Ano novo, uma metáfora ruim e lobisomens

Noite de ano novo sempre foi a noite mais esquisita do ano pra mim. É tanta carga colocada em uma só noite que, por mais que eu não seja a pessoa que gosta de fazer retrospectivas de fim de ano ou ponderar as coisas que aconteceram comigo ou com o mundo, uma espécie de nostalgia me atinge e me aflige. Vocês podem perceber isso apenas pelo fato de eu estar escrevendo esse texto às oito e meia da noite, no dia 31 de dezembro, quando obviamente ninguém mais vai ler textão na internet porque, bom, festas, migos, bebedeira, pular sete ondas etc e tal.

Mas se por algum acaso tem alguém aqui lendo isso, não me leve a mal: eu amo festas, migos, bebedeira, pular sete ondas etc e tal. Eu gosto de pensar na roupa que traz boas energias, nas cores do ano, no deus que vai nos orientar, nos fogos de artifício à meia-noite. Eu gosto muito de tudo isso, mas existe algo a mais na noite de ano novo que eu não sei explicar direito e, por isso mesmo, estou escrevendo um textão pra tentar definir o que é.

A primeira metáfora que pensei para essa noite é a lua, como se tivesse um lado brilhante e lindo e bonito que todo mundo olha e diz ooooh, mas que ao mesmo tempo tem um lado escuro que nunca se revela. Isso, no entanto, me soou muito brega e indigno de ser escrito por uma pessoa que aspira ser uma escritora séria em algum momento da vida e, sei lá, quem sabe ganhar o Nobel da literatura, ou pelo menos um Pulitzer, vai saber. Depois, isso me lembrou um post que circula pelos Tumblrs de astrologia, que é algo como “ela é como a lua, parte dela sempre brilha [insira aqui signos do zodíaco], parte dela está sempre escondida [insira aqui outros signos do zodíaco]”, que também é muito brega mas que ao mesmo tempo, lá no fundinho, sem eu querer admitir muito (e por isso mesmo estou admitindo pra qualquer um na internet ler), bateu em mim. Meu signo, espero que a esse ponto você já tenha imaginado, estava na lista do “parte dela está sempre escondida” e isso fez tanto sentido que eu guardei pra mim, escondido num lugar quietinho dos meus pensamentos, um lugar bem difícil de limpar.

E toda essa história de lua me lembrou também um teste que eu fiz no buzzfeed sabe-se lá quando, que era sobre qual animal mágico eu era. Eu esperava algo como um unicórnio ou um hipogrifo, mas o resultado do teste foi outro. Aparentemente, de acordo com o buzzfeed, eu sou um lobisomem.

Entenda uma coisa: eu amo testes estilo quem-ou-o-que-você-é e eu realmente acho que nos ajuda a entender melhor quem somos – seja pra concordar com o teste, seja para discordar dele; mas isso eu desenvolvo melhor outro dia. O importante aqui é que a descrição sobre eu ser um lobisomem fez muito sentido pra mim. Falava que eu conhecia o pior de mim, que eu sabia o que eu podia fazer e tinha muito medo disso e, por isso, eu tentava me controlar ao máximo para nunca chegar nesse ponto, que eu me esforçava para escolher sempre o meu lado bom.

Pois bem. Antes desse texto ser o que você está lendo agora, esse era um texto sobre Gossip Girl e como minha adolescência foi pautada em eu me metendo ou sendo metida em intrigas e picuinhas, mas acabei mudando o texto porque estava ficando pessoal demais e eu ainda não sei lidar com esse tipo de coisa, admito. Mas em todas essas histórias que escrevi e apaguei algumas vezes tinham um ponto em comum (que é o que me faz ficar meio mal toda vez que assisto Gossip Girl, apesar de adorar a série, mas não que isso importe). E eis que o ponto comum de todas essas histórias é exatamente o resultado de um outro teste que fiz no buzzfeed, que tem tudo a ver com a história do lobisomem.

Esse novo teste era sobre quanto porcento é o seu lado negro e a minha porcentagem foi extremamente alta, o que me chocou, mas que ao mesmo tempo fez certo sentido: 75%.

