Guia prático de como se divertir em museus

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Eu não sei vocês, mas quando eu era pequena, a escola hora e outra nos levava a museus da cidade e era um saco. Nós tínhamos que sempre seguir a professora e o guia chato do museu. Tínhamos que sentar em frente a quadros sem graça e ficar um tempão ouvindo o guia falar sem parar sobre aquela telinha que a gente nem gostava. Se conversássemos, levávamos bronca. Se olhássemos para os outros quadros, levávamos bronca também. Tínhamos que prestar atenção naquela única tela, enquanto tinham salas e mais salas com outras coisas que pareciam muito mais legais aos nossos olhos. Mas nós não podíamos parar e ver os outros quadros, as outras obras, porque estávamos nos dispersando do grupo, atrasando o grupo, porque tínhamos que seguir o cronograma de quadros que já tínhamos visto nos livros de história e já estávamos cansados de ouvir sobre eles.

Por algum tempo, museu sempre foi chato pra mim por causa disso. Eu não queria saber de toda a história por trás daqueles quadros – porque isso sempre me remetia aos guias e seus monólogos infinitos. Mas, por sorte, meus pais sempre insistiram nos museus e me ensinaram a ver as coisas de outra maneira.

Eu aprendi a gostar de arte mesmo com os quadros do Veemer, por causa de um livro de mistério que li. Eu me encantei pela quantidade de detalhes e a perfeição de tudo aquilo. Podia ficar horas caçando as coisinhas pequenas que estavam naquelas pinturas. Mas foi com onze anos, quando vi um Klein em pessoa pela primeira vez, que as coisas mudaram.

Primeiro, eu fiquei indignada que um quadro todo azul estava no museu. Depois, eu fiquei com raiva. Então, eu disse que se era assim, eu também podia fazer aquilo. Aí, eu refutei tudo que meus pais disseram sobre como era difícil chegar naquele tom de azul e como era revolucionário um quadro assim. Meses e meses e meses depois, eu ainda pensava sobre aquele quadro – e foi aí que percebi o quão incrível ele era.

Depois disso, museus ficaram mais divertidos. Eu e meus pais entravam em discussões longas sobre os quadros e começamos a fazer uma série de brincadeiras que agora passo a vocês.

Brincadeira nº1: ler o nome dos quadros e entender por que raios aquela bolinha azul se chama Tarde de Verão no Rio Senna

Porque, sério, vocês já viram nome de quadro? Ou eles são extremamente sem criatividade (o que é divertido pensar – porque, afinal, como alguém que conseguiu pintar milhões de telas incríveis não consegue ser criativo o suficiente pra dar um nome legal ao quadro?) ou eles não fazem sentido algum e é excelente! Discussões incríveis saem daí.

 

Brincadeira nº2: apostar quantos quadros clichês na história da arte terão na próxima sala

Natureza morta: 8. Mulheres peladas: 4. Vistas de nascer ou pôr do sol: 11.

Quando viajei com meus pais para a Itália, essa se tornou uma das nossas brincadeiras preferidas: Anunciação: 19; Crucificação de Cristo: 32; Última ceia: 8. Eram tantos quadros da mesma época que as apostas começaram a ficar acirradas e tivemos que começar a anotar tudo, porque se não podia rolar briga.

 

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Brincadeira nº3: selfie no museu!

QUEM TIRAR AS MELHORES SELFIES GANHA! QUEM TIRAR MAIS SELFIES COM QUALIDADE GANHA MAIS AINDA! VALENDO!

Também vale ver quem encontra o bebê Jesus mais feio!

 

Brincadeira nº4 e a melhor de todas: don’t dream it – be it

Essa brincadeira consiste em imitar os quadros e estátuas e tirar fotos disso. Mais do que selfies em museus, estamos falando de uma verdadeira revolução de como lidar com os objetos de arte. Pois não apenas você vê a beleza na própria obra, mas passa também a pensar nela como um suporte para sua própria performance.

 

As duas primeiras brincadeiras são mais simples, pois ninguém além de você e seu grupo sabe da brincadeira. Parece apenas que vocês são muito intelectuais anotando coisas, vendo as informações sobre o quadro e discutindo as obras de arte. A terceira, porém, exige uma exposição que pode parecer vergonhosa no início, mas em verdade é maravilhosa.

Particularmente, tive muita dificuldade com a última brincadeira por muito tempo, mas depois de viajar com sozinha, essa brincadeira se tornou a minha preferida – e a faço toda vez que vou a alguma exposição (ou mesmo quando vejo estátuas na rua). Normalmente, as pessoas vão olhar pra você imitando quadros e estátuas – e, se por um lado é meio esquisito gente olhando pra você, por outro lado é maravilhoso porque, quando você vai embora, sempre tem aquele grupo de turistas japoneses que acham o máximo e resolvem fazer o mesmo que você baseado em fatos reais, e aí eu pergunto: existe coisa melhor do que trazer alegria pros outros? Não, amigues, não existe.

