Como criar bons títulos™

Não lembro quando descobri a força de um bom título – desde que me lembro, como leitora, já julgava minhas leituras por títulos que me convenciam e aqueles que só me davam preguiça –, mas foi aos 14 anos, quando estava no nono ano, que descobri como criar um título decente.

Era a aula antes do almoço e tínhamos que escrever um conto que valia nota para a matéria de português. Não lembro exatamente da proposta, mas meu conto era sobre o último homem do mundo. Basicamente: o sol tinha acabado e, por causa disso, todos haviam morrido, exceto esse único homem.

O texto estava pronto, eu era a única aluna que sobrara na sala e o sinal tinha tocado. O professor pediu para eu entregar o texto, mas eu disse que faltava o título. Então, ele me perguntou a história e eu contei. Ele sentou comigo e ficou pensando num título, mas só vinham ideias ruins – ou ideia alguma. Até que a fome apertou e a necessidade de escrever algo foi maior do que de criar algo decente. O professor disse:

– Escreve Solidão mesmo que tá bom.

Esse foi o pior título que eu ouvi na minha vida, honestamente. Mas eu estava com fome e, naquele ponto, já estava achando mais engraçado do que ruim. A questão é que eu não sabia se podia ser engraçada, eu não sabia se os leitores das minhas histórias entenderiam que a baixa qualidade era irônica, não que o título tinha sido criado por uma pessoa que levava a sério os poemas do Leminski. Assim, com essa insegurança, apenas olhei para meu professor e perguntei:

– Eu posso escrever isso?

E ele lindamente me respondeu:

– Você pode escrever qualquer coisa, o conto é seu. E, depois, sou eu que vou corrigir.

– Mas como eu escrevo isso?

– Escreve “solidão” e sublinha o “sol”.

Então, eu me inclinei sob o papel e escrevi: ”Solidão” e achei horrível, mas entreguei.

Eu não tenho a menor ideia do quanto tirei nessa redação, mas ali eu me liberei dos Títulos, com letra maiúscula. Ali, eu entendi que nenhum título vem como uma inspiração divina e que, pra chegar em algo bom, você tem que passar por muitas ideias horríveis. E foi aí que minha vida mudou. Eu sabia que nenhum outro professor ou professora aceitaria um título tão ruim e zoeiro como aquele, mas também sabia que era impossível alcançar uma porcaria maior. Então, no fim das contas, eu estava tranquila.

Minhas outras redações me deixaram melhor, mais calejada. Fui testando estilos de títulos diferentes, tentando resumir os textos o máximo possível no mínimo de palavras que conseguia, como se fosse uma versão mais pílula ainda do twitter. Até que cheguei na faculdade e descobrir que títulos gigantes não são um problema se você os abraçar com todo o coração.

Foram tantos, mas tantos títulos que comecei a criar que, hoje em dia, tenho mais título que histórias. Ou livros. Ou poemas. Ou qualquer coisa. Eu tenho uma quantidade surreal de títulos guardados. A ponto que, entre meus amigos, eu fiquei conhecida como a pessoa que dá títulos. E o que começou como uma ajuda em redações de vestibular durante o ensino médio acabou virando quase que uma das minhas principais funções na vida. Porque, sério, sempre que tem um título a ser criado, as pessoas me chamam pra ajudar.

Pensando nisso, venho aqui com dicas para como você chega em bons títulos, em títulos convincentes, naqueles títulos que uma pessoa que não é sua miga e nunca ouviu falar de você leia e fale “nossa, daora, vou gastar meu tempo lendo esse texto aqui”. Então, vamos ao que interessa!

 

Dica nº1: Brainstorming é essencial

Se você tem tempo para pensar num título, ou seja, se você não está escrevendo uma redação para nota durante a aula ou o vestibular, se joga nas ideias! Títulos não são fáceis, por isso mesmo que precisamos ter um brainstorm grande. Quanto mais ideias você tiver, mais chance de encontrar algo que se encaixe bem no seu texto. Se você puder discutir o título com alguma miga, melhor ainda! Uma pessoa que não está envolvida no texto da mesma forma que você consegue ter uma nova perspectiva do que está escrito e, portanto, trazer outras ideias que você não teria e que podem ser maravilhosas.

