Não, não é o bolinho

Todo mundo adora um trocadilho; eu sei, eu também adoro. Trocadalho do carilho é sempre shola de bow. É uma forma rápida, compacta de se divertir. Inclusive, o trocadilho ficou tão difundido na nossa cultura que até mesmo os pernósticos dos críticos literários tiveram que aceitar essa zoeira na literatura com os movimentos Modernista e da poesia marginal. Qualé, fala sério, você não acha mesmo que “eles passarão, eu passarinho” era antes de uma poesia linda só uma zoeira das boas? Pois era sim. A base da gracinha do poema é exatamente trocar e surpreender, gerando graça. Esse processo, na vida da gente como a gente, é também conhecido como o querido, ilustre, famigerado trocadilho.

Não me levem a mal, eu amo demais trocadilhos. A galera que convive comigo sabe o quanto eu adoro uma zoeira em pílulas. Mas, assim, quando ouvimos o mesmo trocadilho quinze mil novecentas e trinta e duas vezes (e eu fiz questão de escrever por extenso o número pra dar mais trabalho pra vocês mesmo), as coisas começam a ficar meio chatas. Pera… Você ainda não entendeu onde esse texto vai dar? Pois bem, te ilustro agora mesmo:

– Qual o seu nome? – pergunta pessoa desconhecida para mim.

– Clara.

– Ai, nossa, você é bem clarinha mesmo! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

*dou longo suspiro*

Galera, eu sei que meu nome é bacana. Eu gosto muito dele também. Clara Browne é ótimo! É sonoro, é marcante, é maneiro. Se eu não gostasse, teria escolhido usar meu outro sobrenome. Então, assim, estamos de acordo quanto ao fato de ser um nome daora. Mas vamos fazer alguns combinados? Porque essa quantidade de trocadilhos e piadinhas que escuto com o meu nome deixou de ser divertida quando eu tinha 15 anos. E sabe por quê? PORQUE EU JÁ ESCUTEI TODOS ELES. Aliás, eu INVENTEI grande parte deles. Porque isso também acontece: quando você tem um nome que todo mundo acha divertido, você aprende a antecipar a piada antes que outros a façam. É uma questão de sobrevivência. As leis da selva não são necessariamente justas.

E é a mesma coisa de família: você pode falar mal e fazer piadas da sua família, mas pessoas de fora não. Pois bem: eu posso fazer piadas com meu nome, você que não tem meu nome não pode. Aceite.

Agora que estamos todos grandinhos, acho que já podemos conversar melhor sobre o assunto. Acredito que já estamos no ponto que ninguém vai se sentir ofendido ou particularmente atacado quando eu pedir encarecidamente aos senhores e às senhoras que PAREM DE FAZER TROCADILHOS COM O MEU NOME.

Eu sei que vocês se acham divertidos.

Eu sei que vocês se acham inovadores.

Eu sei que vocês acham que estão quebrando o gelo.

Eu sei de tudo isso e eu vou contar um segredo pra vocês: vocês podem até ser divertidos e inovadores e bons pedreiros do gelo, mas quando vocês fazem trocadilho com o meu nome, vocês só estão repetindo uma legião de outras pessoas que fizeram o mesmo. Não é engraçado, não é inovador e juropordeussemfigas que vocês não conseguem quebrar o gelo comigo dessa forma. E eu sei! Eu sei que vocês acham de verdade que com vocês é diferente! Mas, amigos e amigas, eu juro do fundo do meu coração: vocês não estão sendo maneiros.

Vocês não acreditam, eu sei disso também. E é por isso que aqui recolho uma série de coisas que escuto frequentemente. De amigos, professores, pessoas desconhecidas na rua, galera que vem bater papo por causa da Capitolina, gente que precisa do meu nome pra cadastro de qualquer coisa. Respirem fundo, se divirtam, deem suas risadas agora e NUNCA MAIS FALEM ESSAS COISAS PRA MIM.

 

  1. O clássico dos clássicos

Essa foi a frase que eu mais ouvi a minha vida inteira.

– Posso pegar uma caneta emprestada?

– Posso tirar uma dúvida?

– A resposta é 3?

– Quer almoçar comigo?

– Nos encontramos às 16hs?

Para todas as perguntas do universo, a mesma resposta:

– Claro, Clara. *risadinha de quem se achou esperto*

Minha. Vida. Inteira. Ouvindo. Essa. Porcaria.

