As gentes da literatura infantil, como sobrevier a elas e um voto pela polêmica

Toda área de trabalho tem seus clubinhos especiais, aquele grupo de migas que te olham de cima a baixo e falam que você não pode sentar com elas porque é quarta-feira e você não está de rosa. Pois é, colegas. A gente acha que clubinhos acabam na escola, mas a verdade que tenho descoberto é que, depois dos 13 anos ninguém mais verdadeiramente amadurece. As pessoas continuam sentindo amor e ódio intensamente, criando picuinha a torto e a direito e, claro, formando seus clubinhos pra poder julgar quem ficou de fora rsrsrs.

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Não é necessariamente um problema, no sentido de que é claro que pessoas com pensamentos próximos vão se encontrar e se aproximar. E isso é bom. É bom poder encontrar pessoas que te deixam confortável e que façam com que você se sinta menos estranha no mundo. Nesse sentido, os clubinhos são ótimos. Você já sabe que tem o clubinho X que pensa de uma forma e que o clubinho Y pensa de outra forma. E, se você discordar de todo mundo, você pode sempre começar o seu próprio clubinho, mesmo que seja bloco do eu sozinho. (sim, a rima foi proposital) (não, eu não gosto desse álbum) (sim, eu odeio muito Los Hermanos e nunca vou entender essa ocorrência musical que eles criaram e pessoas gostaram).

A moda tem seu clubinho, as artes plásticas têm seu clubinho, a música tem vários clubinhos dependendo do gênero musical, a academia tem seu clubinho. Toda área tem seu clubinho, mas eu acabei por cair no clubinho da literatura infantil. Ops.

Como uma pessoa que não sabia o que queria, eu decidi abraçar tudo o que dava pra abraçar. Poesia, prosa, artes plásticas, teatro, música, feminismo, astrologia, educação, zoeira. Eu fiz milhões de mapas conceituais pensando nas coisas que queria e, nesse meio tempo, acabei caindo no universo da literatura infantil (prosa/ poesia + ilustração + educação + zoeira, pareceu uma boa equação). Poxa, eu já curtia uma série de livros, já me interessava trabalhar com editoração, sempre quis trabalhar com diálogo entre texto e imagem. Pois bem, né?, muito bacana. Foi assim que fui fazer cursos sobre o assunto.

Eu fiz cursos de ilustração, de edição de livros infantis especificamente, cursos de livro-álbum (aka: aquele livro que só tem imagem, 0 palavras) e fui também fazer matéria sobre literatura infantil na minha faculdade. Conheci gente maneira que me faz dar risada da vida, mas em geral conheci umas pessoas nada a ver que me fizeram perder a fé na humanidade. Pensando nisso, decidi contar pra vocês os três grandes clubinhos dessa área, mas de forma personificada. Assim, caso estejam afim de entrar pro universo da literatura infantil, vocês já ficam ixpertos com o que vão topar pelo caminho.

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Adulto nº1: “Mas a criança adoooora esse tipo de coisa”

É aquele adulto com ar de professora ruim do primário que acredita que a infância é só um mundo lúdico e maravilhoso. Esse adulto sempre fala as coisas mais óbvias com o tom de alumbramento, como se estivesse descobrindo que a roda roda naquele instante. Ele esquece que o universo da crítica literária passa muito além dos contos de fada e acha que está arrasando quando fala sobre a Disney e, principalmente, quando revela ~o final original~ de qualquer conto clássico, mesmo que todo mundo já saiba (porque ouvimos isso desde que deixamos de ser consideradas crianças). Esse adulto acredita que criança gosta de tudo que tem música e cor, acha Alice no País das Maravilhas uma história muito contemporânea, mesmo tendo feito 150 anos agora, e acha incrível sempre que um personagem da literatura mundial aparece no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Provavelmente, seu livro de cabeceira e ~guia pra vida~ é O Pequeno Príncipe.

Adulto nº2: “Mas o mercado é foda”

É aquele adulto que, quando decidiu entrar pro meio da literatura infantil, provavelmente pensava de forma muito parecida como o Adulto nº1, mas se desiludiu quando deu de cara com o mercado. Ele é aquele cara que diz que concorda quando você fala algo bonito ou engajado, mas logo em seguida ele vai destruir suas ideias e dizer que “é triste, mas é o mercado”. Basicamente, ele é o pessimista do rolê. Ele acredita piamente que o capitalismo acaba com todos os sonhos e que o único jeito de sobreviver ao mundo é cedendo à entidade Mercado – o que foi basicamente o que ele fez: deixou de buscar produzir coisas de qualidade e passou a publicar livros imbecis porque “é isso que vende” (esquecendo-se, é claro, de que se ele não produz livros infantis de boa qualidade, obviamente estes nunca serão vendidos). Seu livro preferido provavelmente é algum do Bartolomeu Campos de Queirós, que fala sobre as dores da vida com uma lírica que beira ~o olhar inocente de uma criança~.