É aqui também o momento que você define o tipo de título que você quer. Um título de uma só palavra, como Persépolis? Um título com nome próprio, como Emma? Um título que é uma situação, como A missa do galo? Um título que parece mais uma frase, como Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra? Um título que resume o assunto, como Tratado geral das grandezas do ínfimo? Um título spoiler, como Cem anos de solidão? Um título com explicação, como Princesa – a história real da vida das mulheres árabes por trás de seus negros véus? Um título com nome de música, como Daytripper?  É a partir das ideias que vão surgindo no seu brainstorm que você vai entendendo o que quer como título. Às vezes, poucas palavras bastam, mas tem horas também que uma frase enorme faz bem mais sentido. E isso você só descobre durante o processo de criação.

 

Dica nº2: Não tenha medo de pensar coisas toscas

Brainstorm não é só pra ter várias ideias boas ou pelo menos razoáveis, mas também pra expelir as coisas ruins. Acontece que, quando estamos pensando em um título e pensamos em uma ideia ruim e não a falamos em voz alta, ela se impregna em nossa mente e toma conta de todo o espaço do nosso cérebro, nos impedindo de chegar a qualquer ideia boa – ou mesmo qualquer outra ideia.

Migas, prestem atenção quando falo: é preciso expurgar as ideias ruins. Não tenha medo de conta-las, de coloca-las pra fora. Até porque, muitas vezes, uma ideia ruim pode trazer uma boa risada, o que alivia a tensão da necessidade de se chegar num título bom. Honestamente: é muito importante o brainstorm ser recheado de risada, porque levar tudo muito a sério estraga a criatividade. Isso sem contar que uma ideia ruim pode ser transformada em algo interessante; alguém pode perceber algo de bom na ideia e apostar nisso e ficar legal.

 

Dica nº3: Vale zoar

Já falei no tópico anterior que é importante não levar as coisas muito a sério, mas é algo importante o suficiente para ter um tópico só pra si: galere, vale muito zoar! Zoação leva a risadas, leva ao desafio de se pensar algo além daquela zoeira, leva a ideias não óbvias, e tudo isso pode ser muito bom para um título. Zoar é uma forma de incentivar a criatividade e, num momento de criação, isso é essencial.

 

Dica nº4: Pire nos círculos semânticos (vale usar dicionário)

As palavras remetem a outras palavras, a sentimentos, a ideias, a coisas. Você dizer “ensinar” é diferente de você dizer “ajudar”, mesmo que exista um ponto de intersecção entre essas duas palavras. Isso é porque as palavras têm círculos semânticos diferentes, ou seja, seus significados abrangem uma série de outras ideias, e essas que podem ser úteis para o seu título (ou joga-lo por água abaixo). Para isso, os dicionários (de significado, de sinônimo, de analogia etc.) são uma ótima ajuda, porque eles têm um arsenal enorme de outras  palavras, o que pode te ajudar a chegar onde você quer.

Entender o círculo semântico das palavras também é uma forma de dirigir o leitor ao que você quer dizer no texto. Tanto no sentido de surpreende-lo quanto no sentido de deixar bem claro qual é seu ponto. A escolha é sua. O importante é você não ser pego de surpresa quando alguém falar que achou que o texto que você escreveu sobre relações amorosas assexuais era sobre gostar de bolo caseiro. Para criar um título bom, você precisa saber o que as palavras significam além delas mesmas.

 

Dica nº5: Crie e use referências

O exemplo que dei no ponto anterior, sobre relações assexuais e bolo, faz sentido. Assim como faz sentido falar de Taylor Swift e gaslighting ou educações alternativas e Harry Potter.

