Como criar bons títulos™

Não lembro quando descobri a força de um bom título – desde que me lembro, como leitora, já julgava minhas leituras por títulos que me convenciam e aqueles que só me davam preguiça –, mas foi aos 14 anos, quando estava no nono ano, que descobri como criar um título decente.

Era a aula antes do almoço e tínhamos que escrever um conto que valia nota para a matéria de português. Não lembro exatamente da proposta, mas meu conto era sobre o último homem do mundo. Basicamente: o sol tinha acabado e, por causa disso, todos haviam morrido, exceto esse único homem.

O texto estava pronto, eu era a única aluna que sobrara na sala e o sinal tinha tocado. O professor pediu para eu entregar o texto, mas eu disse que faltava o título. Então, ele me perguntou a história e eu contei. Ele sentou comigo e ficou pensando num título, mas só vinham ideias ruins – ou ideia alguma. Até que a fome apertou e a necessidade de escrever algo foi maior do que de criar algo decente. O professor disse:

– Escreve Solidão mesmo que tá bom.

Esse foi o pior título que eu ouvi na minha vida, honestamente. Mas eu estava com fome e, naquele ponto, já estava achando mais engraçado do que ruim. A questão é que eu não sabia se podia ser engraçada, eu não sabia se os leitores das minhas histórias entenderiam que a baixa qualidade era irônica, não que o título tinha sido criado por uma pessoa que levava a sério os poemas do Leminski. Assim, com essa insegurança, apenas olhei para meu professor e perguntei:

– Eu posso escrever isso?

E ele lindamente me respondeu:

– Você pode escrever qualquer coisa, o conto é seu. E, depois, sou eu que vou corrigir.

– Mas como eu escrevo isso?

– Escreve “solidão” e sublinha o “sol”.

Então, eu me inclinei sob o papel e escrevi: ”Solidão” e achei horrível, mas entreguei.

Eu não tenho a menor ideia do quanto tirei nessa redação, mas ali eu me liberei dos Títulos, com letra maiúscula. Ali, eu entendi que nenhum título vem como uma inspiração divina e que, pra chegar em algo bom, você tem que passar por muitas ideias horríveis. E foi aí que minha vida mudou. Eu sabia que nenhum outro professor ou professora aceitaria um título tão ruim e zoeiro como aquele, mas também sabia que era impossível alcançar uma porcaria maior. Então, no fim das contas, eu estava tranquila.

Minhas outras redações me deixaram melhor, mais calejada. Fui testando estilos de títulos diferentes, tentando resumir os textos o máximo possível no mínimo de palavras que conseguia, como se fosse uma versão mais pílula ainda do twitter. Até que cheguei na faculdade e descobrir que títulos gigantes não são um problema se você os abraçar com todo o coração.

Foram tantos, mas tantos títulos que comecei a criar que, hoje em dia, tenho mais título que histórias. Ou livros. Ou poemas. Ou qualquer coisa. Eu tenho uma quantidade surreal de títulos guardados. A ponto que, entre meus amigos, eu fiquei conhecida como a pessoa que dá títulos. E o que começou como uma ajuda em redações de vestibular durante o ensino médio acabou virando quase que uma das minhas principais funções na vida. Porque, sério, sempre que tem um título a ser criado, as pessoas me chamam pra ajudar.

Pensando nisso, venho aqui com dicas para como você chega em bons títulos, em títulos convincentes, naqueles títulos que uma pessoa que não é sua miga e nunca ouviu falar de você leia e fale “nossa, daora, vou gastar meu tempo lendo esse texto aqui”. Então, vamos ao que interessa!

