Hogwarts vai virar Brazuca 2, ou Clara Browne e a Rede Social Secreta

No começo de outubro, escrevi um ~pôust~ pensando sobre o mundo de Harry Potter e a comunidade bruxa brasileira.

Tudo começou com uma simples pergunta: como seria a Hogwarts brasileira? Mas aí virou uma grande discussão sobre a história da comunidade bruxa daqui e como isso se refletiria na(s) escola(s) de magia daqui. Acontece que, nesse meio tempo, a JK decidiu, do além, contar sobre a escola de bruxaria brasileira, a pouquíssimo criativa Castelobruxo – o que me deixou extremamente irritada, dado que, como sempre, ela errou tudo. COMO ASSIM ELA ERROU, CLARA?, você me pergunta. E eu te respondo: porque ela ignorou completamente toda a história de formação do Brasil (e de toda a América Latina, na real) e só fez um lance muito preguiçoso dizendo que nossa escola seria na Amazônia porque “ah, tem várias plantas, uns indígenas e o império inca chegou ali pertinho” e dizendo que seríamos bons em herbologia porque “ah, Amazônia tem várias plantas, néam rsrsrs”. Mas, enfim, eu não estou aqui pra dizer que a JK está errada. Estou aqui para discutir com vocês como o nosso processo de colonização teria interferido na comunidade bruxa. E, claro, com isso, mostrar como a JK está errada, mas isso só veremos no capítulo final: Clara Browne e a JK da Morte.

Pra relembrar vocês que ficaram com preguiça de clicar no link do outro post, comecei me fazendo – e tentando responder – algumas perguntas sobre como teria sido o processo de colonização bruxa aqui no Brasil, e algumas implicações que isso levaria. Também comentei que, como eram muitas perguntas (e com respostas enormes), decidi fazer uma série de posts e, já que estamos aqui, aproveito pra avisar que serão 7 posts no total (até porque, depois disso, não dá pra fazer muito mais piadinha mentira, tem Fantastic Beasts and Where to Find Them e também o The Cursed Child, mas deixemos pra depois).

Enfim, voltando ao Brasil, eu perguntei numa rede social secreta o que as migas achavam que aconteceria na comunidade bruxa brasileira pós processo de colonização. Depois de muita conversa e muito caps, anotei tudo num diário que vou fazer de horcrux se não conseguir atingir a imortalidade sendo uma escritora famosa e divido aqui com vocês nossas conclusões.

 

1. Como ficou a comunidade bruxa por aqui? Como ela se integrou?

Ok. Então bruxos europeus vieram para cá com a cabeça de colonizadores, bruxos de povos africanos foram trazidos como escravos e por aqui já existiam bruxos indígenas em suas comunidades. Como isso afeta o mundo bruxo?

Definitivamente, teríamos um sincretismo muito complexo. Cada região tem influências diferentes: além dos diversos povos africanos trazidos para diferentes lugares do Brasil e das inúmeras comunidades indígenas que se encontravam por aqui, temos também as diferentes colonizações – portugueses por todo o canto, holandeses no Nordeste, alemães no Sul, franceses no Sudeste… Isso sem contar os povos que vieram pra cá pós colonização – como japoneses e árabes.

Pelos pontos anteriores, já conseguimos perceber que, apesar da separação entre comunidade bruxa e trouxa, o modo de raciocínio político de ambas é no mínimo muito parecido (pra não dizer igual), por vir de uma questão cultural. Pensando assim, o que parece ser mais verossímil é que, de forma geral, a comunidade bruxa brasileira tenha se estabelecido como a nossa: nos moldes dos colonizadores, ou seja, da comunidade bruxa europeia. Da mesma forma que os portugueses trouxas decidiram catequizar os índios, os portugueses bruxos facilmente podem ter traduzido essa ideia para suas realidades, de forma a ensinar seus métodos mágicos aos bruxos daqui, como se a mágica europeia fosse a ~verdadeira mágica~.