Toda vez que eu perguntava algo nas aulas de física, o professor me respondia assim. TODA VEZ!

Toda vez que eu falo qualquer coisa que dê pra dizer “claro”, AS PESSOAS NÃO CONSEGUEM SE CONTER!!!!!!

Gente. NÃO É ENGRAÇADO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

CONTENHAM-SE!!!!!!!!!

  1. O clássico dos clássicos condensado

Quando parte das minhas relações passou a ser pela internet (especialmente por causa da Capitolina), o “Claro, Clara” se condensou. Como vocês sabem, ninguém gosta muito de escrever nas internets, dá preguiça etc. Então, conseguimos chegar numa forma maravilhosa. Assim, peço que caso vocês não consigam se conter como pedi acima, vocês escrevam dessa forma:

Clar@.

Só, pelamordedeus, não escrevam “rs” depois. É tudo o que peço. Obrigada.

  1. Nossa! Você é tipo o bolinho!

Vamos aprender: brownie = bolinho, Browne = meu sobrenome. Não é igual. Não sou tipo o bolinho. Sou tipo uma pessoa, obrigada.

  1. Você é um doce mesmo

A primeira vez que eu ouvi essa piada foi em uma aula de literatura, no ensino médio. Era um professor machista que dava em cima das garotas. Na hora da chamada, ele disse com um sorrisão no rosto:

– Clara, que é um doce!

Aquilo me irritou tanto, ainda mais vindo dele, que minha resposta foi:

– Não!

Ele nunca mais fez uma piadinha com meu nome. Amém.

Mas, agora, vamos ~esclarecer~ uma coisa: em geral, eu sou uma pessoa fofa e querida e eu tento me empenhar pra ser legal. Em geral, se eu não estou sendo legal, é porque eu estou tímida. Mas também pode ser porque eu não gosto de alguém que está na rodinha de conversa. A questão é: se você acabou de descobrir meu sobrenome, é porque não somos muito próximos. Se não somos muito próximos, VOCÊ NÃO TEM COMO SABER SE EU SOU UM DOCE OU NÃO. Então só não fala isso. Tipo, de verdade. Não. Vlw.

  1. Você é bem clarinha mesmo

Já demonstrei como esse diálogo se dá lá em cima, mas repito aqui só pra poder dizer: GENTE. É CLARO, NÉ? CLARO CLARA. CLAR@. ETC. É uma questão de genética, sabe? Mas meus pais não esperaram eu nascer, viram que eu era branquela e falaram NOSSA, AGORA SIM SABEMOS O NOME DESSA CRIANÇA: CLARA. Eu não sou personagem de contos de fada, eu sou de um tal plano chamado realidade. Eu não sou a Branca de Neve que ganhou esse nome porque tem a pele branca como a neve. Eu ganhei meu nome porque meus pais acharam bonito, acharam que tinha a ver com uma filha deles e foi isso aê. Tem nada a ver com mais nada. Não é uma ironia, uma coincidência, é só um nome. Tá de boas. Se vocês continuarem assim, daqui a pouco vou ouvir vocês dizendo que “escola” tem “cola” e “felicidade” tem “fel” – e aí serei obrigada a gritar no ouvido de vocês durante uma semana.

  1. E onde tá a sua irmã gema?

Em geral, essa pergunta é feita por homens mais velhos que querem se enturmar, então minha resposta de praxe é:

– Junto com a casca.

ELES ACHAM ISSO HILÁRIO.

Mas é porque eles não tiveram que ouvir isso desde que aprenderam a falar.

Eu entendo que essa piada tem dois trocadilhos que podem parecer divertidos: clara-gema e gema-gêmea. Mas, assim, não é tão engraçado assim. Vocês não precisam insistir tanto nesse trocadilho. Ele é bem bobo, na verdade. Cansa a minha beleza (e de todas as outras Claras também).

  1. Nossa, mas você é gostosa mesmo! HAHAHA

GENTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!! SOCORROOOOOOOOOOOOO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃOOOOOOOOOOOOOOO! PELAMORDEDEUS NUNCA FALEM ISSO PRA NINGUÉM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Tem machismo nisso aí. Tem MUITO machismo nisso aí! Não é engraçado!!! É péssimo!! PAREM, PELAMOR, PAREM!!!

