Não, não é o bolinho

Todo mundo adora um trocadilho; eu sei, eu também adoro. Trocadalho do carilho é sempre shola de bow. É uma forma rápida, compacta de se divertir. Inclusive, o trocadilho ficou tão difundido na nossa cultura que até mesmo os pernósticos dos críticos literários tiveram que aceitar essa zoeira na literatura com os movimentos Modernista e da poesia marginal. Qualé, fala sério, você não acha mesmo que “eles passarão, eu passarinho” era antes de uma poesia linda só uma zoeira das boas? Pois era sim. A base da gracinha do poema é exatamente trocar e surpreender, gerando graça. Esse processo, na vida da gente como a gente, é também conhecido como o querido, ilustre, famigerado trocadilho.

Não me levem a mal, eu amo demais trocadilhos. A galera que convive comigo sabe o quanto eu adoro uma zoeira em pílulas. Mas, assim, quando ouvimos o mesmo trocadilho quinze mil novecentas e trinta e duas vezes (e eu fiz questão de escrever por extenso o número pra dar mais trabalho pra vocês mesmo), as coisas começam a ficar meio chatas. Pera… Você ainda não entendeu onde esse texto vai dar? Pois bem, te ilustro agora mesmo:

– Qual o seu nome? – pergunta pessoa desconhecida para mim.

– Clara.

– Ai, nossa, você é bem clarinha mesmo! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

*dou longo suspiro*

Galera, eu sei que meu nome é bacana. Eu gosto muito dele também. Clara Browne é ótimo! É sonoro, é marcante, é maneiro. Se eu não gostasse, teria escolhido usar meu outro sobrenome. Então, assim, estamos de acordo quanto ao fato de ser um nome daora. Mas vamos fazer alguns combinados? Porque essa quantidade de trocadilhos e piadinhas que escuto com o meu nome deixou de ser divertida quando eu tinha 15 anos. E sabe por quê? PORQUE EU JÁ ESCUTEI TODOS ELES. Aliás, eu INVENTEI grande parte deles. Porque isso também acontece: quando você tem um nome que todo mundo acha divertido, você aprende a antecipar a piada antes que outros a façam. É uma questão de sobrevivência. As leis da selva não são necessariamente justas.

E é a mesma coisa de família: você pode falar mal e fazer piadas da sua família, mas pessoas de fora não. Pois bem: eu posso fazer piadas com meu nome, você que não tem meu nome não pode. Aceite.

Agora que estamos todos grandinhos, acho que já podemos conversar melhor sobre o assunto. Acredito que já estamos no ponto que ninguém vai se sentir ofendido ou particularmente atacado quando eu pedir encarecidamente aos senhores e às senhoras que PAREM DE FAZER TROCADILHOS COM O MEU NOME.

Eu sei que vocês se acham divertidos.

Eu sei que vocês se acham inovadores.

Eu sei que vocês acham que estão quebrando o gelo.

Eu sei de tudo isso e eu vou contar um segredo pra vocês: vocês podem até ser divertidos e inovadores e bons pedreiros do gelo, mas quando vocês fazem trocadilho com o meu nome, vocês só estão repetindo uma legião de outras pessoas que fizeram o mesmo. Não é engraçado, não é inovador e juropordeussemfigas que vocês não conseguem quebrar o gelo comigo dessa forma. E eu sei! Eu sei que vocês acham de verdade que com vocês é diferente! Mas, amigos e amigas, eu juro do fundo do meu coração: vocês não estão sendo maneiros.

Vocês não acreditam, eu sei disso também. E é por isso que aqui recolho uma série de coisas que escuto frequentemente. De amigos, professores, pessoas desconhecidas na rua, galera que vem bater papo por causa da Capitolina, gente que precisa do meu nome pra cadastro de qualquer coisa. Respirem fundo, se divirtam, deem suas risadas agora e NUNCA MAIS FALEM ESSAS COISAS PRA MIM.

