Guia prático de como se divertir em museus

Eu não sei vocês, mas quando eu era pequena, a escola hora e outra nos levava a museus da cidade e era um saco. Nós tínhamos que sempre seguir a professora e o guia chato do museu. Tínhamos que sentar em frente a quadros sem graça e ficar um tempão ouvindo o guia falar sem parar sobre aquela telinha que a gente nem gostava. Se conversássemos, levávamos bronca. Se olhássemos para os outros quadros, levávamos bronca também. Tínhamos que prestar atenção naquela única tela, enquanto tinham salas e mais salas com outras coisas que pareciam muito mais legais aos nossos olhos. Mas nós não podíamos parar e ver os outros quadros, as outras obras, porque estávamos nos dispersando do grupo, atrasando o grupo, porque tínhamos que seguir o cronograma de quadros que já tínhamos visto nos livros de história e já estávamos cansados de ouvir sobre eles.

Por algum tempo, museu sempre foi chato pra mim por causa disso. Eu não queria saber de toda a história por trás daqueles quadros – porque isso sempre me remetia aos guias e seus monólogos infinitos. Mas, por sorte, meus pais sempre insistiram nos museus e me ensinaram a ver as coisas de outra maneira.

Eu aprendi a gostar de arte mesmo com os quadros do Veemer, por causa de um livro de mistério que li. Eu me encantei pela quantidade de detalhes e a perfeição de tudo aquilo. Podia ficar horas caçando as coisinhas pequenas que estavam naquelas pinturas. Mas foi com onze anos, quando vi um Klein em pessoa pela primeira vez, que as coisas mudaram.

Primeiro, eu fiquei indignada que um quadro todo azul estava no museu. Depois, eu fiquei com raiva. Então, eu disse que se era assim, eu também podia fazer aquilo. Aí, eu refutei tudo que meus pais disseram sobre como era difícil chegar naquele tom de azul e como era revolucionário um quadro assim. Meses e meses e meses depois, eu ainda pensava sobre aquele quadro – e foi aí que percebi o quão incrível ele era.

Depois disso, museus ficaram mais divertidos. Eu e meus pais entravam em discussões longas sobre os quadros e começamos a fazer uma série de brincadeiras que agora passo a vocês.

Brincadeira nº1: ler o nome dos quadros e entender por que raios aquela bolinha azul se chama Tarde de Verão no Rio Senna

Porque, sério, vocês já viram nome de quadro? Ou eles são extremamente sem criatividade (o que é divertido pensar – porque, afinal, como alguém que conseguiu pintar milhões de telas incríveis não consegue ser criativo o suficiente pra dar um nome legal ao quadro?) ou eles não fazem sentido algum e é excelente! Discussões incríveis saem daí.

 

Brincadeira nº2: apostar quantos quadros clichês na história da arte terão na próxima sala

Natureza morta: 8. Mulheres peladas: 4. Vistas de nascer ou pôr do sol: 11.

Quando viajei com meus pais para a Itália, essa se tornou uma das nossas brincadeiras preferidas: Anunciação: 19; Crucificação de Cristo: 32; Última ceia: 8. Eram tantos quadros da mesma época que as apostas começaram a ficar acirradas e tivemos que começar a anotar tudo, porque se não podia rolar briga.

 

DSC_0729a

Brincadeira nº3: selfie no museu!

QUEM TIRAR AS MELHORES SELFIES GANHA! QUEM TIRAR MAIS SELFIES COM QUALIDADE GANHA MAIS AINDA! VALENDO!

Também vale ver quem encontra o bebê Jesus mais feio!

 

Brincadeira nº4 e a melhor de todas: don’t dream it – be it

Essa brincadeira consiste em imitar os quadros e estátuas e tirar fotos disso. Mais do que selfies em museus, estamos falando de uma verdadeira revolução de como lidar com os objetos de arte. Pois não apenas você vê a beleza na própria obra, mas passa também a pensar nela como um suporte para sua própria performance.