Existe uma brincadeira na comunidade assexual que diz que assexuais preferem bolo a sexo. Blank Space da Taylor Swift é uma grande risada na cara de quem fez gaslighting com ela. Hogwarts é uma escola extremamente tradicional, mesmo tendo magia no currículo escolar.

O que quero dizer com isso é: você pode e deve usar referências nos seus títulos, da mesma forma que usa nos seus textos. Sabe aquela pesquisa que você fez sobre o assunto? Sabe aquela fala da personagem que te marcou? Sabe a música que você ouviu em looping enquanto escrevia teu texto? Sabe aquele último parágrafo que você fez uma metáfora 10/10? Usa essa parte pro título.

Faça brincadeiras, trocadilhos, seja muito intelectual, abrace seu lado poético. Tudo isso fica mais fácil com referências que você mesmo pode criar.

 

Dica nº6: Seu texto tem a resposta

Essa é a maior Verdade que existe. Assim mesmo, com letra maiúscula e tudo. O seu título, de alguma forma, tem que estar no texto – afinal, o título é o nome da sua obra, é o faz daquele amontoado de palavras uma coisa única, indivisível, de completa coesão e coerência a não ser que seja o último livro de uma saga YA, aí dá pra dividir em dois filmes tranquilamente, aparentemente. Você talvez não tenha percebido, mas todas as dicas que dei até agora, de alguma forma, voltam ao que você tem escrito, voltam ao que já existe.

Miga, seu texto tem a resposta. Seu título já foi escrito. E foi escrito por você! Mas se você ainda não consegue enxergar isso dentro do seu texto, vão aqui algumas perguntas que podem te ajudar a chegar nesse ponto essencial que vem em forma de título:

  1. Qual o assunto central do seu texto?
  2. Tem alguma palavra que se destaca nele?
  3. Tem alguma personagem que se destaca nele?
  4. O ambiente é importante?
  5. Existe alguma metáfora ou analogia forte no seu texto?
  6. Algum sentimento prevalece durante a leitura?
  7. Existe alguma imagem central ou forte no texto?
  8. O texto se passa em alguma situação específica, como noite de natal, páscoa, aniversário etc.?
  9. Tem alguma ideia que se repete ou mesmo é constante durante a leitura?
  10. Você usa alguma referência musical, cinematográfica, literária etc. que pode ser trabalhada?

Essa são só algumas perguntas que podem te ajudar a encontrar o ponto nevrálgico, aquilo que melhor abrange sua criação. Você pode sempre pensar em outras a partir do que trata seu texto. Você também pode vir me perguntar, tem problema não.

 

Agora, pra vocês verem que eu não estou de sacanagem e que eu mesma sigo essas dicas e funciona, deixo aqui alguns títulos meus (alguns com links pros textos):

Primavera fora de época – pra Capitolina, sobre revoluções durante a história;

Alices no país do espelho – pra Capitolina, escrito com a Bleche, sobre distúrbios alimentares;

A passagem mais barata para [insira aqui um lugar real ou imaginário de sua preferência] – pra Capitolina, escrito com a Sofia, sobre como a ficção nos faz viajar sem sair do lugar;

Da linha à entrelinha: análise comparativa entre as formas das poesias modernista e marginal – trabalho de faculdade, sobre, bem, o que já diz o título;

Poeira do universo – uma série de poemas sobre o universo e pessoas e como somos de fato poeira estrelar;

A incrível saga do unicórnio que perdeu a bunda – uma zine que ainda não imprimi porque sou bunda mole, mas é basicamente um unicórnio em busca de suas nádegas;

Vida de unicórnio não é fácil
Vida de unicórnio não é fácil

O não-projeto do anti-projeto – trabalho de faculdade, sobre poesia marginal (que acabou rendendo nesse texto pra Capitolina);

Gênesis – outra zine que não consegui imprimir ainda, mas que fala basicamente sobre o surgimento do mundo.

 

Tem mais uma série de outros títulos (como disse, tenho mais título que obra pronta), mas como são coisas não publicadas, não vou jogar aqui na internet pra estranhos roubarem todas as minhas ideias. Vocês podem ver sempre as coisas que eu escrevo na Capitolina e na Pólen também.

