Hogwarts vai virar Brazuca OU Clara Browne e a Comunidade Blogueira Filosofal

[a imagem acima é totalmente creditada à página Hogwarts vai virar Cuba. Não tenho nada a ver com maravilhosa arte, sou apenas uma fã dessa belezura.]

 

Minha relação com Harry Potter sempre foi meio engraçada, porque sempre amei muito a história, mas a forma como ela é contada (coladinha na orelha do Harry) me irritava profundamente. Mas eu, como todas as outras pessoas razoavelmente decentes do mundo, era apaixonada por aquele universo mágico. Eu queria saber de tudo daquele mundo, queria aprender todos os mínimos detalhes. Comecei a pesquisar sobre os diferentes animais, a história da magia, fiquei horas e mais horas discutindo com minhas amigas como seríamos se fossemos bruxas. Aí, eu cresci e fiquei meio tranquila, até que passei dois meses morando em Londres e tudo voltou com muito mais força. Eu estava EM LONDRES. DO LADINHO DO BECO DIAGONAL. Cês ‘tão ligados disso?! É claro que estão. Se vocês abriram esse link é porque são fãs de Harry Potter, sei bem como é.

Mas a coisa mais curiosa que entendi sobre Harry Potter estando lá na terra dele é que, na real, o que a J. K. Rowling fez foi simplesmente pegar todas as coisas inglesas e adicionar uma magiazinha. Fim. Todo o resto é o Reino Unido como ele é. As comidas, os meios de transporte (tirando vassouras, claro), o governo, até os castelos são meio naquela onda. E saber disso só me deixou ainda mais intrigada sobre esse mundo mágico. Tão intrigada que cheguei a um ponto que passei umas três tardes com a Sofia falando basicamente SÓ de Harry Potter.

Acontece que, depois de tantas teorias, tantas conversas, tantas elaborações sobre o mundo mágico, fiquei pensando: e o Brasil, como fica?

A gente sabe que a comunidade mágica é pequena, mas que ela está espalhada por todo o planeta. Tem bruxo na França, na Noruega, na Bulgária, no Egito. É de se esperar, então, que tenha gente aqui no nas nossas terras (aliás, tem sim: no quarto livro de HP o Ron comenta que um dos seus irmãos tinha um penpal brasileiro). Não é porque estamos abaixo da linha do Equador que acabou comunidade bruxa, tchau, trouxas, isso aí é terceiro mundo e magia não se mete com essa gente rsrsrsrs. Pelamor, né. E pensando nisso foi que me veio a questão: como seria a comunidade mágica brasileira?

A primeira coisa que pensei é que ela deve ser bem heterogênea. Deve misturar a magia de muitos povos, e isso deve ser poderosíssimo se unido. Mas, com a colonização, fica difícil pensar o quanto esses conhecimentos foram agregados e o quanto esse processo não separou e até mesmo exterminou boa parte dos saberes mágicos – tanto dos povos indígenas, quanto dos povos africanos. Também pensei que, com um país tão grande como o Brasil, não é possível que só exista uma escola de bruxaria por aqui. Até porque a cultura (e com isso, os saberes mágicos) são muito diferentes aqui. Imagino que teria que ter, pelo menos, uma escola por região. A partir disso, fui tentando criar o mundo mágico que existe por aqui, mas nós, trouxas, não temos conhecimento.

Acontece que pensar no Brasil, ou em qualquer país colonizado, é sempre mais complexo, porque as relações históricas são muito diferentes do que o caso de países colonizadores, por exemplo, a Inglaterra. E, bom, para pensar o momento atual da comunidade mágica brasileira, temos que pensar também na história dela; as comunidades mágicas de cada região refletem muito sua cultura.

Com isso, fui pensando em algumas considerações sobre a comunidade mágica daqui. Mas o que começou com apenas algumas perguntinhas simples se tornou quase uma teoria da conspiração com a quantidade de ideias e discussões que esses questionamentos trouxeram. Assim, o que seria um único post sobre a comunidade bruxa brasileira se tornou uma série de posts!!! *confete e serpentina sendo jogados*

Por que é tão bom que seja uma série e não 01 pôust apenax? Oras bolas! Primeiro porque quanto mais tempo falando sobre o universo mágico e Harry Potter melhor. Segundo porque dá pra ter mais discussões sobre o assunto e chegar a teorias mais detalhadas, discutidas e, claro, coerentes com as questões que estão sendo colocadas. A ideia é que todo mundo venha conversar sobre a comunidade mágica brasileira e que isso traga reflexões não apenas sobre um mundo fictício, mas também que consigamos pensar em questões políticas e sociais mais a fundo (e depois a gente lança um livro chamado Clara Browne e A Comunidade Blogueira Filosofal). Então, vamos ao primeiro ponto: a colonização.

1. Quando os portugueses vieram pra cá, vieram bruxos também? Isso foi de forma organizada? O governo português fez algum acordo com os bruxos pra colonizarem juntos outras terras?