  1. Clara Cupcake, ou até mesmo Gema Cupcake

Olha, minha mãe falar isso é super fofo, porque ela é minha mãe e tem o mesmo sobrenome que o meu. Pras outras pessoas: não façam isso, por favor. Eu nem gosto de cupcake. Não é um bolinho gostoso, tem muito enfeite pra ser bom e é muito caro pra não valer o gosto mediano. Tanto bolo que existe por aí… Tem bolo de chocolate, formigueiro, pão de ló… Mas mesmo assim, sabe, deixa meu nome. Ele já tem sonoridade de zoeira, não precisa ir além. O mesmo serve pro meu primeiro nome. Já tá bom, não precisa de mais.

  1. Brown = Marrom, Browne = Marrone?

Não.

  1. Mas esse é seu nome mesmo?

Deixei essa por último, porque depois de tantos trocadilhos você até começa a se perguntar se meu nome é DE FATO Clara Browne. Mas, gente, cá entre nós, POR QUE RAIOS EU MENTIRIA MEU NOME PRA VOCÊS???

É muito engraçado porque toda vez que falo que meu nome é Clara Browne, as pessoas 1. dão uma risadinha e dizem “que legal”, ou 2. perguntam se eu tô falando sério. Mas isso pode ser em qualquer situação – passando meu e-mail, fazendo cadastros, conversando no bar, assinando coisas. Chegou em um ponto tão absurdo que, uma vez, eu fui pra coordenação do meu colégio e o coordenador da área de humanas leu meu nome na folha e perguntou:

– Seu nome é mesmo Clara Browne? Achei que fosse um pseudônimo!!!

Agora, vocês, pessoas sensatas que estão lendo meu blógue, me respondam: POR QUE E COMO EU IA CRIAR UM PSEUDÔNIMO NO COLÉGIO??? COMO EU IA COLOCAR ISSO NA CHAMADA? COMO EU IA ASSINAR TODAS AS MINHAS PROVAS COM UM PSEUDÔNIMO???? ISSO NÃO FAZ SENTIDO NENHUM!!!!

 

Agora que vocês sabem as coisas pelas quais passo no dia a dia, peço encarecidamente que, antes de fazer qualquer trocadilho ou outro tipo de piadinha com meu nome, você pense 32 vezes antes e se pergunte “mas essa piada é agregadora? Ela inova ou traz algum tipo de surpresa para alguém que viveu 21 anos com tal nome?”. Se a resposta for não, apenas pare.

Att,

Clara Browne.

Hogwarts vai virar Brazuca OU Clara Browne e a Comunidade Blogueira Filosofal

[a imagem acima é totalmente creditada à página Hogwarts vai virar Cuba. Não tenho nada a ver com maravilhosa arte, sou apenas uma fã dessa belezura.]

 

Minha relação com Harry Potter sempre foi meio engraçada, porque sempre amei muito a história, mas a forma como ela é contada (coladinha na orelha do Harry) me irritava profundamente. Mas eu, como todas as outras pessoas razoavelmente decentes do mundo, era apaixonada por aquele universo mágico. Eu queria saber de tudo daquele mundo, queria aprender todos os mínimos detalhes. Comecei a pesquisar sobre os diferentes animais, a história da magia, fiquei horas e mais horas discutindo com minhas amigas como seríamos se fossemos bruxas. Aí, eu cresci e fiquei meio tranquila, até que passei dois meses morando em Londres e tudo voltou com muito mais força. Eu estava EM LONDRES. DO LADINHO DO BECO DIAGONAL. Cês ‘tão ligados disso?! É claro que estão. Se vocês abriram esse link é porque são fãs de Harry Potter, sei bem como é.

Mas a coisa mais curiosa que entendi sobre Harry Potter estando lá na terra dele é que, na real, o que a J. K. Rowling fez foi simplesmente pegar todas as coisas inglesas e adicionar uma magiazinha. Fim. Todo o resto é o Reino Unido como ele é. As comidas, os meios de transporte (tirando vassouras, claro), o governo, até os castelos são meio naquela onda. E saber disso só me deixou ainda mais intrigada sobre esse mundo mágico. Tão intrigada que cheguei a um ponto que passei umas três tardes com a Sofia falando basicamente SÓ de Harry Potter.

Acontece que, depois de tantas teorias, tantas conversas, tantas elaborações sobre o mundo mágico, fiquei pensando: e o Brasil, como fica?