As gentes da literatura infantil, como sobrevier a elas e um voto pela polêmica

Toda área de trabalho tem seus clubinhos especiais, aquele grupo de migas que te olham de cima a baixo e falam que você não pode sentar com elas porque é quarta-feira e você não está de rosa. Pois é, colegas. A gente acha que clubinhos acabam na escola, mas a verdade que tenho descoberto é que, depois dos 13 anos ninguém mais verdadeiramente amadurece. As pessoas continuam sentindo amor e ódio intensamente, criando picuinha a torto e a direito e, claro, formando seus clubinhos pra poder julgar quem ficou de fora rsrsrs.

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Não é necessariamente um problema, no sentido de que é claro que pessoas com pensamentos próximos vão se encontrar e se aproximar. E isso é bom. É bom poder encontrar pessoas que te deixam confortável e que façam com que você se sinta menos estranha no mundo. Nesse sentido, os clubinhos são ótimos. Você já sabe que tem o clubinho X que pensa de uma forma e que o clubinho Y pensa de outra forma. E, se você discordar de todo mundo, você pode sempre começar o seu próprio clubinho, mesmo que seja bloco do eu sozinho. (sim, a rima foi proposital) (não, eu não gosto desse álbum) (sim, eu odeio muito Los Hermanos e nunca vou entender essa ocorrência musical que eles criaram e pessoas gostaram).

A moda tem seu clubinho, as artes plásticas têm seu clubinho, a música tem vários clubinhos dependendo do gênero musical, a academia tem seu clubinho. Toda área tem seu clubinho, mas eu acabei por cair no clubinho da literatura infantil. Ops.

Como uma pessoa que não sabia o que queria, eu decidi abraçar tudo o que dava pra abraçar. Poesia, prosa, artes plásticas, teatro, música, feminismo, astrologia, educação, zoeira. Eu fiz milhões de mapas conceituais pensando nas coisas que queria e, nesse meio tempo, acabei caindo no universo da literatura infantil (prosa/ poesia + ilustração + educação + zoeira, pareceu uma boa equação). Poxa, eu já curtia uma série de livros, já me interessava trabalhar com editoração, sempre quis trabalhar com diálogo entre texto e imagem. Pois bem, né?, muito bacana. Foi assim que fui fazer cursos sobre o assunto.

Eu fiz cursos de ilustração, de edição de livros infantis especificamente, cursos de livro-álbum (aka: aquele livro que só tem imagem, 0 palavras) e fui também fazer matéria sobre literatura infantil na minha faculdade. Conheci gente maneira que me faz dar risada da vida, mas em geral conheci umas pessoas nada a ver que me fizeram perder a fé na humanidade. Pensando nisso, decidi contar pra vocês os três grandes clubinhos dessa área, mas de forma personificada. Assim, caso estejam afim de entrar pro universo da literatura infantil, vocês já ficam ixpertos com o que vão topar pelo caminho.

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Adulto nº1: “Mas a criança adoooora esse tipo de coisa”

É aquele adulto com ar de professora ruim do primário que acredita que a infância é só um mundo lúdico e maravilhoso. Esse adulto sempre fala as coisas mais óbvias com o tom de alumbramento, como se estivesse descobrindo que a roda roda naquele instante. Ele esquece que o universo da crítica literária passa muito além dos contos de fada e acha que está arrasando quando fala sobre a Disney e, principalmente, quando revela ~o final original~ de qualquer conto clássico, mesmo que todo mundo já saiba (porque ouvimos isso desde que deixamos de ser consideradas crianças). Esse adulto acredita que criança gosta de tudo que tem música e cor, acha Alice no País das Maravilhas uma história muito contemporânea, mesmo tendo feito 150 anos agora, e acha incrível sempre que um personagem da literatura mundial aparece no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Provavelmente, seu livro de cabeceira e ~guia pra vida~ é O Pequeno Príncipe.