Eu não me acho tão cheia de coisas negativas assim, mas não posso negar que minha ansiedade me tomar por quase completo muitas vezes. Também não posso negar que exista uma tristeza dentro de mim e que eu tenho medo do tamanho dela. Por isso que eu luto todo o dia contra essas coisas. Por isso que eu me esforço muito, muito, muito – talvez muito mais que as pessoas que me conhecem acreditam – pra ser otimista e feliz e alegre e pimpante como eu sou.

Em outros pontos da minha vida, eu aprendi que nós somos quem escolhemos ser. E nós podemos mudar todos os dias, porque todos os dias fazemos escolhas. Inclusive, hoje, revendo Gossip Girl, a mãe da Jenny fala pra filha que quanto mais crescemos, mais nossas escolhas ajudam a construir quem somos e que o negócio é se você gosta de quem está se tornando.

Eu acredito nisso. Talvez porque eu seja meio lobisomem e não queira acreditar que, em luas cheias, eu viro um animal terrível que mata pessoas (talvez, no fundo, eu seja o Remus Lupin, mas nascida menina no Brasil), mas isso não importa. O que importa é que eu acredito piamente que podemos escolher quem somos, que podemos mudar, que é assim que vamos nos construindo e é assim que atingimos o tão famigerado, literário, filosófico estado do Ser. Porque Ser, antes de mais nada, é verbo intransitível, mas isso também é um papo pra outra hora.

E eis que chegamos ou voltamos à noite de ano novo. Uma noite de festa, alegria, comemoração, amor, boas energias, mas também uma noite em que se é colocada uma carga de mudança, decisões e renovações desesperadora. Porque eu não quero e nem consigo mudar de uma noite pra outra, porque eu já cansei de fazer listas de coisas que eu faria no ano novo e não consegui riscar um só item, porque sempre no meio da minha conversa com Iemanjá alguém me chama e pula em mim e eu me desconcentro, porque a real é que eu não quero mudar ou decidir ou renovar nada especificamente na noite do 31 de dezembro de qualquer que seja o ano.

Eu passo o ano inteiro sofrendo com as mudanças da vida, experienciando as melhores e também as piores coisas e é incrível e assustador e maravilhoso! E não importa o quão bom ou o quão ruim seja, é tudo sempre desgastante, porque viver é um desgaste – um desgaste excelente, que não devíamos querer trocar por nada no mundo, mas não deixa de ser um desgaste e tudo bem. A questão é: eu passo o ano inteiro mudando e me construindo e, quando chega o fim do ano, o que eu quero mesmo é relaxar. Mas, de repente, vem essa noite que te pede desejos, mudanças, retrospectivas… e eu só quero ver os fogos e dançar minhas músicas preferidas, feliz, plenamente feliz.

Mas até virem os fogos vem uma espera sem fim. Não são os dez segundos finais, é o dia inteiro num estranho mormaço, numa espécie de vazio que não faz sentido nenhum pra mim. E quando chega a noite e tudo fica confuso entre o tempo de se arrumar, de jantar, de fazer hora até os dez segundos antes da meia-noite. O vazio fica mais vazio e as conversas parecem fazer cada vez menos sentido e se tornar apenas uma eterna espera para o momento verdadeiro, para a hora em que tudo vai mudar. Então, essa hora chega, mas a vida não muda, mas a gente continua fazendo o mesmo todo o ano e eu não consigo entender o sentido disso.

Eu entendo e concordo e amo e aplico a ideia de renovação das energias. Eu gosto de pensar a virada da meia-noite como um momento em que coletivamente jogamos no mundo uma energia tão boa e tão forte (porque somos tantos!), que ela pode tomar conta de nossas vidas, do universo inteiro, que ela pode ser a coisa mais poderosa que existe no mundo. Essa concentração de positividade é incrível, é o que eu faço todo o dia pra ser quem sou, é a coisa que eu mais gosto no mundo – mesmo antes de dinossauros e sorvete de flocos. Mas até esse momento chegar, é como se estivéssemos tentando lidar com as nossas partes lobo coletivamente, como se estivéssemos tentando nos comportar e nos segurar, não nos perder no lado negro da lua para, finalmente, à meia-noite, encontrar a luz do sol e refleti-la lá do outro lado do universo.

Eu não sou de fazer desejos, mas em 2016, eu espero que deixemos de ser como a lua, de teme-la e que nos tornemos, cada um de nós, verdadeiros sois, radiantes de tudo que há de melhor. E que isso não seja tão difícil como tem sido nos últimos tempos.

(eu também desejo fazer metáforas mais interessantes).