É claro que é possível que a catequização bruxa tenha demorado mais para vir. Afinal, sabemos que a comunidade bruxa não é lá muito grande – então, quais as chances dos bruxos terem se encontrado assim logo de cara, não é mesmo? Mas apesar dessa demora um pouco maior, não há como negar que esse encontro se daria com europeus se achando o máximo e os índios se perguntando “omi, q q tá c/ t seno?”. É claro que, sendo os colonizadores que eram, os bruxos europeus se veriam como superiores, como mais civilizados, teriam todo aquele papo que já ouvimos milhões de vezes e reviramos os olhos cansados de tanta bobagem, prepotência e opressão juntas. Ao mesmo tempo, é também possível que os bruxos europeus buscassem ajuda dos bruxos indígenas para entenderem melhor o uso das plantas nativas para suas poções ou mesmo de pedras brasileiras para seus rituais. Os bruxos nativos, apesar de serem vistos também como selvagens, teriam seu valor por conhecer o solo daquela terra tão nova aos europeus. Os bruxos nativos seriam vistos com olhar antropológico, curioso, mas nunca estando no mesmo patamar de um bruxo do norte da linha do Equador.

Em compensação, em relação aos bruxos africanos, os quais tampouco conheciam as terras daqui, os europeus apenas os ignorariam, colocando-os sempre como escravos e sem reconhecer seus poderes. Possivelmente, os próprios bruxos escravizados preferiam manter suas habilidades em segredo, de forma a conseguirem se defender, sobreviver e ajudar sua comunidade assim.

 

2. Quais práticas e concepções a comunidade mágica acabou adotando no Brasil?

É claro que com tantas misturas, haveria um sincretismo mágico. É claro que haveria uma hegemonia europeia, mas não dá pra refutar a ideia de mudanças na comunidade mágica porque isso seria negar a fluidez da história e das relações humanas. O que, então, mudaria da Europa para o Brasil? Fiz aqui uma pequena lista de coisas que poderiam ter mudado.