 

  1. O clássico dos clássicos

Essa foi a frase que eu mais ouvi a minha vida inteira.

– Posso pegar uma caneta emprestada?

– Posso tirar uma dúvida?

– A resposta é 3?

– Quer almoçar comigo?

– Nos encontramos às 16hs?

Para todas as perguntas do universo, a mesma resposta:

– Claro, Clara. *risadinha de quem se achou esperto*

Minha. Vida. Inteira. Ouvindo. Essa. Porcaria.

Toda vez que eu perguntava algo nas aulas de física, o professor me respondia assim. TODA VEZ!

Toda vez que eu falo qualquer coisa que dê pra dizer “claro”, AS PESSOAS NÃO CONSEGUEM SE CONTER!!!!!!

Gente. NÃO É ENGRAÇADO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

CONTENHAM-SE!!!!!!!!!

  1. O clássico dos clássicos condensado

Quando parte das minhas relações passou a ser pela internet (especialmente por causa da Capitolina), o “Claro, Clara” se condensou. Como vocês sabem, ninguém gosta muito de escrever nas internets, dá preguiça etc. Então, conseguimos chegar numa forma maravilhosa. Assim, peço que caso vocês não consigam se conter como pedi acima, vocês escrevam dessa forma:

Clar@.

Só, pelamordedeus, não escrevam “rs” depois. É tudo o que peço. Obrigada.

  1. Nossa! Você é tipo o bolinho!

Vamos aprender: brownie = bolinho, Browne = meu sobrenome. Não é igual. Não sou tipo o bolinho. Sou tipo uma pessoa, obrigada.

  1. Você é um doce mesmo

A primeira vez que eu ouvi essa piada foi em uma aula de literatura, no ensino médio. Era um professor machista que dava em cima das garotas. Na hora da chamada, ele disse com um sorrisão no rosto:

– Clara, que é um doce!

Aquilo me irritou tanto, ainda mais vindo dele, que minha resposta foi:

– Não!

Ele nunca mais fez uma piadinha com meu nome. Amém.

Mas, agora, vamos ~esclarecer~ uma coisa: em geral, eu sou uma pessoa fofa e querida e eu tento me empenhar pra ser legal. Em geral, se eu não estou sendo legal, é porque eu estou tímida. Mas também pode ser porque eu não gosto de alguém que está na rodinha de conversa. A questão é: se você acabou de descobrir meu sobrenome, é porque não somos muito próximos. Se não somos muito próximos, VOCÊ NÃO TEM COMO SABER SE EU SOU UM DOCE OU NÃO. Então só não fala isso. Tipo, de verdade. Não. Vlw.

  1. Você é bem clarinha mesmo

Já demonstrei como esse diálogo se dá lá em cima, mas repito aqui só pra poder dizer: GENTE. É CLARO, NÉ? CLARO CLARA. CLAR@. ETC. É uma questão de genética, sabe? Mas meus pais não esperaram eu nascer, viram que eu era branquela e falaram NOSSA, AGORA SIM SABEMOS O NOME DESSA CRIANÇA: CLARA. Eu não sou personagem de contos de fada, eu sou de um tal plano chamado realidade. Eu não sou a Branca de Neve que ganhou esse nome porque tem a pele branca como a neve. Eu ganhei meu nome porque meus pais acharam bonito, acharam que tinha a ver com uma filha deles e foi isso aê. Tem nada a ver com mais nada. Não é uma ironia, uma coincidência, é só um nome. Tá de boas. Se vocês continuarem assim, daqui a pouco vou ouvir vocês dizendo que “escola” tem “cola” e “felicidade” tem “fel” – e aí serei obrigada a gritar no ouvido de vocês durante uma semana.

  1. E onde tá a sua irmã gema?

Em geral, essa pergunta é feita por homens mais velhos que querem se enturmar, então minha resposta de praxe é:

– Junto com a casca.

ELES ACHAM ISSO HILÁRIO.