A gente sabe que a comunidade mágica é pequena, mas que ela está espalhada por todo o planeta. Tem bruxo na França, na Noruega, na Bulgária, no Egito. É de se esperar, então, que tenha gente aqui no nas nossas terras (aliás, tem sim: no quarto livro de HP o Ron comenta que um dos seus irmãos tinha um penpal brasileiro). Não é porque estamos abaixo da linha do Equador que acabou comunidade bruxa, tchau, trouxas, isso aí é terceiro mundo e magia não se mete com essa gente rsrsrsrs. Pelamor, né. E pensando nisso foi que me veio a questão: como seria a comunidade mágica brasileira?

A primeira coisa que pensei é que ela deve ser bem heterogênea. Deve misturar a magia de muitos povos, e isso deve ser poderosíssimo se unido. Mas, com a colonização, fica difícil pensar o quanto esses conhecimentos foram agregados e o quanto esse processo não separou e até mesmo exterminou boa parte dos saberes mágicos – tanto dos povos indígenas, quanto dos povos africanos. Também pensei que, com um país tão grande como o Brasil, não é possível que só exista uma escola de bruxaria por aqui. Até porque a cultura (e com isso, os saberes mágicos) são muito diferentes aqui. Imagino que teria que ter, pelo menos, uma escola por região. A partir disso, fui tentando criar o mundo mágico que existe por aqui, mas nós, trouxas, não temos conhecimento.

Acontece que pensar no Brasil, ou em qualquer país colonizado, é sempre mais complexo, porque as relações históricas são muito diferentes do que o caso de países colonizadores, por exemplo, a Inglaterra. E, bom, para pensar o momento atual da comunidade mágica brasileira, temos que pensar também na história dela; as comunidades mágicas de cada região refletem muito sua cultura.

Com isso, fui pensando em algumas considerações sobre a comunidade mágica daqui. Mas o que começou com apenas algumas perguntinhas simples se tornou quase uma teoria da conspiração com a quantidade de ideias e discussões que esses questionamentos trouxeram. Assim, o que seria um único post sobre a comunidade bruxa brasileira se tornou uma série de posts!!! *confete e serpentina sendo jogados*

Por que é tão bom que seja uma série e não 01 pôust apenax? Oras bolas! Primeiro porque quanto mais tempo falando sobre o universo mágico e Harry Potter melhor. Segundo porque dá pra ter mais discussões sobre o assunto e chegar a teorias mais detalhadas, discutidas e, claro, coerentes com as questões que estão sendo colocadas. A ideia é que todo mundo venha conversar sobre a comunidade mágica brasileira e que isso traga reflexões não apenas sobre um mundo fictício, mas também que consigamos pensar em questões políticas e sociais mais a fundo (e depois a gente lança um livro chamado Clara Browne e A Comunidade Blogueira Filosofal). Então, vamos ao primeiro ponto: a colonização.

1. Quando os portugueses vieram pra cá, vieram bruxos também? Isso foi de forma organizada? O governo português fez algum acordo com os bruxos pra colonizarem juntos outras terras?

Lendo as conversas da Sofia com o Paulo, a gente percebe que a J. K. não parou muito pra pensar sobre as relações políticas dos bruxos. Sabemos que existem ministérios e que o primeiro ministro trouxa sabe da existência do primeiro ministro bruxo, mas meio que acaba por aí. Não sabemos como funciona a política bruxa e como era a relação bruxos-trouxas antes do Estatuto Internacional de Sigilo da Magia, mas temos uma ideia que não era a melhor coisa do mundo dado o histórico de perseguição bruxa etc. Assim, quando pensei na expansão marítima portuguesa, a primeira pergunta que me fiz é: será que o governo trouxa pensou na possibilidade de comunidades mágicas em outros continentes? Com isso, será que eles teriam feito algum acordo com os bruxos de uma colonização conjunta?

Como a história da magia é muito separada da história que conhecemos, acredito que não. O que parece é que os trouxas foram fazendo as coisas por conta deles e pronto. Ainda mais se pensarmos na questão do rechaço à comunidade bruxa, as chances dos governos terem se unido num momento como esse só existiriam se realmente houvesse um problema em que só o uso da magia resolveria – e mesmo assim, acho que os bruxos só aceitariam se tivesse ~algo em troca~. Mas a falta de interesse dos bruxos pelos trouxas (que transpassa absolutamente toda série Harry Potter) já indica que essas chances são realmente mínimas.