 

Dica nº1: Brainstorming é essencial

Se você tem tempo para pensar num título, ou seja, se você não está escrevendo uma redação para nota durante a aula ou o vestibular, se joga nas ideias! Títulos não são fáceis, por isso mesmo que precisamos ter um brainstorm grande. Quanto mais ideias você tiver, mais chance de encontrar algo que se encaixe bem no seu texto. Se você puder discutir o título com alguma miga, melhor ainda! Uma pessoa que não está envolvida no texto da mesma forma que você consegue ter uma nova perspectiva do que está escrito e, portanto, trazer outras ideias que você não teria e que podem ser maravilhosas.

É aqui também o momento que você define o tipo de título que você quer. Um título de uma só palavra, como Persépolis? Um título com nome próprio, como Emma? Um título que é uma situação, como A missa do galo? Um título que parece mais uma frase, como Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra? Um título que resume o assunto, como Tratado geral das grandezas do ínfimo? Um título spoiler, como Cem anos de solidão? Um título com explicação, como Princesa – a história real da vida das mulheres árabes por trás de seus negros véus? Um título com nome de música, como Daytripper?  É a partir das ideias que vão surgindo no seu brainstorm que você vai entendendo o que quer como título. Às vezes, poucas palavras bastam, mas tem horas também que uma frase enorme faz bem mais sentido. E isso você só descobre durante o processo de criação.

 

Dica nº2: Não tenha medo de pensar coisas toscas

Brainstorm não é só pra ter várias ideias boas ou pelo menos razoáveis, mas também pra expelir as coisas ruins. Acontece que, quando estamos pensando em um título e pensamos em uma ideia ruim e não a falamos em voz alta, ela se impregna em nossa mente e toma conta de todo o espaço do nosso cérebro, nos impedindo de chegar a qualquer ideia boa – ou mesmo qualquer outra ideia.

Migas, prestem atenção quando falo: é preciso expurgar as ideias ruins. Não tenha medo de conta-las, de coloca-las pra fora. Até porque, muitas vezes, uma ideia ruim pode trazer uma boa risada, o que alivia a tensão da necessidade de se chegar num título bom. Honestamente: é muito importante o brainstorm ser recheado de risada, porque levar tudo muito a sério estraga a criatividade. Isso sem contar que uma ideia ruim pode ser transformada em algo interessante; alguém pode perceber algo de bom na ideia e apostar nisso e ficar legal.

 

Dica nº3: Vale zoar

Já falei no tópico anterior que é importante não levar as coisas muito a sério, mas é algo importante o suficiente para ter um tópico só pra si: galere, vale muito zoar! Zoação leva a risadas, leva ao desafio de se pensar algo além daquela zoeira, leva a ideias não óbvias, e tudo isso pode ser muito bom para um título. Zoar é uma forma de incentivar a criatividade e, num momento de criação, isso é essencial.

 

Dica nº4: Pire nos círculos semânticos (vale usar dicionário)

As palavras remetem a outras palavras, a sentimentos, a ideias, a coisas. Você dizer “ensinar” é diferente de você dizer “ajudar”, mesmo que exista um ponto de intersecção entre essas duas palavras. Isso é porque as palavras têm círculos semânticos diferentes, ou seja, seus significados abrangem uma série de outras ideias, e essas que podem ser úteis para o seu título (ou joga-lo por água abaixo). Para isso, os dicionários (de significado, de sinônimo, de analogia etc.) são uma ótima ajuda, porque eles têm um arsenal enorme de outras  palavras, o que pode te ajudar a chegar onde você quer.

Entender o círculo semântico das palavras também é uma forma de dirigir o leitor ao que você quer dizer no texto. Tanto no sentido de surpreende-lo quanto no sentido de deixar bem claro qual é seu ponto. A escolha é sua. O importante é você não ser pego de surpresa quando alguém falar que achou que o texto que você escreveu sobre relações amorosas assexuais era sobre gostar de bolo caseiro. Para criar um título bom, você precisa saber o que as palavras significam além delas mesmas.

 

Dica nº5: Crie e use referências

O exemplo que dei no ponto anterior, sobre relações assexuais e bolo, faz sentido. Assim como faz sentido falar de Taylor Swift e gaslighting ou educações alternativas e Harry Potter.