E é por isso mesmo que deixo aqui pra vocês alguns resultados da melhor brincadeira de todos os tempos!

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Nosso totem tabu

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Hoje é dia das mulheres, 8 de março e aquela história toda. E, bom, eu sou feminista, edito uma revista feminista, vivo falando de feminismo por aí. Ficaria esquisito deixar passar esse dia em branco. Então, cá estou escrevendo algo especial sobre mulheres nesse dia de hoje.

Antes de começar esse texto, no entanto, me veio a grande questão: o que dizer a vocês se já estamos num ponto que tem textão na internet sobre tudo? Vocês já devem ter lido milhões de textos sobre a importância da legalização do aborto, a necessidade de ler mulheres, a falta de mulheres em todos os ambientes de trabalho, a objetificação da mulher e a comercialização de um dia que deveria ser símbolo da nossa luta. Pelo menos, acredito que, se você chegou até mim, você deve ter contato com esse tipo de discussão nas suas comunidades sociais e internáuticas. E, sabe, eu não queria ser mais uma falando sobre o assunto – até porque muitas outras mulheres podem falar bem melhor sobre essas coisas do que eu. Também não queria vir aqui contar a minha história sobre crescer como mulher e ser mulher, porque não sinto que vou acrescentar nada em especial contando da minha vida assim, da mesma forma que acho muito mais interessante que nos conheçamos aos poucos e eu guarde minhas histórias para outros momentos (e aproveito para contar a vocês que comecei uma newsletter porque eu não tenho limites e queria me aproximar mais de vocês <3).

Por causa disso, resolvi falar sobre um dos temas mais batidos de todos: a Capitu.

– E aí, galera? Traiu ou não traiu Bentinho? rsrsrs

Brinks. Todo mundo sabe que não importa se ela traiu ou não – apesar de que, nos nossos corações, todo mundo torça para que ela tenha sim traído, porque eita cara chato. Essa piada chega até a ser chata, mas eu sou uma tradicionalista no quesito piadas e todo ano na ceia de natal eu pergunto se é pavê ou pacumê, e olha que nunca teve pavê na minha casa. Por isso tive que perguntar -e por isso também peço desculpas, mas a zoeira, por pior que seja, ainda é maior que o controle da minha escrita. Espero que isso não mude.

Mas voltemos à Capitu.

Olhos de cigana oblíqua e dissimulada, olhar de ressaca, Capitu que vem de capitã. Todos nós já ouvimos esse papo da análise da personagem em algum momento na vida. Como a visão do leitor sobre a Capitu é manipulada pelo Bentinho, como ela é esperta e sabe manipular o cara, como ela usa sua feminilidade pra conseguir o que quer, como ela é dona de si, uma verdadeira capitã da própria vida, blablabla.

Gente, a menina tinha 15 anos em quase metade do livro. Mesmo que ela fosse super esperta, ela continua sendo uma garota de 15 anos que estava flertando com o bói vizinho. Aconteceu uma situação parecida com todas nós. Aconteceu até com a Taylor Swift, sabe? Quem nunca fantasiou uma história dessas quando tinha 15 anos, néam? A ficção – seja ela contada nos livros e filmes, seja ela contada por nossos parentes que dão aquele sorrisinho quando nos vêem brincando com um menino qualquer e depois vêm nos perguntar com olhos curiosos quem era – nos ensina a fantasiar esse tipo de coisa o tempo todo. A Capitu é que nem nós nessa, com a única diferença que ela conseguiu mesmo pegar o bói (porque, sejamos honestas, nunca ouvi uma história real em que vizinhos se apaixonaram. Na maioria dos casos, inclusive, o cara era gay).

Então, Capitu era uma menina de 15 anos, mas os críticos literários afirmam porque afirmam que ela era dona do próprio nariz e que podemos perceber isso a partir do que conta o Bentinho, a partir de como ela se portava diante dele. Os críticos dizem: é preciso entender a manipulação do narrador, é preciso ler nas entrelinhas para entender quem é Capitu seria ela uma espécie de Lolita brasileira?. Eles estão certos quanto a isso. Mas eles continuam caindo no conto do Bentinho, eles continuam sendo homens e não entendendo nada do universo da mulher.

Os críticos se focam tempo demais na descrição do olhar da personagem, mas se esquecem da coisa mais simples, mais óbvia, mais factual: seu nome.

Capitu vem de capitã, dizem. Mas isso é mentira, lorota boa. E posso comprovar pra você apenas abrindo o livro, porque lá está escrito de forma clara e explícita que Capitu vem de Maria Capitolina. Não tem nada que ver com capitã, por mais que soe bem aos ouvidos dos críticos.

Capitu vem de Maria Capitolina, diz Bentinho, Machado de Assis e eu, que não tenho nada a ver com a história, mas cá estou dizendo:

– Maria Capitolina.