No entanto, o que é muito possível é que bruxos tenham vindo junto com trouxas para a colonização por conta própria. Sabemos que muitos bruxos eram bem relacionados a famílias trouxas importantes e que não é difícil para eles passarem por pessoas não-mágicas. Assim, minha teoria (discutida com a Sofia, amor da minha vida, anjo que veio dos céus pra passar dias discutindo teorias do mundo bruxo comigo) é que alguns bruxos, interessados em expandir seus domínios (mágicos), embarcaram nas grandes navegações à procura de novas terras a se colonizar. Eles se estabeleceram por aqui e, de forma orgânica, começaram novas comunidades bruxas nesses lugares que vieram a ser considerados países mais tarde.

2. Será que os portugueses conseguiram trazer bruxos dos povos africanos?  

Sabemos pelo livro História da Magia, da Batilda Bagshot, que os trouxas não eram muito bons em identificar bruxos. Durante a inquisição, por exemplo, ela conta que pouquíssimos bruxos foram identificados e, os que foram, conseguiam fazer feitiços para escapar do fogo e, ao mesmo tempo, enganar os trouxas (e essa palavra, nesse caso, fica com um duplo sentindo maravilhoso! Obrigada à tradutora de Harry Potter por essa possibilidade). Acontece que, apesar disso, os feitiços são criados a partir de necessidades bruxas. O que isso significa? Oras, que uma coisa é conhecer as armas dos trouxas (como no caso dos bruxos europeus) e poder se preparar para se defender, como aconteceu durante a época de perseguição, agora outra coisa é você não ter conhecimento dessas armas e ter que se defender delas.

Os povos africanos não tinham familiaridade com as armas europeias. Como então os bruxos dessas comunidades conseguiriam defender (a si e a todos)? Não é porque são bruxos que não estão eximidos da morte, prisão, colonização ou mesmo escravatura.  Trouxas ou bruxos, todos os humanos podem ser afetados por doenças desconhecidas, armas de fogo e estratégias não comuns ou mesmo desconhecidas. Assim, a resposta é: sim, portugueses também escravizaram bruxos de povos africanos.

3. Bruxos africanos, a partir do ponto que já conheciam as armas europeias, conseguiram se libertar?

Depois de certo tempo submetidos à escravatura, é claro que os bruxos africanos sacaram a conduta portuguesa e conseguiram voltar seus poderes à proteção pessoal, pelo menos. É possível que possam ter criado feitiços que os ajudassem a sobreviver às condições ao qual eram submetidos e, muito provavelmente, alguns deles conseguiram escapar (assim como estudamos nas aulas de história). A questão é que, apesar dos poderes, um humano (bruxou ou trouxa) sempre terá dificuldade em viver fora de comunidades, então as chances de sobrevivência de bruxos foragidos não deviam ser tão mais altas do que de um escravo não-bruxo.

Apesar disso, o que provavelmente pode ter acontecido também é que alguns desses bruxos podem ter se encontrado e criado suas próprias comunidades, ou melhor, seus próprios quilombos. É possível que houvesse quilombos misturados, com trouxas e bruxos se passando por trouxas, da mesma forma que podem ter havido também quilombos apenas de bruxos. Aliás, imagina o quão sensacional não deve ser um quilombo bruxo? Imagina o quão sensacional uma versão da história em que Zumbi dos Palmares era um bruxo? Alguém, pelamordedeus, cria uma (fan)fic assim, preciso ler essa história.

 

Bom, por enquanto, ficamos com isso. Contem as ideias que tiverem nos comentários, porque temos muito a pensar sobre o assunto!

Vemk brincar de arte pt. 2

Já disse a vocês que vou fazer uma série de posts sobre criatividade e incentivando todo mundo a parar com isso de queria-muito-desenhar-mas-não-sei-fazer-nem-boneco-palito.  O primeiro post foram apenas algumas dicas gerais motivacionais pra te dar forças, mas agora está na hora de começar com dicas práticas.

  1. Use o que você tem em casa

É muito, muito fácil não começar a se aventurar ~nazarte~ porque você tem que comprar um caderno, caneta, tinta, o diabaquatro. Mas agora essa sua desculpa acabou, porque tudo que tem na sua casa pode ser material pra você começar a trabalhar!

01 caneta bic + jornal velho? MATERIAL PRAZARTE.

½ dúzia de lápis de cor velhos + 01 livro que você odeia? MATERIAL PRAZARTE.

01 lápis grafite + 08 guardanapos? MATERIAL PRAZARTE.