Adulto nº3: “Não existe literatura infantil, só literatura”

É aquele adulto acadêmico que sofreu os preconceitos dos coleguinhas que desdenham da literatura infantil como forma de arte e, por causa disso, em vez de defender a área de sua escolha, prefere negar a existência do nicho infantil. Em outras palavras, é o adulto que nega o que faz. Ele defende que o livro é objeto de arte e ignora a realidade pra poder se defender (ou, quem sabe, pra dormir em paz com suas escolhas de vida). Esse adulto ignora tudo o que o Adulto nº2 fala, jurando de pé junto que o preço dos livros ou se eles serão lidos ou não por crianças não importa, um literata que ignora o leitor. É um elitista. Provavelmente, seu livro preferido não é nem um livro infantil ou que fala da infância, é apenas um clássico que a Academia Brasileira de Letras considera ~literatura~. Deve ser algo como Em busca do tempo perdido ou alguma coisa bem amargurada do Valter Hugo Mãe.

 

Esses são os tipos mais comuns da galera da literatura infantil. Todos eles são bem chatos. Se vocês querem saber, admito que, pra mim, o menos pior é o cara do mercado, porque pelo menos ele tem pé no chão (mesmo que esse chão seja o chão do fundo do poço). O tipo nº1 me dá coceira especialmente porque subestima demais a criança, mas o pior mesmo é o terceiro puramente por ser um elitista. Mal ou bem, os dois primeiros clubes ainda consideram o leitor, mesmo fazendo isso errado.

i'm scared

Agora, você me pergunta: Clara, como sobrevivo a essa gente? Como eu sobrevivo a esse universo?

Primeiro ponto: é legal ir nos eventos, fazer cursos, conversar com as pessoas. É importante porque você vai ouvir essas pessoas falando e vai descobrir os pontos que você discorda e os pontos que você concorda com elas. Também é ali que tem um montão de outras pessoas que estão fazendo o mesmo que você. Lembre-se: não é porque as pessoas parecem estar interessadas que elas concordam com o que está sendo dito. Quantas vezes você mesmo não fingiu estar super interessado em um papo péssimo? Ou sorriu e balançou a cabeça quando alguma figura de autoridade falou alguma coisa absurda, mas você deixou passar só pra não criar caso? Pois é, você tem que achar essas pessoas.

Uma possibilidade é ficar de olho nas pessoas que estão se movimentando muito durante a palestra – elas provavelmente estão bem incomodadas. As pessoas que estão dormindo também podem ser bacanas, mas é mais difícil contata-las porque, bem, elas não estão muito conscientes nesse momento, néam. Isso também funciona para cursos. Busque as pessoas que estão desenhando ou que parecem não estar prestando atenção. As chances de elas serem maneiras são enormes. Você pode começar com um comentário ambíguo, um olhar de cansaço ou mesmo aquela pergunta com o maior tom de sinceridade que você consegue (“você tá curtindo isso?”). É infalível pra peneirar os interessantes dos cansados!

Se o evento estiver muito ruim, você pode sempre (e eu recomendo muitíssimo) sair do auditório e ir comer os biscoitos que dão de graça. Outras pessoas que também não aguentaram a conversa lá dentro estarão ali e você pode conversar com elas. Inclusive: foi isso que fiz no último evento sobre literatura infantil e foi ótimo! Não só conheci pessoas interessantes, como também reencontrei amigos de outros eventos em que ficamos tomando café e criticando o elitismo da academia!

Agora, se você for que nem eu e adorar uma boa polêmica, fale. Se você está em um curso, pergunte ao professor, critique-o. Ele é humano, ele tem erros. Discuta de uma forma respeitosa, mostre os pontos dos quais você discorda e aproveite o debate! É sempre muito bom quando isso acontece numa aula. Caso o professor não esteja aberto ao diálogo e te dê uma fechada, também não se preocupe: outros alunos que concordam com você irão comentar contigo o caso depois.

