrei amigos de outros eventos em que ficamos tomando café e criticando o elitismo da academia!

Agora, se você for que nem eu e adorar uma boa polêmica, fale. Se você está em um curso, pergunte ao professor, critique-o. Ele é humano, ele tem erros. Discuta de uma forma respeitosa, mostre os pontos dos quais você discorda e aproveite o debate! É sempre muito bom quando isso acontece numa aula. Caso o professor não esteja aberto ao diálogo e te dê uma fechada, também não se preocupe: outros alunos que concordam com você irão comentar contigo o caso depois.

Em eventos, se você tiver forças para esperar até o final, quando se abre a perguntas, levante a mão e fale também! Mas, por favor, não se esqueça de fazer uma pergunta! Afinal, sem isso, não vai ter muito debate. Um exemplo pessoal mas do qual me orgulho muito foi em um evento do Conversas ao Pé da Página, um evento de literatura infantil bem acadêmico, que fui. Na mesa, havia um monte de adultos 40+ falando sobre jovens e adolescentes, como eles não se interessam tanto assim por ler e como a leitura deles é outra. Aquilo me deixou possessa, claro. Eles não tinham propriedade nenhuma sobre o tema, nenhum deles era jovem ou adolescente e claramente havia um milhão de outras pessoas que os organizadores do evento podiam ter chamado que representariam muito melhor jovens e adolescentes (e, sim, estou falando de jovens e adolescentes que trabalham com literatura). Então, eu peguei o microfone, a última pergunta, e disse meu nome, o que fazia e comecei que “gostaria de observar que não existe nenhum jovem ou adolescente falando por si ou por sua geração nesse evento, então como vocês acham possível que tenhamos uma conversa produtiva quando excluímos essas pessoas do diálogo?”. Foi uma bela palha na fogueira e, no fim, UM MONTÃO DE GENTE VEIO FALAR COMIGO!!! Até uma das organizadoras veio correndo me explicar como montaram a mesa e eu pude dar uma lição sobre representatividade! E depois pessoas incríveis vieram agradecer por eu ter falado o que elas estavam pensando, foi lindo. Acho que nunca troquei tantos cartões quanto naquele dia. (Inclusive, descobri esse ano que fiquei conhecida como “a revoltada do Conversas” entre algumas pessoas e me fico orgulhosa disso).

Amigues, a verdade é que você nunca será a única pessoa a pensar diferente do que se está dizendo lá na frente. Provavelmente, 1/3 da galera também discorda dos clubinhos e da Regina George. Mas você só vai saber disso se você falar o que pensa, se você conversar, discutir, argumentar. Nós estamos muito acostumados a ficarmos quietos porque é confortável não se expor, mas sem essa exposição, nunca vamos encontrar as outras pessoas que estão à margem como nós, que discordam de tudo aquilo mas não sabem como enunciar. São pessoas inteligentíssimas, que deveriam estar lá em cima palestrando, mas não fazem parte das Plastics. São as pessoas que, em vez de serem amigas da Regina, são migas do Snoopy – e todo mundo sabe que a galera do Peanuts é muito mais pra frentex e interessante que as meninas malvadas (tá no nome, gente, não tem como ser bom!!). E você só vai chegar no Snoopy se você falar. Sem essa conversa, os clubinhos vão continuar os mesmos e as áreas ficarão sempre meio estáticas.

A polêmica é necessária porque a mudança é necessária. E é assim que sobrevivemos aos clubinhos da literatura infantil (e todos os outros clubinhos que existem por aí): mudando-os.

 

Ó nossa turma que daora, migas!
Ó nossa turma que daora, migas!