Existe uma brincadeira na comunidade assexual que diz que assexuais preferem bolo a sexo. Blank Space da Taylor Swift é uma grande risada na cara de quem fez gaslighting com ela. Hogwarts é uma escola extremamente tradicional, mesmo tendo magia no currículo escolar.

O que quero dizer com isso é: você pode e deve usar referências nos seus títulos, da mesma forma que usa nos seus textos. Sabe aquela pesquisa que você fez sobre o assunto? Sabe aquela fala da personagem que te marcou? Sabe a música que você ouviu em looping enquanto escrevia teu texto? Sabe aquele último parágrafo que você fez uma metáfora 10/10? Usa essa parte pro título.

Faça brincadeiras, trocadilhos, seja muito intelectual, abrace seu lado poético. Tudo isso fica mais fácil com referências que você mesmo pode criar.

 

Dica nº6: Seu texto tem a resposta

Essa é a maior Verdade que existe. Assim mesmo, com letra maiúscula e tudo. O seu título, de alguma forma, tem que estar no texto – afinal, o título é o nome da sua obra, é o faz daquele amontoado de palavras uma coisa única, indivisível, de completa coesão e coerência a não ser que seja o último livro de uma saga YA, aí dá pra dividir em dois filmes tranquilamente, aparentemente. Você talvez não tenha percebido, mas todas as dicas que dei até agora, de alguma forma, voltam ao que você tem escrito, voltam ao que já existe.

Miga, seu texto tem a resposta. Seu título já foi escrito. E foi escrito por você! Mas se você ainda não consegue enxergar isso dentro do seu texto, vão aqui algumas perguntas que podem te ajudar a chegar nesse ponto essencial que vem em forma de título:

  1. Qual o assunto central do seu texto?
  2. Tem alguma palavra que se destaca nele?
  3. Tem alguma personagem que se destaca nele?
  4. O ambiente é importante?
  5. Existe alguma metáfora ou analogia forte no seu texto?
  6. Algum sentimento prevalece durante a leitura?
  7. Existe alguma imagem central ou forte no texto?
  8. O texto se passa em alguma situação específica, como noite de natal, páscoa, aniversário etc.?
  9. Tem alguma ideia que se repete ou mesmo é constante durante a leitura?
  10. Você usa alguma referência musical, cinematográfica, literária etc. que pode ser trabalhada?

Essa são só algumas perguntas que podem te ajudar a encontrar o ponto nevrálgico, aquilo que melhor abrange sua criação. Você pode sempre pensar em outras a partir do que trata seu texto. Você também pode vir me perguntar, tem problema não.

 

Agora, pra vocês verem que eu não estou de sacanagem e que eu mesma sigo essas dicas e funciona, deixo aqui alguns títulos meus (alguns com links pros textos):

Primavera fora de época – pra Capitolina, sobre revoluções durante a história;

Alices no país do espelho – pra Capitolina, escrito com a Bleche, sobre distúrbios alimentares;

A passagem mais barata para [insira aqui um lugar real ou imaginário de sua preferência] – pra Capitolina, escrito com a Sofia, sobre como a ficção nos faz viajar sem sair do lugar;

Da linha à entrelinha: análise comparativa entre as formas das poesias modernista e marginal – trabalho de faculdade, sobre, bem, o que já diz o título;

Poeira do universo – uma série de poemas sobre o universo e pessoas e como somos de fato poeira estrelar;

A incrível saga do unicórnio que perdeu a bunda – uma zine que ainda não imprimi porque sou bunda mole, mas é basicamente um unicórnio em busca de suas nádegas;

Vida de unicórnio não é fácil
Vida de unicórnio não é fácil

O não-projeto do anti-projeto – trabalho de faculdade, sobre poesia marginal (que acabou rendendo nesse texto pra Capitolina);

Gênesis – outra zine que não consegui imprimir ainda, mas que fala basicamente sobre o surgimento do mundo.

