Vemk brincar de arte

Desde pequena eu tenho esse rótulo de criativa, o que é bem engraçado. No ensino fundamental, eu sempre tirava 10 nas aulas de artes e minhas amigas ficavam “aff, como você consegue?” e a verdade é que eu nunca soube. Até hoje lembro de uma colagem com bolinhas que tivemos que fazer – a professora amou muito a minha especialmente, mas a verdade é que eu só colei bolinhas aleatoriamente pelo espaço. Arte, pra mim, sempre foi um pouco isso: fazer coisas aleatoriamente pelo espaço e as pessoas me dizerem que ficou lindo.

Por um tempo, abandonei azarte plásticas e comecei a escrever. Meus amigos, novamente, não entendiam como eu conseguia. Eu escrevia todo o santo dia e todo mundo achava incrível e maravilhoso, mas a real é que eu só estava escrevendo o que estava me acontecendo com outros nomes. Pelo menos, foi assim que começou. Uma amiga minha disse que a história da minha relação com o bói seria uma ótima fanfic, bastava trocar o nome das personagens, e eu curti a ideia e comecei a escrever. No meio do caminho que peguei o jeito, que comecei a fugir da história real, que decidi começar a elaborar mais a ideia de narrativa e tudo mais. Só depois que eu estava há anos escrevendo sem preocupação que me veio a ideia de levar isso mais a sério. Aí, foi testar formas, gêneros, ideias aos poucos e sem muita noção do que eu estava fazendo.

Com a faculdade, voltei a desenhar. De repente, escrever virou um ato tão sério que a única forma de me divertir de uma forma que eu me sentia producente foi voltar às artes plásticas. E, com isso, fui para aquarela, guache, hoje tenho me divertido com colagens. Mas eu nunca estudei nada disso. Aliás, estudar Letras me bloqueou a escrever mais, mas falo disso com calma outro dia. A questão aqui é: você não precisa saber técnicas para fazer arte. Pelo menos, não no começo, não quando você começa.

Como eu virei essa pessoa aparentemente muito criativa, muita gente vem me perguntar como eu tenho tanta ideia, como elas podem começar a fazer suas próprias artes, como fazer coisas bonitas. Por causa disso, decidi fazer uma série de dicas para quem quer começar a desenhar. Nada do que vou dizer está nos livros, nada do que eu vou dizer é pra você virar o próximo Juan Miró, mas se tudo der certo, você vai gostar de desenhar e fazer coisas das quais tem orgulho. E é isso o principal: você se sentir satisfeita com o que faz. Então, vamos aos primeiros passos!

  1. Arte é brincadeira, não é pra ser coisa séria

Quem leva arte a sério são os críticos e, cá entre nós, ninguém gosta deles. Então esquece essa coisa de ser sério, de criar conceito, de tratar da beleza, da diferença, do ser. Só pega o papel e faz teus rabiscos. Joga as cores que você acha daora, cola uns negócios em cima, faz umas formas legais, cria uns padrões se quiser, deixa espaço em branco. Faz o que te diverte, o que te alivia, o que te faz se sentir bem. Assim como a gente sai da brincadeira quando não gosta, também dá pra parar de fazer arte quando aquilo te estressa, te consome, te deixa mal.

Vai por mim: só rabisca aí.

  1. Assim como a arte, você também não é pra ser sério; abraça a zoeira que tá dentro de você ❤

A gente cai muito nessa armadilha de que temos que ser pessoas sérias e profissionais o tempo todo ou então somos desequilibrados. Galera, vamos parar com essa história. Somos humanos, orgânicos, temos nossos momentos. Se já temos que ser sérios no trabalho, na escola, na faculdade, por que raios vocês querem ser sérios também quando estão fazendo arte?!?!?! Lembra do ponto 1? Arte é brincadeira.