Adulto nº2: “Mas o mercado é foda”

É aquele adulto que, quando decidiu entrar pro meio da literatura infantil, provavelmente pensava de forma muito parecida como o Adulto nº1, mas se desiludiu quando deu de cara com o mercado. Ele é aquele cara que diz que concorda quando você fala algo bonito ou engajado, mas logo em seguida ele vai destruir suas ideias e dizer que “é triste, mas é o mercado”. Basicamente, ele é o pessimista do rolê. Ele acredita piamente que o capitalismo acaba com todos os sonhos e que o único jeito de sobreviver ao mundo é cedendo à entidade Mercado – o que foi basicamente o que ele fez: deixou de buscar produzir coisas de qualidade e passou a publicar livros imbecis porque “é isso que vende” (esquecendo-se, é claro, de que se ele não produz livros infantis de boa qualidade, obviamente estes nunca serão vendidos). Seu livro preferido provavelmente é algum do Bartolomeu Campos de Queirós, que fala sobre as dores da vida com uma lírica que beira ~o olhar inocente de uma criança~.

Adulto nº3: “Não existe literatura infantil, só literatura”

É aquele adulto acadêmico que sofreu os preconceitos dos coleguinhas que desdenham da literatura infantil como forma de arte e, por causa disso, em vez de defender a área de sua escolha, prefere negar a existência do nicho infantil. Em outras palavras, é o adulto que nega o que faz. Ele defende que o livro é objeto de arte e ignora a realidade pra poder se defender (ou, quem sabe, pra dormir em paz com suas escolhas de vida). Esse adulto ignora tudo o que o Adulto nº2 fala, jurando de pé junto que o preço dos livros ou se eles serão lidos ou não por crianças não importa, um literata que ignora o leitor. É um elitista. Provavelmente, seu livro preferido não é nem um livro infantil ou que fala da infância, é apenas um clássico que a Academia Brasileira de Letras considera ~literatura~. Deve ser algo como Em busca do tempo perdido ou alguma coisa bem amargurada do Valter Hugo Mãe.

 

Esses são os tipos mais comuns da galera da literatura infantil. Todos eles são bem chatos. Se vocês querem saber, admito que, pra mim, o menos pior é o cara do mercado, porque pelo menos ele tem pé no chão (mesmo que esse chão seja o chão do fundo do poço). O tipo nº1 me dá coceira especialmente porque subestima demais a criança, mas o pior mesmo é o terceiro puramente por ser um elitista. Mal ou bem, os dois primeiros clubes ainda consideram o leitor, mesmo fazendo isso errado.

i'm scared

Agora, você me pergunta: Clara, como sobrevivo a essa gente? Como eu sobrevivo a esse universo?

Primeiro ponto: é legal ir nos eventos, fazer cursos, conversar com as pessoas. É importante porque você vai ouvir essas pessoas falando e vai descobrir os pontos que você discorda e os pontos que você concorda com elas. Também é ali que tem um montão de outras pessoas que estão fazendo o mesmo que você. Lembre-se: não é porque as pessoas parecem estar interessadas que elas concordam com o que está sendo dito. Quantas vezes você mesmo não fingiu estar super interessado em um papo péssimo? Ou sorriu e balançou a cabeça quando alguma figura de autoridade falou alguma coisa absurda, mas você deixou passar só pra não criar caso? Pois é, você tem que achar essas pessoas.

Uma possibilidade é ficar de olho nas pessoas que estão se movimentando muito durante a palestra – elas provavelmente estão bem incomodadas. As pessoas que estão dormindo também podem ser bacanas, mas é mais difícil contata-las porque, bem, elas não estão muito conscientes nesse momento, néam. Isso também funciona para cursos. Busque as pessoas que estão desenhando ou que parecem não estar prestando atenção. As chances de elas serem maneiras são enormes. Você pode começar com um comentário ambíguo, um olhar de cansaço ou mesmo aquela pergunta com o maior tom de sinceridade que você consegue (“você tá curtindo isso?”). É infalível pra peneirar os interessantes dos cansados!