Lendo as conversas da Sofia com o Paulo, a gente percebe que a J. K. não parou muito pra pensar sobre as relações políticas dos bruxos. Sabemos que existem ministérios e que o primeiro ministro trouxa sabe da existência do primeiro ministro bruxo, mas meio que acaba por aí. Não sabemos como funciona a política bruxa e como era a relação bruxos-trouxas antes do Estatuto Internacional de Sigilo da Magia, mas temos uma ideia que não era a melhor coisa do mundo dado o histórico de perseguição bruxa etc. Assim, quando pensei na expansão marítima portuguesa, a primeira pergunta que me fiz é: será que o governo trouxa pensou na possibilidade de comunidades mágicas em outros continentes? Com isso, será que eles teriam feito algum acordo com os bruxos de uma colonização conjunta?

Como a história da magia é muito separada da história que conhecemos, acredito que não. O que parece é que os trouxas foram fazendo as coisas por conta deles e pronto. Ainda mais se pensarmos na questão do rechaço à comunidade bruxa, as chances dos governos terem se unido num momento como esse só existiriam se realmente houvesse um problema em que só o uso da magia resolveria – e mesmo assim, acho que os bruxos só aceitariam se tivesse ~algo em troca~. Mas a falta de interesse dos bruxos pelos trouxas (que transpassa absolutamente toda série Harry Potter) já indica que essas chances são realmente mínimas.

No entanto, o que é muito possível é que bruxos tenham vindo junto com trouxas para a colonização por conta própria. Sabemos que muitos bruxos eram bem relacionados a famílias trouxas importantes e que não é difícil para eles passarem por pessoas não-mágicas. Assim, minha teoria (discutida com a Sofia, amor da minha vida, anjo que veio dos céus pra passar dias discutindo teorias do mundo bruxo comigo) é que alguns bruxos, interessados em expandir seus domínios (mágicos), embarcaram nas grandes navegações à procura de novas terras a se colonizar. Eles se estabeleceram por aqui e, de forma orgânica, começaram novas comunidades bruxas nesses lugares que vieram a ser considerados países mais tarde.

2. Será que os portugueses conseguiram trazer bruxos dos povos africanos?  

Sabemos pelo livro História da Magia, da Batilda Bagshot, que os trouxas não eram muito bons em identificar bruxos. Durante a inquisição, por exemplo, ela conta que pouquíssimos bruxos foram identificados e, os que foram, conseguiam fazer feitiços para escapar do fogo e, ao mesmo tempo, enganar os trouxas (e essa palavra, nesse caso, fica com um duplo sentindo maravilhoso! Obrigada à tradutora de Harry Potter por essa possibilidade). Acontece que, apesar disso, os feitiços são criados a partir de necessidades bruxas. O que isso significa? Oras, que uma coisa é conhecer as armas dos trouxas (como no caso dos bruxos europeus) e poder se preparar para se defender, como aconteceu durante a época de perseguição, agora outra coisa é você não ter conhecimento dessas armas e ter que se defender delas.

Os povos africanos não tinham familiaridade com as armas europeias. Como então os bruxos dessas comunidades conseguiriam defender (a si e a todos)? Não é porque são bruxos que não estão eximidos da morte, prisão, colonização ou mesmo escravatura.  Trouxas ou bruxos, todos os humanos podem ser afetados por doenças desconhecidas, armas de fogo e estratégias não comuns ou mesmo desconhecidas. Assim, a resposta é: sim, portugueses também escravizaram bruxos de povos africanos.

3. Bruxos africanos, a partir do ponto que já conheciam as armas europeias, conseguiram se libertar?

Depois de certo tempo submetidos à escravatura, é claro que os bruxos africanos sacaram a conduta portuguesa e conseguiram voltar seus poderes à proteção pessoal, pelo menos. É possível que possam ter criado feitiços que os ajudassem a sobreviver às condições ao qual eram submetidos e, muito provavelmente, alguns deles conseguiram escapar (assim como estudamos nas aulas de história). A questão é que, apesar dos poderes, um humano (bruxou ou trouxa) sempre terá dificuldade em viver fora de comunidades, então as chances de sobrevivência de bruxos foragidos não deviam ser tão mais altas do que de um escravo não-bruxo.

Apesar disso, o que provavelmente pode ter acontecido também é que alguns desses bruxos podem ter se encontrado e criado suas próprias comunidades, ou melhor, seus próprios quilombos. É possível que houvesse quilombos misturados, com trouxas e bruxos se passando por trouxas, da mesma forma que podem ter havido também quilombos apenas de bruxos. Aliás, imagina o quão sensacional não deve ser um quilombo bruxo? Imagina o quão sensacional uma versão da história em que Zumbi dos Palmares era um bruxo? Alguém, pelamordedeus, cria uma (fan)fic assim, preciso ler essa história.

 

Bom, por enquanto, ficamos com isso. Contem as ideias que tiverem nos comentários, porque temos muito a pensar sobre o assunto!

3 comentários em “Hogwarts vai virar Brazuca OU Clara Browne e a Comunidade Blogueira Filosofal

  1. Pingback: Recapitulando: Out. 2015 - Sofia Soter

  2. Isadora -sa

    cara, eu já li esse texto umas 15X desde que tive uma síncope no Facebook e ainda não consegui pensar num comentário apropriado. então fica apenas: intercâmbio Sirius + Lupis no Brasil.

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    1. clarabrowne

      ALKSJFLKASJDF ❤ Eu tô tão maníaca de fanfics ultimamente que não sei nem o que fazer da vida mais. Tá difícil até pra concentrar e escrever sobre comunidade bruxa brasileira hahahaha!

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