Então relaxa aí, respira fundo e, novamente, faz uns rabiscos. Dá suas risadas, tira os sentimentos que estão no seu peito, preenche seu tempo fazendo risquinhos, zoa aquela galera que tirou uma com a sua cara na segunda-feira. Faz o que te parece natural. Depois, quando você acabar, pode inclusive brincar de zoar os críticos e conceituar aquilo que você fez só na brincadeira. (Eu tenho certeza absoluta que todo bom artista moderno e contemporâneo fez/ faz.)

  1. Criatividade é uma mentira

Whaaaaat?! Tá de zua, Clara!! NÃO, NÃO ESTOU! Criatividade é uma mentira. Essa ideia de que há pessoas criativas e pessoas não criativas é completamente sem sentido, porque todos nós no mundo criamos coisas. Eu crio, você cria, tua mãe cria, teu cachorro, teu gato e teu papagaio também criam. Criar é fazer algo do zero e, migue, isso todo mundo faz. Criar é também ter ideias e se apropriar delas. E isso não é tão difícil de fazer, desde que você pare de martelar sobre seus medos e anseios e apenas faça. E isso nos leva a…

  1. Ninguém sabe o que está fazendo

Confia em mim nessa. Ninguém tem a menor ideia do que tá fazendo – pelo menos, não no começo. A real é que todas as pessoas só estão por aqui consumindo coisas dessa bola flutuante no meio do vácuo. Tipo, literalmente, é isso o que estamos fazendo. Você acha mesmo que alguém que está consumindo coisas de uma pedra gigante que flutua no meio do vácuo tem alguma ideia do que está acontecendo? Pois é, não. Então, só relaxa. Pega seu papel em branco e começa a fazer o que parece natural pra você. É fazer milhões de riscos pretos? É jogar tinta no papel todo? É fazer pintura com o dedo? É fazer vários furos com o lápis? É amassar vários papeis e fazer uma torre? Não importa, desde que você faça! O negócio é encarar o medo do papel em branco e começar a preenche-lo – o que vai acontecer depois são outros quinhentos.

  1. Autoconfiança é uma construção social

Parece filosófico, mas é só um fato. Ninguém na vida é realmente autoconfiante, todos temos pontos de insegurança. A questão é: você vai deixar esses pensamentos remoendo na sua cabeça e lentamente te consumirem até você acreditar que você é a pior pessoa do mundo OU você vai ignorar esses demoniozinhos e tirar uma selfie com o seu trabalho artístico pra gente poder ver no instagrão, no saite feicis, no snépichéti e o diabaquatro? POIS É, A SEGUNDA OPÇÃO!

E não esqueçam: arte é só uma brincadeira, uma forma de praticar novas expressões e estéticas. Se disso acabar saindo uma grande obra, uma nova forma de ver o mundo, maravilha! Mas antes de revolucionarmos a história, precisamos começar de algum ponto. Ou você acha mesmo que Picasso chegou lá um dia, pegou um pincel pela primeira vez e fez a Guernica?

Às vezes, a gente acaba esquecendo de tudo que os grandes artistas tiveram que passar para serem quem são hoje. Mas uma coisa meu pai me ensinou bem, e passo essa sabedoria pra vocês hoje: todo mundo tem mais trabalho ruim do que bom, as pessoas só não mostram! Então, vá em frente! Te juro: não é tão difícil assim uma vez que você começa.

8 comentários em “Vemk brincar de arte

  1. Isadora -

    fiz aula de desenho esse ano todo pra “me soltar” (e não consegui) e só precisava ter lido seus dois textos sobre artchi.

    tô chocada.

    quero desenhar.

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    1. clarabrowne

      DESENHA!!!!!!

      Eu morro de medo de fazer aula de desenho e isso me prender mais, pra ser sincera. Foi o que aconteceu com Letras – depois que comecei a estudar literatura, a coisa ficou séria e escrever ficou muito difícil. Se a gente não encara a arte com seriedade, conseguimos fazer coisas muito mais interessantes.

      SE JOGA, MIGA ❤

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  2. Pingback: Vemk brincar de arte pt. 2 | Clara Browne

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