 

Tem mais uma série de outros títulos (como disse, tenho mais título que obra pronta), mas como são coisas não publicadas, não vou jogar aqui na internet pra estranhos roubarem todas as minhas ideias. Vocês podem ver sempre as coisas que eu escrevo na Capitolina e na Pólen também.

Vemk brincar de arte pt. 2

Já disse a vocês que vou fazer uma série de posts sobre criatividade e incentivando todo mundo a parar com isso de queria-muito-desenhar-mas-não-sei-fazer-nem-boneco-palito.  O primeiro post foram apenas algumas dicas gerais motivacionais pra te dar forças, mas agora está na hora de começar com dicas práticas.

  1. Use o que você tem em casa

É muito, muito fácil não começar a se aventurar ~nazarte~ porque você tem que comprar um caderno, caneta, tinta, o diabaquatro. Mas agora essa sua desculpa acabou, porque tudo que tem na sua casa pode ser material pra você começar a trabalhar!

01 caneta bic + jornal velho? MATERIAL PRAZARTE.

½ dúzia de lápis de cor velhos + 01 livro que você odeia? MATERIAL PRAZARTE.

01 lápis grafite + 08 guardanapos? MATERIAL PRAZARTE.

Pode rabiscar em livro sim!
Pode rabiscar em livro sim!

Q?????????? POIS É, MINHA GENTE! TUDO ISSO PODE SER MATERIAL PRA VOCÊ COMEÇAR A DESENHAR/ PINTAR! Até porque, a real, é que, no começo, não importa tanto a sua produção, mas sim o hábito de produzir. Então, pega aquela caneta que você deixa na cozinha e o bloco de anotações que você leva e RABISQUE!

Sério, olha as coisas que eu fazia. Só tinha pilot e um caderno bem tosqueira.
Sério, olha as coisas que eu fazia. Só tinha pilot velho e um caderno bem tosqueira.
  1. Comece com material barato e/ ou com pouca qualidade

Ok, digamos que você começou um leve hábito e agora quer mesmo experimentar cores, texturas, espessuras de ponta de caneta ou pincel ou lápis. Ou digamos que você simplesmente ignorou a dica #1. Ou então você estava caminhando pela rua quando se deparou com uma papelaria na sua frente. MARAVILHA!

Acontece que você não sabe usar nenhum material, não quais características de cada material te interessam mais, muito menos o que você quer fazer com isso. Sem pânico! É assim mesmo que a gente começa. Não tem como sermos bons em algo sem antes não tenhamos tido a menor ideia do que estávamos fazendo. Por isso mesmo que, pro comecinho, a dica é usar materiais baratos e/ ou de pouca qualidade. Você não vai gastar muito dinheiro com isso, vai se sentir confortável pra errar (porque não é caro, porque não é algo bom e você não vai pensar que ~não merece~ um material decente) e não vai ficar com aquele demoniozinho atrás da orelha que te faz se sentir culpada por não saber usar o material maneiro que você tem.

Quando temos um material que sabe que é incrível, mas  não sabemos usa-lo, acabamos nos censurando. Ficamos com dó de usar, de gastar, de fazer coisas que achamos feias só porque o material é bom e nós não somos. Mas se a gente não pratica, como é que aprende? Pois é, não aprende. Por isso que é bom usar material que não nos importamos de gastar – material barato e/ ou de pouca qualidade.