Pode rabiscar em livro sim!
Pode rabiscar em livro sim!

Q?????????? POIS É, MINHA GENTE! TUDO ISSO PODE SER MATERIAL PRA VOCÊ COMEÇAR A DESENHAR/ PINTAR! Até porque, a real, é que, no começo, não importa tanto a sua produção, mas sim o hábito de produzir. Então, pega aquela caneta que você deixa na cozinha e o bloco de anotações que você leva e RABISQUE!

Sério, olha as coisas que eu fazia. Só tinha pilot e um caderno bem tosqueira.
Sério, olha as coisas que eu fazia. Só tinha pilot velho e um caderno bem tosqueira.
  1. Comece com material barato e/ ou com pouca qualidade

Ok, digamos que você começou um leve hábito e agora quer mesmo experimentar cores, texturas, espessuras de ponta de caneta ou pincel ou lápis. Ou digamos que você simplesmente ignorou a dica #1. Ou então você estava caminhando pela rua quando se deparou com uma papelaria na sua frente. MARAVILHA!

Acontece que você não sabe usar nenhum material, não quais características de cada material te interessam mais, muito menos o que você quer fazer com isso. Sem pânico! É assim mesmo que a gente começa. Não tem como sermos bons em algo sem antes não tenhamos tido a menor ideia do que estávamos fazendo. Por isso mesmo que, pro comecinho, a dica é usar materiais baratos e/ ou de pouca qualidade. Você não vai gastar muito dinheiro com isso, vai se sentir confortável pra errar (porque não é caro, porque não é algo bom e você não vai pensar que ~não merece~ um material decente) e não vai ficar com aquele demoniozinho atrás da orelha que te faz se sentir culpada por não saber usar o material maneiro que você tem.

Quando temos um material que sabe que é incrível, mas  não sabemos usa-lo, acabamos nos censurando. Ficamos com dó de usar, de gastar, de fazer coisas que achamos feias só porque o material é bom e nós não somos. Mas se a gente não pratica, como é que aprende? Pois é, não aprende. Por isso que é bom usar material que não nos importamos de gastar – material barato e/ ou de pouca qualidade.

Primeiros materiais quando comecei a pintar: giz de cera e aquarela de lembrancinha de festa de criança e um caderno do Che Guevara.
Primeiros materiais quando comecei a pintar: giz de cera e aquarela de lembrancinha de festa de criança e um caderno do Che Guevara.
  1. Pode começar copiando, sim

Ter ideias nem sempre é a coisa mais fácil do mundo, especialmente quando estamos:

  1. Sem entender o que fazer com o que temos em mãos
  1. Em pânico por começar algo novo com o qual não sabemos lidar

Mas, de novo, vem aquela coisa: é preciso começar por algum ponto. Então, se você está sem ideias, se você não sabe o que fazer, se você quer aprender padrões novos, testar diferentes traços etc. etc. etc., COPIE! Busque referências nas internerts, em revistas, livros, fotos, na propaganda que tem no ponto de ônibus perto da sua casa. Copie as cores, os padrões, a distribuição de espaço do desenho. Copie os traços mesmos. Faça 15 narizes, 40 bocas, 900 mãos, 7 árvores, 30 gatinhos, 75 arabescos. Não precisa – e nem deve – ficar igual à imagem que você copiou.  Não tem que chorar porque você não sabe desenhar pés (e quem sabe? Ninguém), porque seu desenho não ficou igual à imagem original, porque tudo parece torto e feio e socorro!!! Miga, é durante a cópia que você aprende o que funciona e o que não funciona pra você. A cópia tá aí pra você treinar, pra você aprender, pra você criar suas próprias referências. Ela é um ponto de partida, nunca o objetivo final.

Teste de padrão antes de eu começar a fazer padronagem de fato. Copiei de desenhos do tumblr.
Teste de padrão antes de eu começar a fazer padronagem de fato. Copiei de desenhos do tumblr.

 

E, aqui, pra vocês ficarem de boas, ficam aqui alguns dos meus primeiros desenhos. YAY!

Minha primeira aquarela :OO
Minha primeira aquarela em bloquinho de aquarela :OO
Lápis de cor e caneta bic OUIÉS
Lápis de cor e caneta bic OUIÉS
Feito com aquela aquarela de lembrancinha que mostrei antes.
Feito com aquela aquarela de lembrancinha que mostrei antes.