Em eventos, se você tiver forças para esperar até o final, quando se abre a perguntas, levante a mão e fale também! Mas, por favor, não se esqueça de fazer uma pergunta! Afinal, sem isso, não vai ter muito debate. Um exemplo pessoal mas do qual me orgulho muito foi em um evento do Conversas ao Pé da Página, um evento de literatura infantil bem acadêmico, que fui. Na mesa, havia um monte de adultos 40+ falando sobre jovens e adolescentes, como eles não se interessam tanto assim por ler e como a leitura deles é outra. Aquilo me deixou possessa, claro. Eles não tinham propriedade nenhuma sobre o tema, nenhum deles era jovem ou adolescente e claramente havia um milhão de outras pessoas que os organizadores do evento podiam ter chamado que representariam muito melhor jovens e adolescentes (e, sim, estou falando de jovens e adolescentes que trabalham com literatura). Então, eu peguei o microfone, a última pergunta, e disse meu nome, o que fazia e comecei que “gostaria de observar que não existe nenhum jovem ou adolescente falando por si ou por sua geração nesse evento, então como vocês acham possível que tenhamos uma conversa produtiva quando excluímos essas pessoas do diálogo?”. Foi uma bela palha na fogueira e, no fim, UM MONTÃO DE GENTE VEIO FALAR COMIGO!!! Até uma das organizadoras veio correndo me explicar como montaram a mesa e eu pude dar uma lição sobre representatividade! E depois pessoas incríveis vieram agradecer por eu ter falado o que elas estavam pensando, foi lindo. Acho que nunca troquei tantos cartões quanto naquele dia. (Inclusive, descobri esse ano que fiquei conhecida como “a revoltada do Conversas” entre algumas pessoas e me fico orgulhosa disso).

Amigues, a verdade é que você nunca será a única pessoa a pensar diferente do que se está dizendo lá na frente. Provavelmente, 1/3 da galera também discorda dos clubinhos e da Regina George. Mas você só vai saber disso se você falar o que pensa, se você conversar, discutir, argumentar. Nós estamos muito acostumados a ficarmos quietos porque é confortável não se expor, mas sem essa exposição, nunca vamos encontrar as outras pessoas que estão à margem como nós, que discordam de tudo aquilo mas não sabem como enunciar. São pessoas inteligentíssimas, que deveriam estar lá em cima palestrando, mas não fazem parte das Plastics. São as pessoas que, em vez de serem amigas da Regina, são migas do Snoopy – e todo mundo sabe que a galera do Peanuts é muito mais pra frentex e interessante que as meninas malvadas (tá no nome, gente, não tem como ser bom!!). E você só vai chegar no Snoopy se você falar. Sem essa conversa, os clubinhos vão continuar os mesmos e as áreas ficarão sempre meio estáticas.

A polêmica é necessária porque a mudança é necessária. E é assim que sobrevivemos aos clubinhos da literatura infantil (e todos os outros clubinhos que existem por aí): mudando-os.

 

Ó nossa turma que daora, migas!
Ó nossa turma que daora, migas!

Um comentário em “As gentes da literatura infantil, como sobrevier a elas e um voto pela polêmica

  1. coutinha (@sabrinacoutinho)

    Amo uma polêmica ❤
    Primeiro, acho que, por mais que alguns eventos e cursos e aulas possam ser pedantes, o primeiro passo para perceber que discorda de algo é vendo as pessoas falarem incessantemente pontos que te incomodam, porque daí você vai tentar descobrir o porquê de aquilo te incomodar e formar uma opinião que é sua.
    Acho que esse texto é um ponto de partida pra uma discussão bem importante dentro da literatura infantil, que começa justamente com esse questionamento de "como são o que comem onde vivem os profissionais ideias para produzir um bom livro infantil?"
    Querendo ou não, o mercado atual dos infantis é formado por uma mistura de todos esses adultos que você mencionou, mais um monte de gente ótima que realmente sabe o que está fazendo e para quem está fazendo, e é importante entender tudo isso.
    Eu entendi o conceito do adulto 3, mas não sei se a frase usada pra caracterizar ele é a mais apropriada. Acho que essa ideia de não encarar a literatura infantil como uma literatura separada é importante, no sentido de valorizar e mostrar que ela precisa ser analisada, resenhada, lida por adultos, assim como a literatura adulta, sabe? Mas entendi toda a construção desse personagem que não tá pensando que o livro em pantone vai custar milhões de reais e vai ser lindo, exceto pelo fato que só 5 crianças no Brasil conseguem comprar.
    Enfim, são muitas questões que não estão mesmo sendo discutidas e que deveriam entrar junto com outras discussões recorrentes do livro infantil como a relação texto-imagem, a relação editor-ilustrador-autor entre outras. Tá faltando discutir a relação entre geração e o quanto as relações das crianças e jovens com os livros mudam a cada dia, e os profissionais que fazem os livros precisam entender e estar em sintonia com isso, ao invés de ir contra a corrente.

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