Primeiros materiais quando comecei a pintar: giz de cera e aquarela de lembrancinha de festa de criança e um caderno do Che Guevara.
Primeiros materiais quando comecei a pintar: giz de cera e aquarela de lembrancinha de festa de criança e um caderno do Che Guevara.
  1. Pode começar copiando, sim

Ter ideias nem sempre é a coisa mais fácil do mundo, especialmente quando estamos:

  1. Sem entender o que fazer com o que temos em mãos
  1. Em pânico por começar algo novo com o qual não sabemos lidar

Mas, de novo, vem aquela coisa: é preciso começar por algum ponto. Então, se você está sem ideias, se você não sabe o que fazer, se você quer aprender padrões novos, testar diferentes traços etc. etc. etc., COPIE! Busque referências nas internerts, em revistas, livros, fotos, na propaganda que tem no ponto de ônibus perto da sua casa. Copie as cores, os padrões, a distribuição de espaço do desenho. Copie os traços mesmos. Faça 15 narizes, 40 bocas, 900 mãos, 7 árvores, 30 gatinhos, 75 arabescos. Não precisa – e nem deve – ficar igual à imagem que você copiou.  Não tem que chorar porque você não sabe desenhar pés (e quem sabe? Ninguém), porque seu desenho não ficou igual à imagem original, porque tudo parece torto e feio e socorro!!! Miga, é durante a cópia que você aprende o que funciona e o que não funciona pra você. A cópia tá aí pra você treinar, pra você aprender, pra você criar suas próprias referências. Ela é um ponto de partida, nunca o objetivo final.

Teste de padrão antes de eu começar a fazer padronagem de fato. Copiei de desenhos do tumblr.
Teste de padrão antes de eu começar a fazer padronagem de fato. Copiei de desenhos do tumblr.

 

E, aqui, pra vocês ficarem de boas, ficam aqui alguns dos meus primeiros desenhos. YAY!

Minha primeira aquarela :OO
Minha primeira aquarela em bloquinho de aquarela :OO
Lápis de cor e caneta bic OUIÉS
Lápis de cor e caneta bic OUIÉS
Feito com aquela aquarela de lembrancinha que mostrei antes.
Feito com aquela aquarela de lembrancinha que mostrei antes.

Vemk brincar de arte

Desde pequena eu tenho esse rótulo de criativa, o que é bem engraçado. No ensino fundamental, eu sempre tirava 10 nas aulas de artes e minhas amigas ficavam “aff, como você consegue?” e a verdade é que eu nunca soube. Até hoje lembro de uma colagem com bolinhas que tivemos que fazer – a professora amou muito a minha especialmente, mas a verdade é que eu só colei bolinhas aleatoriamente pelo espaço. Arte, pra mim, sempre foi um pouco isso: fazer coisas aleatoriamente pelo espaço e as pessoas me dizerem que ficou lindo.

Por um tempo, abandonei azarte plásticas e comecei a escrever. Meus amigos, novamente, não entendiam como eu conseguia. Eu escrevia todo o santo dia e todo mundo achava incrível e maravilhoso, mas a real é que eu só estava escrevendo o que estava me acontecendo com outros nomes. Pelo menos, foi assim que começou. Uma amiga minha disse que a história da minha relação com o bói seria uma ótima fanfic, bastava trocar o nome das personagens, e eu curti a ideia e comecei a escrever. No meio do caminho que peguei o jeito, que comecei a fugir da história real, que decidi começar a elaborar mais a ideia de narrativa e tudo mais. Só depois que eu estava há anos escrevendo sem preocupação que me veio a ideia de levar isso mais a sério. Aí, foi testar formas, gêneros, ideias aos poucos e sem muita noção do que eu estava fazendo.

Com a faculdade, voltei a desenhar. De repente, escrever virou um ato tão sério que a única forma de me divertir de uma forma que eu me sentia producente foi voltar às artes plásticas. E, com isso, fui para aquarela, guache, hoje tenho me divertido com colagens. Mas eu nunca estudei nada disso. Aliás, estudar Letras me bloqueou a escrever mais, mas falo disso com calma outro dia. A questão aqui é: você não precisa saber técnicas para fazer arte. Pelo menos, não no começo, não quando você começa.