 

As duas primeiras brincadeiras são mais simples, pois ninguém além de você e seu grupo sabe da brincadeira. Parece apenas que vocês são muito intelectuais anotando coisas, vendo as informações sobre o quadro e discutindo as obras de arte. A terceira, porém, exige uma exposição que pode parecer vergonhosa no início, mas em verdade é maravilhosa.

Particularmente, tive muita dificuldade com a última brincadeira por muito tempo, mas depois de viajar com sozinha, essa brincadeira se tornou a minha preferida – e a faço toda vez que vou a alguma exposição (ou mesmo quando vejo estátuas na rua). Normalmente, as pessoas vão olhar pra você imitando quadros e estátuas – e, se por um lado é meio esquisito gente olhando pra você, por outro lado é maravilhoso porque, quando você vai embora, sempre tem aquele grupo de turistas japoneses que acham o máximo e resolvem fazer o mesmo que você baseado em fatos reais, e aí eu pergunto: existe coisa melhor do que trazer alegria pros outros? Não, amigues, não existe.

E é por isso mesmo que deixo aqui pra vocês alguns resultados da melhor brincadeira de todos os tempos!

Este slideshow necessita de JavaScript.

Nosso totem tabu

Hoje é dia das mulheres, 8 de março e aquela história toda. E, bom, eu sou feminista, edito uma revista feminista, vivo falando de feminismo por aí. Ficaria esquisito deixar passar esse dia em branco. Então, cá estou escrevendo algo especial sobre mulheres nesse dia de hoje.

Antes de começar esse texto, no entanto, me veio a grande questão: o que dizer a vocês se já estamos num ponto que tem textão na internet sobre tudo? Vocês já devem ter lido milhões de textos sobre a importância da legalização do aborto, a necessidade de ler mulheres, a falta de mulheres em todos os ambientes de trabalho, a objetificação da mulher e a comercialização de um dia que deveria ser símbolo da nossa luta. Pelo menos, acredito que, se você chegou até mim, você deve ter contato com esse tipo de discussão nas suas comunidades sociais e internáuticas. E, sabe, eu não queria ser mais uma falando sobre o assunto – até porque muitas outras mulheres podem falar bem melhor sobre essas coisas do que eu. Também não queria vir aqui contar a minha história sobre crescer como mulher e ser mulher, porque não sinto que vou acrescentar nada em especial contando da minha vida assim, da mesma forma que acho muito mais interessante que nos conheçamos aos poucos e eu guarde minhas histórias para outros momentos (e aproveito para contar a vocês que comecei uma newsletter porque eu não tenho limites e queria me aproximar mais de vocês <3).

Por causa disso, resolvi falar sobre um dos temas mais batidos de todos: a Capitu.

– E aí, galera? Traiu ou não traiu Bentinho? rsrsrs

Brinks. Todo mundo sabe que não importa se ela traiu ou não – apesar de que, nos nossos corações, todo mundo torça para que ela tenha sim traído, porque eita cara chato. Essa piada chega até a ser chata, mas eu sou uma tradicionalista no quesito piadas e todo ano na ceia de natal eu pergunto se é pavê ou pacumê, e olha que nunca teve pavê na minha casa. Por isso tive que perguntar -e por isso também peço desculpas, mas a zoeira, por pior que seja, ainda é maior que o controle da minha escrita. Espero que isso não mude.

Mas voltemos à Capitu.

Olhos de cigana oblíqua e dissimulada, olhar de ressaca, Capitu que vem de capitã. Todos nós já ouvimos esse papo da análise da personagem em algum momento na vida. Como a visão do leitor sobre a Capitu é manipulada pelo Bentinho, como ela é esperta e sabe manipular o cara, como ela usa sua feminilidade pra conseguir o que quer, como ela é dona de si, uma verdadeira capitã da própria vida, blablabla.