  • Concepção de magia – apesar de isso não ser tratado pela JK em Harry Potter, a gente sabe por estudo de história mesmo que, de forma geral, enquanto na cultura europeia, magia parece ser algo meio misterioso e sobrenatural, em muitas das culturas indígenas e africanas, a magia é apenas uma forma de lidar com a natureza e com as energias do mundo. Apesar de nem todos terem esse ~dom~, a magia é vista como mundana. Sabendo disso, acredito que, no Brasil, chegamos a um meio termo, de forma que a magia é vista como energia (da mesma forma que os orixás ou os deuses indígenas, como o do povo tupi, são representações de diferentes energias da natureza), mas certas práticas são mais ~misteriosas~ (como acredito que seria o caso da adivinhação, que é uma magia mais praticada na Europa e, assim, continuaria com essa estigma de algo sobrenatural);
  • Uso de vassouras de forma não tão difundida – sejamos honestos: vassoura voadora é muito europeu. A vassoura só chegou aqui no BR com os gringos e elas eram usadas por escravos para limpar a casa. Bruxos indígenas não as conheciam, bruxos africanos as viam como parte de sua opressão, bruxos europeus as tinham como algo rebaixado, pobre. É muito mais provável que, durante o período de colonização, o transporte mais comum fosse mesmo aparatação e flu.
    É claro que, com a globalização, as vassouras chegaram ao Brasil, mas acho que o principal meio de transporte continuaria sendo o flu (dado que a aparatação só pode ser usada a partir dos 18 anos – regra a qual acredito que funcionaria aqui também, transferindo a ideia de carteira de motorista para uma carteira de aparatação). Acontece que, sem lareiras, teríamos que usar outra plataforma. Uma miga, na rede social secreta, deu a genial ideia de usarmos churrasqueiras em vez de lareiras. Já imaginei aqui uma festa de fim de ano dos coleguinhas de Hogwarts chamada flu na laje, com altas cervejas amanteigadas, whisky de fogo e umas boas caiporinhas (o equivalente mágico de caipirinhas, batizado com o nome de nossa querida Caipora) feitas com Velho Feiticeiro (da mesma origem do Velho Barreiro, só que mágica!). Mas convenhamos que nem todo mundo tem uma churrasqueira ou laje pra receber – assim, pensei que, talvez, o armário ou closet seria uma boa plataforma para o pó de flu; inclusive até vejo o ministério da magia brasileiro tendo que resolver problemas de encruzilhadas entre bruxos e bichos papões (?) ou sacis bagunçando as redes de flu!
    Outra ideia dada na rede social secreta foi de, em vez de usarmos pó e lareiras, usarmos água e chuveiros. A forma de transporte seria a mesma, mas com essa pequenina mudança. Fez bastante sentido pra mim! Mas acho que os meios de transporte brasileiros ainda estão abertos a mais ideias vemk contar a sua!;
  • Prática de magia sem varinha, com varinha e outros objetos – pelas culturas africanas e indígenas, se vê pouco o uso de objetos equivalentes a varinhas ao se tratar do controle de energias, então as chances de se ter uma prática mista faz sentido: há feitiços para se fazer com varinhas e outros para se fazer sem. Da mesma forma, também existem nessas culturas outros objetos que não funcionam como uma varinha, mas que são utilizados para práticas que, no mundo criado pela JK, poderiam ser lidas como magia. Assim, existiriam magias diferentes e específicas que seriam atribuídas a diferentes práticas. Por exemplo, nossas poções não precisariam de varinhas, como acontece na Inglaterra, e alguns de nossos feitiços também não demandariam varinhas. Imagino que estes seriam coisas mais relacionadas com a energia da natureza e não, tipo, expeliarmus da vida, porque aí o uso das próprias mãos, da voz e do corpo realmente importam muito mais, pois a pessoa está se conectando com o mundo sem intermediários (a varinha), o que aumenta o poder de sua magia.
    Também haveria o uso de pedras, cristais e outros objetos de origem natural para certas práticas mágicas. Esses objetos e rituais seriam tão internalizados em nossa cultura que sua história – de onde veio, como começou, quais povos usavam e para quais motivos – se perdeu ao longo do tempo, da mesma forma que certas práticas pagãs foram incluídas ao catolicismo no mundo trouxa. Apesar das origens terem se perdido ao longo do tempo, é claro que são práticas vindas dos povos oprimidos pelos europeus;
  • O uso da voz e da dança como prática mágica – são inúmeras as culturas africanas e indígenas que têm o canto como parte importante de diferentes rituais e, pensando no mundo bruxo, algumas dessas danças e desses cantos poderiam ser mágicos, sim. Movimentos específicos, em diferentes ordens, podem gerar mágicas específicas. Tons e melodias também. Mas será que essas práticas teriam sobrevivido à colonização? Provavelmente sim, mas definitivamente seriam práticas marginalizadas, mantidas apenas por famílias com ancestrais indígenas e/ ou africanos que decidiram manter tais tradições.
    Por serem atividades vindas de povos oprimidos, haveria muito preconceito em torno de quem as praticasse. É claro que, nas escolas, se diria da importância de tais práticas, de como não deve se ter preconceito contra elas, mas nunca as ensinando factualmente. As danças e os cantos continuariam sendo fechadas em pequenas comunidades de tradição indígena ou africana – e, claro, por aqueles bruxos de humanas (magias?) que fumariam o equivalente mágico da maconha com saião, fitas na cabeça e dançariam ao pôr-do-sol em algum gramado;
  • Uso de corujas – é claro que temos corujas no Brasil, mas convenhamos que elas não são as aves mais vistas por aqui. A gente mal vê coruja – só vemos as placas dizendo que elas podem estar por aí – e também mal fala de coruja. Acho que, na minha vida, já ouvi falar mais de calopsita do que de coruja, mas vai ver que é porque sou trouxa mesmo. De qualquer forma, não tenho muita certeza do quanto corujas seriam usadas como meio de comunicação e, portanto, me perguntei sobre outras possibilidades. Pensando no Rio de Janeiro, já imaginei vários miquinhos correndo com cartinhas pros bruxos escondidos pela cidade, mas tenho noção de que isso é um tanto quanto não prático (apesar de acreditar piamente que bruxos mais excêntricos alou família Bomamô, aka Lovegood brasileiros! com certeza teriam micos de mensageiros). Conversando com as migas, pensamos na possibilidade de serem usadas pombas, mas parece algo pouco estético para os bruxos, os quais bem sabemos que prezam por uma estética bem clara pelos livros de HP.
    Outras ideias que tivemos foram: calopsitas, andorinhas as andorinhas da minha casa são tão enormes e bizarras que elas comem a ração do meu cachorro, com certeza são seres mágicos, não é possível, bem-te-vis e outros pássaros assim. Minha dúvida fica por causa do tamanho, mas a verdade é que não é difícil solucionar esse problema com um pouquinho de mágica, não é mesmo? Encolher uma carta deve ser moleza pra quem faz coisas levitarem com 11 anos.