Como eu virei essa pessoa aparentemente muito criativa, muita gente vem me perguntar como eu tenho tanta ideia, como elas podem começar a fazer suas próprias artes, como fazer coisas bonitas. Por causa disso, decidi fazer uma série de dicas para quem quer começar a desenhar. Nada do que vou dizer está nos livros, nada do que eu vou dizer é pra você virar o próximo Juan Miró, mas se tudo der certo, você vai gostar de desenhar e fazer coisas das quais tem orgulho. E é isso o principal: você se sentir satisfeita com o que faz. Então, vamos aos primeiros passos!

  1. Arte é brincadeira, não é pra ser coisa séria

Quem leva arte a sério são os críticos e, cá entre nós, ninguém gosta deles. Então esquece essa coisa de ser sério, de criar conceito, de tratar da beleza, da diferença, do ser. Só pega o papel e faz teus rabiscos. Joga as cores que você acha daora, cola uns negócios em cima, faz umas formas legais, cria uns padrões se quiser, deixa espaço em branco. Faz o que te diverte, o que te alivia, o que te faz se sentir bem. Assim como a gente sai da brincadeira quando não gosta, também dá pra parar de fazer arte quando aquilo te estressa, te consome, te deixa mal.

Vai por mim: só rabisca aí.

  1. Assim como a arte, você também não é pra ser sério; abraça a zoeira que tá dentro de você ❤

A gente cai muito nessa armadilha de que temos que ser pessoas sérias e profissionais o tempo todo ou então somos desequilibrados. Galera, vamos parar com essa história. Somos humanos, orgânicos, temos nossos momentos. Se já temos que ser sérios no trabalho, na escola, na faculdade, por que raios vocês querem ser sérios também quando estão fazendo arte?!?!?! Lembra do ponto 1? Arte é brincadeira.

Então relaxa aí, respira fundo e, novamente, faz uns rabiscos. Dá suas risadas, tira os sentimentos que estão no seu peito, preenche seu tempo fazendo risquinhos, zoa aquela galera que tirou uma com a sua cara na segunda-feira. Faz o que te parece natural. Depois, quando você acabar, pode inclusive brincar de zoar os críticos e conceituar aquilo que você fez só na brincadeira. (Eu tenho certeza absoluta que todo bom artista moderno e contemporâneo fez/ faz.)

  1. Criatividade é uma mentira

Whaaaaat?! Tá de zua, Clara!! NÃO, NÃO ESTOU! Criatividade é uma mentira. Essa ideia de que há pessoas criativas e pessoas não criativas é completamente sem sentido, porque todos nós no mundo criamos coisas. Eu crio, você cria, tua mãe cria, teu cachorro, teu gato e teu papagaio também criam. Criar é fazer algo do zero e, migue, isso todo mundo faz. Criar é também ter ideias e se apropriar delas. E isso não é tão difícil de fazer, desde que você pare de martelar sobre seus medos e anseios e apenas faça. E isso nos leva a…

  1. Ninguém sabe o que está fazendo

Confia em mim nessa. Ninguém tem a menor ideia do que tá fazendo – pelo menos, não no começo. A real é que todas as pessoas só estão por aqui consumindo coisas dessa bola flutuante no meio do vácuo. Tipo, literalmente, é isso o que estamos fazendo. Você acha mesmo que alguém que está consumindo coisas de uma pedra gigante que flutua no meio do vácuo tem alguma ideia do que está acontecendo? Pois é, não. Então, só relaxa. Pega seu papel em branco e começa a fazer o que parece natural pra você. É fazer milhões de riscos pretos? É jogar tinta no papel todo? É fazer pintura com o dedo? É fazer vários furos com o lápis? É amassar vários papeis e fazer uma torre? Não importa, desde que você faça! O negócio é encarar o medo do papel em branco e começar a preenche-lo – o que vai acontecer depois são outros quinhentos.