Gente, a menina tinha 15 anos em quase metade do livro. Mesmo que ela fosse super esperta, ela continua sendo uma garota de 15 anos que estava flertando com o bói vizinho. Aconteceu uma situação parecida com todas nós. Aconteceu até com a Taylor Swift, sabe? Quem nunca fantasiou uma história dessas quando tinha 15 anos, néam? A ficção – seja ela contada nos livros e filmes, seja ela contada por nossos parentes que dão aquele sorrisinho quando nos vêem brincando com um menino qualquer e depois vêm nos perguntar com olhos curiosos quem era – nos ensina a fantasiar esse tipo de coisa o tempo todo. A Capitu é que nem nós nessa, com a única diferença que ela conseguiu mesmo pegar o bói (porque, sejamos honestas, nunca ouvi uma história real em que vizinhos se apaixonaram. Na maioria dos casos, inclusive, o cara era gay).

Então, Capitu era uma menina de 15 anos, mas os críticos literários afirmam porque afirmam que ela era dona do próprio nariz e que podemos perceber isso a partir do que conta o Bentinho, a partir de como ela se portava diante dele. Os críticos dizem: é preciso entender a manipulação do narrador, é preciso ler nas entrelinhas para entender quem é Capitu seria ela uma espécie de Lolita brasileira?. Eles estão certos quanto a isso. Mas eles continuam caindo no conto do Bentinho, eles continuam sendo homens e não entendendo nada do universo da mulher.

Os críticos se focam tempo demais na descrição do olhar da personagem, mas se esquecem da coisa mais simples, mais óbvia, mais factual: seu nome.

Capitu vem de capitã, dizem. Mas isso é mentira, lorota boa. E posso comprovar pra você apenas abrindo o livro, porque lá está escrito de forma clara e explícita que Capitu vem de Maria Capitolina. Não tem nada que ver com capitã, por mais que soe bem aos ouvidos dos críticos.

Capitu vem de Maria Capitolina, diz Bentinho, Machado de Assis e eu, que não tenho nada a ver com a história, mas cá estou dizendo:

– Maria Capitolina.

Maria, uma mulher virgem, prometida para casar, a qual ficou grávida de Deus e quase foi condenada à morte se José não tivesse a ~bondade~ de não entregá-la às autoridades e que quase se tornou mãe solteira no meio de uma região desértica se não fosse a ~honestidade~ de Deus de ter contado pra José o que fizera. Maria, uma mulher que, depois de ter o filho de Deus, nunca mais teve contato com ele, pois agora ~Ele~ se comunicava apenas com seu marido e seu filho. Maria, uma mulher que viveu na pobreza a vida toda, que viu seu filho ser assassinado pelo governo enquanto ainda era jovem, que perdeu seu filho único numa guerra de ideias e ideais. Maria, uma mulher que deu a luz ao símbolo de um dos maiores impérios, o império religioso.

Esse é o primeiro nome de Capitu, e todo mundo sabe que o nome não está aí à toa, que a história que ele carrega é também a história da personagem. Parte de Capitu carrega consigo a marca da virgem, da mãe do espírito santo, de uma gravidez não desejada nem planejada mas que aceitou porque era o jeito.

Mas aí é que entra o segundo nome da personagem mais famosa da literatura brasileira: Capitolina.

Capitolina é a loba que deu de mamar para Remo e Rômulo, na mitologia da construção de Roma. Capitolina, uma mãe que adotou filhos que não eram dela. Capitolina, uma loba. Capitolina, aquela que amamentou os irmãos que construiriam uma das cidades mais importante da história. Capitolina, aquela que alimentou um dos maiores impérios já existentes.

Capitu é construída por duas imagens de mulheres extremamente fortes. Duas mães isso ajuda a responder se ela traiu ou não Bentinho? Quem sabe? Quem liga?, duas mulheres que tomaram decisões difíceis, mas se mantiveram firmes. Duas mulheres que amamentaram impérios.