Mas é porque eles não tiveram que ouvir isso desde que aprenderam a falar.

Eu entendo que essa piada tem dois trocadilhos que podem parecer divertidos: clara-gema e gema-gêmea. Mas, assim, não é tão engraçado assim. Vocês não precisam insistir tanto nesse trocadilho. Ele é bem bobo, na verdade. Cansa a minha beleza (e de todas as outras Claras também).

  1. Nossa, mas você é gostosa mesmo! HAHAHA

GENTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!! SOCORROOOOOOOOOOOOO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃOOOOOOOOOOOOOOO! PELAMORDEDEUS NUNCA FALEM ISSO PRA NINGUÉM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Tem machismo nisso aí. Tem MUITO machismo nisso aí! Não é engraçado!!! É péssimo!! PAREM, PELAMOR, PAREM!!!

  1. Clara Cupcake, ou até mesmo Gema Cupcake

Olha, minha mãe falar isso é super fofo, porque ela é minha mãe e tem o mesmo sobrenome que o meu. Pras outras pessoas: não façam isso, por favor. Eu nem gosto de cupcake. Não é um bolinho gostoso, tem muito enfeite pra ser bom e é muito caro pra não valer o gosto mediano. Tanto bolo que existe por aí… Tem bolo de chocolate, formigueiro, pão de ló… Mas mesmo assim, sabe, deixa meu nome. Ele já tem sonoridade de zoeira, não precisa ir além. O mesmo serve pro meu primeiro nome. Já tá bom, não precisa de mais.

  1. Brown = Marrom, Browne = Marrone?

Não.

  1. Mas esse é seu nome mesmo?

Deixei essa por último, porque depois de tantos trocadilhos você até começa a se perguntar se meu nome é DE FATO Clara Browne. Mas, gente, cá entre nós, POR QUE RAIOS EU MENTIRIA MEU NOME PRA VOCÊS???

É muito engraçado porque toda vez que falo que meu nome é Clara Browne, as pessoas 1. dão uma risadinha e dizem “que legal”, ou 2. perguntam se eu tô falando sério. Mas isso pode ser em qualquer situação – passando meu e-mail, fazendo cadastros, conversando no bar, assinando coisas. Chegou em um ponto tão absurdo que, uma vez, eu fui pra coordenação do meu colégio e o coordenador da área de humanas leu meu nome na folha e perguntou:

– Seu nome é mesmo Clara Browne? Achei que fosse um pseudônimo!!!

Agora, vocês, pessoas sensatas que estão lendo meu blógue, me respondam: POR QUE E COMO EU IA CRIAR UM PSEUDÔNIMO NO COLÉGIO??? COMO EU IA COLOCAR ISSO NA CHAMADA? COMO EU IA ASSINAR TODAS AS MINHAS PROVAS COM UM PSEUDÔNIMO???? ISSO NÃO FAZ SENTIDO NENHUM!!!!

 

Agora que vocês sabem as coisas pelas quais passo no dia a dia, peço encarecidamente que, antes de fazer qualquer trocadilho ou outro tipo de piadinha com meu nome, você pense 32 vezes antes e se pergunte “mas essa piada é agregadora? Ela inova ou traz algum tipo de surpresa para alguém que viveu 21 anos com tal nome?”. Se a resposta for não, apenas pare.

Att,

Clara Browne.

2 comentários em “Não, não é o bolinho

  1. Sofia Soter

    clara,

    este comentário é um pedido de desculpas por todos os “claro! (clara, hehe)” que eu já respondi pra você. peço perdão. é irresistível! mas é chato. então foi mal. (não adoto clar@ porque sou contra uso de símbolos pra linguagem neutra) (desculpa) (mas é uma piada engraçada, acho show)

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    1. clarabrowne

      Tudo bem, miga! Não me incomodo quando a pessoa faz a piada de uma forma tranquila ou só reconhecendo a graça da história. O problema é quem faz a piada como quem acha que descobriu a roda ou o fogo.

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