  1. Autoconfiança é uma construção social

Parece filosófico, mas é só um fato. Ninguém na vida é realmente autoconfiante, todos temos pontos de insegurança. A questão é: você vai deixar esses pensamentos remoendo na sua cabeça e lentamente te consumirem até você acreditar que você é a pior pessoa do mundo OU você vai ignorar esses demoniozinhos e tirar uma selfie com o seu trabalho artístico pra gente poder ver no instagrão, no saite feicis, no snépichéti e o diabaquatro? POIS É, A SEGUNDA OPÇÃO!

E não esqueçam: arte é só uma brincadeira, uma forma de praticar novas expressões e estéticas. Se disso acabar saindo uma grande obra, uma nova forma de ver o mundo, maravilha! Mas antes de revolucionarmos a história, precisamos começar de algum ponto. Ou você acha mesmo que Picasso chegou lá um dia, pegou um pincel pela primeira vez e fez a Guernica?

Às vezes, a gente acaba esquecendo de tudo que os grandes artistas tiveram que passar para serem quem são hoje. Mas uma coisa meu pai me ensinou bem, e passo essa sabedoria pra vocês hoje: todo mundo tem mais trabalho ruim do que bom, as pessoas só não mostram! Então, vá em frente! Te juro: não é tão difícil assim uma vez que você começa.

Alou, alou W Brasil OU Porque pensar não é sempre a melhor opção do mundo

Esse é o primeiro póst desse blógue e gostaria que, antes de mais nada, todos vocês batessem palmas e me congratulassem por FINALMENTE CONSEGUIR FAZER UM BLOG.

Acho que criar isso daqui foi uma das coisas mais difíceis que decidi fazer e realmente concretizar. Mais difícil até que escolher (e passar!) na faculdade. Sei que parece muito absurdo dizer isso e totalmente dramático, mas tem um fundo de verdade (outro de hiperbolismo). Peraê, vou explicar melhor.

Em geral, a maior parte das decisões que tomei na minha vida que deram certo foram porque eu fui na impulsividade. Mesmo que eu já estivesse pensando sobre o assunto, sempre tomei decisões meio “ok, deu, vou fazer isso aqui acontecer”. E aí aconteceu. Foi assim com a minha escolha de faculdade, com a Capitolina, com os cursos de livro-álbum. Foi assim que eu dei meu primeiro beijo, que eu conheci algumas das minhas melhores amigas, que acabei indo falar na assembleia de greve na faculdade no meu segundo ano de faculdade e é assim que vou pra maioria dos eventos que me convidam pra falar.

Eu não gosto de pensar muito sobre as coisas que tenho que fazer ou que quero fazer, porque quando penso demais acabo ficando neurótica com as milhões de possibilidades, vivo todas na minha cabeça e aí acabo ou me satisfazendo com o sonho ou tendo receio (mentira, é medo mesmo) do que pode acontecer. Então, fico paralisada e isso é horrível, todo mundo sabe. Não conseguir fazer as coisas que você precisa ou quer fazer é sempre desesperador. Aí, você só consegue pensar sobre o assunto ao mesmo tempo que só quer ficar debaixo da coberta, encolhida, ignorando o mundo lá fora e dando umas choradinhas de vez em quando. Você acaba entrando em um processo de ansiedade e/ ou auto sabotagem, é péssimo, é frustrante, não tem nada a ver com nada. Por isso que o bom mesmo é não pensar muito. Porque aí a linha de raciocínio é uma delícia! É assim:

  1. Se pa que isso é daora
  2. Ow, isso é bem daora
  3. Nss, tópi, vou fazer isso

E AÍ VOCÊ CHEGA LÁ E FAZ!!!!!!!!!!!!!!! Incrível, né? Também acho.

Você não cria grandes expectativas, você não tem como se frustrar, você não se cobra mais do que devia, não rola nenhuma crise. É por isso que tento praticar ao máximo essa fórmula, que no fundo é também a fórmula de acreditar em mim mesma.