Aí é que vemos o erro dos críticos. Capitu não é capitã, ela não tem sua vida nas mãos, essa interpretação é tão pobre, tão parca, que chega a ser risível ver que Os Grandes Pensadores Da Literatura Brasileira™ nunca conseguiram ir além. Toda interpretação que já vi sobre Capitu acaba aí – no meu segundo e terceiro ano de colégio, durante toda a faculdade de Letras, mesmo na música do Tatit ou nos textos do Bosi, Candido, Villaça ou qualquer outro dos grandes nomes da nossa literatura.

Todos esses homens ignoraram o primordial, todos esses homens fizeram como todos os outros homens e ignoraram o começo de tudo: o nome da mulher e, logo, sua identidade.

Eu acreditei neles por muito tempo. Até chegar o dia em que eu, Sofia e Lorena percebemos que precisávamos dar um nome à revista que queríamos lançar. Ou melhor, até um pouco depois desse dia. Pois acontece que eu lembrei que Capitu era apelido e que ela tinha um outro nome. Então, fui ver no livro e lá estava: Maria Capitolina. Era muito grande pra uma revista, então ficamos com o segundo nome. Era forte, era bonito, era enigmático, era a referência à mais importante personagem da nossa literatura. Capitolina juntava tudo o que queríamos: uma garota brasileira adolescente que sofreu muito por causa do patriarcado – era exatamente esse o público que queríamos atingir. Foi o encaixe perfeito – e as garotas da revista concordaram.

A Mazô disse que pesquisou no google e que o resultado era maravilhoso. Na época, ninguém deu muita boa pra isso. Mas um ou dois meses depois, tendo que explicar toda vez o nome da revista, lembrei do post da Mazô e pesquisei o nome. Foi quando descobri quem era Capitolina e, junto a isso, descobri duas coisas: o que estávamos fazendo com a nossa revista e quem era Capitu.

Eu gosto particularmente quando o Tatit fala na sua música:

Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu

Eu gosto particularmente da ideia de totem tabu, porque é exatamente isso que é a Capitu na sociedade patriarcal. Ela é o sonho e o pesadelo não apenas do Bentinho, mas de todo cara que leu Dom Casmurro. E eles nos fazem querermos ser como a Capitu, mesmo quando não temos e nem queremos ter olhos de cigana oblíqua e dissimulada, mesmo quando somos as pessoas mais transparentes e honestas que alguém podia encontrar, mesmo quando o final da personagem é horrível. Nós não somos a Capitu – e por isso mesmo gosto tanto também do verso seguinte, “a mulher em milhares”.

Capitu também não era a Capitu™. Ela era uma outra pessoa que a gente nunca vai saber porque o Machadão quis assim. A Capitu era uma garota como todas nós somos garotas, como todas nós fomos garotas. E nós também fomos e somos colocadas como totem e como tabu. Nós também fomos e somos o sonho e o pesadelo de muito cara por aí. E isso não é porque somos capitãs da nossa própria vida, mas sim porque somos mães de um império que o alimentamos e construímos todos os dias. Porque nós somos as responsáveis pelo mundo onde as mulheres são livres e o patriarcado é uma lenda antiga.

Toda mulher quando deixa de se encaixar num dos estereótipos que os homens criaram é ameaçadora. Toda mulher não se encaixa nesse estereótipo. Isso é um tabu no mundo patriarcal.

Toda mulher quando assume que não se encaixa no lugar que lhe foi concedido, quando nega esse lugar e decide mudar a sociedade que a fez estar ali constrói parte do nosso império. Não falo aqui do matriarcado e não me venham com papo de feminismo como opressão dos homens, falo de um império em que todas as pessoas independentemente de seus gêneros (e de suas raças, sexualidades, nacionalidades, classes sociais etc.) são livres. E cada mulher que alimenta parte desse império é um totem na nossa história.

Nesse 8 de março, espero que nós mulheres sejamos totem-tabu. Um totem-tabu à nossa maneira, de acordo com as nossas regras. E, assim, construamos mais um pedacinho desse império que começou com Maria, com Capitolina e vai continuar conosco.