Se o evento estiver muito ruim, você pode sempre (e eu recomendo muitíssimo) sair do auditório e ir comer os biscoitos que dão de graça. Outras pessoas que também não aguentaram a conversa lá dentro estarão ali e você pode conversar com elas. Inclusive: foi isso que fiz no último evento sobre literatura infantil e foi ótimo! Não só conheci pessoas interessantes, como também reencontrei amigos de outros eventos em que ficamos tomando café e criticando o elitismo da academia!

Agora, se você for que nem eu e adorar uma boa polêmica, fale. Se você está em um curso, pergunte ao professor, critique-o. Ele é humano, ele tem erros. Discuta de uma forma respeitosa, mostre os pontos dos quais você discorda e aproveite o debate! É sempre muito bom quando isso acontece numa aula. Caso o professor não esteja aberto ao diálogo e te dê uma fechada, também não se preocupe: outros alunos que concordam com você irão comentar contigo o caso depois.

Em eventos, se você tiver forças para esperar até o final, quando se abre a perguntas, levante a mão e fale também! Mas, por favor, não se esqueça de fazer uma pergunta! Afinal, sem isso, não vai ter muito debate. Um exemplo pessoal mas do qual me orgulho muito foi em um evento do Conversas ao Pé da Página, um evento de literatura infantil bem acadêmico, que fui. Na mesa, havia um monte de adultos 40+ falando sobre jovens e adolescentes, como eles não se interessam tanto assim por ler e como a leitura deles é outra. Aquilo me deixou possessa, claro. Eles não tinham propriedade nenhuma sobre o tema, nenhum deles era jovem ou adolescente e claramente havia um milhão de outras pessoas que os organizadores do evento podiam ter chamado que representariam muito melhor jovens e adolescentes (e, sim, estou falando de jovens e adolescentes que trabalham com literatura). Então, eu peguei o microfone, a última pergunta, e disse meu nome, o que fazia e comecei que “gostaria de observar que não existe nenhum jovem ou adolescente falando por si ou por sua geração nesse evento, então como vocês acham possível que tenhamos uma conversa produtiva quando excluímos essas pessoas do diálogo?”. Foi uma bela palha na fogueira e, no fim, UM MONTÃO DE GENTE VEIO FALAR COMIGO!!! Até uma das organizadoras veio correndo me explicar como montaram a mesa e eu pude dar uma lição sobre representatividade! E depois pessoas incríveis vieram agradecer por eu ter falado o que elas estavam pensando, foi lindo. Acho que nunca troquei tantos cartões quanto naquele dia. (Inclusive, descobri esse ano que fiquei conhecida como “a revoltada do Conversas” entre algumas pessoas e me fico orgulhosa disso).

Amigues, a verdade é que você nunca será a única pessoa a pensar diferente do que se está dizendo lá na frente. Provavelmente, 1/3 da galera também discorda dos clubinhos e da Regina George. Mas você só vai saber disso se você falar o que pensa, se você conversar, discutir, argumentar. Nós estamos muito acostumados a ficarmos quietos porque é confortável não se expor, mas sem essa exposição, nunca vamos encontrar as outras pessoas que estão à margem como nós, que discordam de tudo aquilo mas não sabem como enunciar. São pessoas inteligentíssimas, que deveriam estar lá em cima palestrando, mas não fazem parte das Plastics. São as pessoas que, em vez de serem amigas da Regina, são migas do Snoopy – e todo mundo sabe que a galera do Peanuts é muito mais pra frentex e interessante que as meninas malvadas (tá no nome, gente, não tem como ser bom!!). E você só vai chegar no Snoopy se você falar. Sem essa conversa, os clubinhos vão continuar os mesmos e as áreas ficarão sempre meio estáticas.

A polêmica é necessária porque a mudança é necessária. E é assim que sobrevivemos aos clubinhos da literatura infantil (e todos os outros clubinhos que existem por aí): mudando-os.

 

Ó nossa turma que daora, migas!
Ó nossa turma que daora, migas!