Acreditar que você tem uma ideia boa, que você sabe fazer aquilo, que você tem o que dizer e que o que você pensa, o que você acredita, o que você tem dentro de si é importante e deve ser escutado. Se você acredita em si mesma, não fica tão difícil fazer as coisas. Mesmo que bata aquele medo, mesmo que pule na sua cabeça aquele demoniozinho do “e se?”, mesmo que outras pessoas perguntem “nossa, mas você tem certeza que consegue?”. Quando você acredita em você mesma, esse suporte já está resolvido. Você sabe que vai conseguir – mesmo que não saiba direito como.

É o que acontece comigo quando vou falar em eventos, por exemplo. Eu não gosto de pensar muito sobre o que vou falar, porque sei que as pessoas me chamaram para ouvir as coisas que penso – e se eu penso isso hoje, amanhã pensarei parecido, talvez amanhã pense coisas mais interessantes, talvez amanhã tenha lido outras coisas que tenham me agregado mais, talvez no evento tenha alguém que traga uma discussão nova que eu posso pensar lá, junto com um montão de outras pessoas pensantes e incríveis. Não precisa esquentar, percebe? Porque quando tem troca, tá tudo bem.

Mas aí veio a ideia de fazer um blog e, de repente, me vi presa nos meus loopings de “e se?”. E se eu não tiver tempo para escrever? E se ninguém ler? E se eu parecer muito chata? E se eu não souber fazer um layout razoável e ficar muito tosco? E se eu me perder nos mil pensamentos e não ter uma linha editorial? E se ficar confuso? E se, por não ter uma revisora, eu acabar falando bosta? E SE EU ERRAR E SEPARAR SUJEITO DO PREDICATO POR VÍRGULA????????????

Foram meses, MESES!, de eu conversando com algumas amigas em crise de faço-ou-não-um-blog. O tempo todo elas me falaram pra eu parar de palhaçada e começar a escrever. O tempo todo elas me falaram que eu tenho coisas interessantes a dizer e que as pessoas vão ler. O tempo todo elas disseram que me ajudariam com todo o apoio moral.

Eu fiz milhões de mapas conceituais me perguntando sobre o que eu queria escrever, como eu queria escrever, qual seria o meu público. Decidi por ignorar tudo isso, por confiar nas minhas amigas e, por consequência, confiar em mim mesma. Pra fazer como sempre: só vai e faz.

Sério, eu fiz vários gráficos mesmo.
Sério, eu fiz vários mapas conceituais de verdade.

Esse blog provavelmente terá:

  1. Dicas sobre qualquer coisa
  2. Top livros, filmes, artistas, álbuns, plantas etc.
  3. Eu falando mal da academia
  4. Eu falando mal do sistema de educação (especialmente sobre a minha antiga escola)
  5. Eu amando muito YA e meninas adolescentes
  6. Desenhos e fotos e esquemas de cores e estéticas que curto
  7. Muito uso de “e”, vírgulas e caps
  8. Eu sendo prolixa
  9. Eu escrevendo coisas como “alou”, “instagrão”, “blógue”, “bréja”, “nóix” etc.
  10. Títulos gigantescos
  11. Referências bizarras e/ ou excêntricas como: Tom Zé, Jesus Christ Superstar, William Wegman e livros infantis experimentais da Europa Oriental
  12. Eu convocando as pessoas pra revolução
  13. Eu convocando as pessoas para ficarem em harmonia com a natureza
  14. Zoeira
  15. Talvez umas menções a astrologia
O mapa conceitual final (dedicado a Laura e com o perdão da Maíra)
O mapa conceitual final (dedicado a Laura e com o perdão da Maíra)

Então, pra acabar, fica aqui minha primeira dica: se vocês quiserem fazer um blog, só façam. Não sigam meu exemplo, não dá certo essa história de pensar muito, não. Só vai e faz. É issaê. 10/10, amigues!