Essas foram apenas algumas das coisas mais óbvias que me vieram à cabeça. É difícil pensar como essas questões mais funcionais se aplicariam à realidade do Brasil, porque a verdade é que existem muitas possibilidades. Ao mesmo tempo, também tem a questão do quanto que os colonizadores teriam aceitado como mudanças e o quanto não teria sido apenas ignorado e considerado como ~errado~ ou ~inválido~, puramente de não ser originário da cultura europeia. E isso nos leva a…

 

3. Como fica o racismo na comunidade bruxa brasileira?

A mistura trouxa europeus-africanos-indígenas já ficou um lance complexo e cheio de níveis de racismo, AGORA IMAGINA NA COPA? Não, pera…

Existe um problema sério de racismo na comunidade bruxa. Ele não se dá em relação à raça da pessoa aparentemente apesar de que quantas pessoas não-brancas temos em Harry Potter? Quantas dessas pessoas têm a possibilidade de tratar sobre racismo no livro? Pois é, né, JK, troxona como sempre, mas sim em relação ao sangue delas. Bruxos descendente de bruxos são os brancos da comunidade mágica. Eles têm todos os direitos concebidos feat. privilégios bacanas feat. oprimem outros bruxos por aí. Depois, temos bruxos vindos da junção de uma pessoa trouxa com uma pessoa bruxa, que já não são vistos com bons olhos, mas são razoavelmente passáveis. Normalmente, essas pessoas têm o membro não-bruxo da família ofendido, mas elas em si não levam ofensas diretas necessariamente. Então, temos os descendentes de trouxas, os quais sofrem um racismo terrível, inclusive a ponto de ter uma corrente de estudo que afirma que tais bruxos teriam “roubado” os poderes de bruxos de linhagem bruxa. São eles que sofrem racismo abertamente, por mais que parte da comunidade bruxa critique a prática racista.

Mas e no caso do Brasil, em que não se tem apenas a questão da ascendência bruxa ou não, mas também do tipo dessa ascendência?

Como falei no item acima, a magia, no Brasil, sofreu uma série de mudanças apenas por concepções e práticas diferentes terem se deparado uma com a outra e, apesar disso, é a cultura europeia que se sobressai, por ela ter sido a cultura hegemônica, colonizadora. Mas como isso afetaria a comunidade bruxa daqui? Bom, se aprendemos o discurso do colonizador de que sua cultura é ~melhor~ ou ~mais correta~ do que a de outros povos, aprendemos também a olhar de forma preconceituosa as práticas desses povos. E, por “preconceituosa”, nesse caso, quero dizer racista mesmo.

Assim, digamos que o canto como prática mágica tenha sido visto pelos europeus como uma técnica inválida. Apesar disso, certas famílias ou comunidades continuariam a pratica-la, já que é uma questão cultural e tendemos a preservar certas tradições. Nesse caso, então, pessoas que usam o canto como canal para a magia são vistas como inferiores, não civilizadas até escrever isso dói em mim, socorro, sendo então oprimidas. Mas, novamente, como é uma questão cultural, os bruxos e bruxas que manteriam tal tradição seriam descendentes de povos africanos ou indígenas, o que volta a nos colocar a questão da raça em si. Considerando ainda que, durante a colonização, escolas de magia como Hogwarts já existiam na comunidade bruxa europeia, bruxos europeus certamente veriam bruxos de regiões como a África e a América como “não-civilizados”. Como bruxos “letrados”, o impacto da falta de uma instituição que centralizasse o conhecimento de magia levaria os colonizadores a verem os bruxos daqui como “selvagens” ou “primitivos” – como se a magia de tais povos não fosse suficientemente desenvolvida para eles.

Criaria-se, assim, dois tipos de racismo: relacionado ao sangue e relacionado à raça, de forma que os níveis de opressão ficariam bem mais complexo e precisaríamos novamente da luta interseccional pra acabar com isso.

Agora também é interessante lembrar que, na Europa, a questão de “pureza do sangue” é uma questão mais problemática do que aqui. A miscigenação no Brasil se tornou uma característica da nossa cultura o que não exclui o racismo que existe nela, o que torna também provável que a questão de ser puro sangue, mestiço ou nascido trouxa não tenha tanta força como opressão no Brasil e que o ponto principal do racismo na comunidade bruxa brasileira seja de fato sua ascendência.

 

E essas são algumas novas perguntas e respostas sobre a comunidade bruxa brasileira! Fiquem ligados que logo mais chega um patrono de urso na casinha de vocês com mais dúvidas e teorias!