Maria, uma mulher virgem, prometida para casar, a qual ficou grávida de Deus e quase foi condenada à morte se José não tivesse a ~bondade~ de não entregá-la às autoridades e que quase se tornou mãe solteira no meio de uma região desértica se não fosse a ~honestidade~ de Deus de ter contado pra José o que fizera. Maria, uma mulher que, depois de ter o filho de Deus, nunca mais teve contato com ele, pois agora ~Ele~ se comunicava apenas com seu marido e seu filho. Maria, uma mulher que viveu na pobreza a vida toda, que viu seu filho ser assassinado pelo governo enquanto ainda era jovem, que perdeu seu filho único numa guerra de ideias e ideais. Maria, uma mulher que deu a luz ao símbolo de um dos maiores impérios, o império religioso.

Esse é o primeiro nome de Capitu, e todo mundo sabe que o nome não está aí à toa, que a história que ele carrega é também a história da personagem. Parte de Capitu carrega consigo a marca da virgem, da mãe do espírito santo, de uma gravidez não desejada nem planejada mas que aceitou porque era o jeito.

Mas aí é que entra o segundo nome da personagem mais famosa da literatura brasileira: Capitolina.

Capitolina é a loba que deu de mamar para Remo e Rômulo, na mitologia da construção de Roma. Capitolina, uma mãe que adotou filhos que não eram dela. Capitolina, uma loba. Capitolina, aquela que amamentou os irmãos que construiriam uma das cidades mais importante da história. Capitolina, aquela que alimentou um dos maiores impérios já existentes.

Capitu é construída por duas imagens de mulheres extremamente fortes. Duas mães isso ajuda a responder se ela traiu ou não Bentinho? Quem sabe? Quem liga?, duas mulheres que tomaram decisões difíceis, mas se mantiveram firmes. Duas mulheres que amamentaram impérios.

Aí é que vemos o erro dos críticos. Capitu não é capitã, ela não tem sua vida nas mãos, essa interpretação é tão pobre, tão parca, que chega a ser risível ver que Os Grandes Pensadores Da Literatura Brasileira™ nunca conseguiram ir além. Toda interpretação que já vi sobre Capitu acaba aí – no meu segundo e terceiro ano de colégio, durante toda a faculdade de Letras, mesmo na música do Tatit ou nos textos do Bosi, Candido, Villaça ou qualquer outro dos grandes nomes da nossa literatura.

Todos esses homens ignoraram o primordial, todos esses homens fizeram como todos os outros homens e ignoraram o começo de tudo: o nome da mulher e, logo, sua identidade.

Eu acreditei neles por muito tempo. Até chegar o dia em que eu, Sofia e Lorena percebemos que precisávamos dar um nome à revista que queríamos lançar. Ou melhor, até um pouco depois desse dia. Pois acontece que eu lembrei que Capitu era apelido e que ela tinha um outro nome. Então, fui ver no livro e lá estava: Maria Capitolina. Era muito grande pra uma revista, então ficamos com o segundo nome. Era forte, era bonito, era enigmático, era a referência à mais importante personagem da nossa literatura. Capitolina juntava tudo o que queríamos: uma garota brasileira adolescente que sofreu muito por causa do patriarcado – era exatamente esse o público que queríamos atingir. Foi o encaixe perfeito – e as garotas da revista concordaram.

A Mazô disse que pesquisou no google e que o resultado era maravilhoso. Na época, ninguém deu muita boa pra isso. Mas um ou dois meses depois, tendo que explicar toda vez o nome da revista, lembrei do post da Mazô e pesquisei o nome. Foi quando descobri quem era Capitolina e, junto a isso, descobri duas coisas: o que estávamos fazendo com a nossa revista e quem era Capitu.

Eu gosto particularmente quando o Tatit fala na sua música:

Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu

Eu gosto particularmente da ideia de totem tabu, porque é exatamente isso que é a Capitu na sociedade patriarcal. Ela é o sonho e o pesadelo não apenas do Bentinho, mas de todo cara que leu Dom Casmurro. E eles nos fazem querermos ser como a Capitu, mesmo quando não temos e nem queremos ter olhos de cigana oblíqua e dissimulada, mesmo quando somos as pessoas mais transparentes e honestas que alguém podia encontrar, mesmo quando o final da personagem é horrível. Nós não somos a Capitu – e por isso mesmo gosto tanto também do verso seguinte, “a mulher em milhares”.

Capitu também não era a Capitu™. Ela era uma outra pessoa que a gente nunca vai saber porque o Machadão quis assim. A Capitu era uma garota como todas nós somos garotas, como todas nós fomos garotas. E nós também fomos e somos colocadas como totem e como tabu. Nós também fomos e somos o sonho e o pesadelo de muito cara por aí. E isso não é porque somos capitãs da nossa própria vida, mas sim porque somos mães de um império que o alimentamos e construímos todos os dias. Porque nós somos as responsáveis pelo mundo onde as mulheres são livres e o patriarcado é uma lenda antiga.

Toda mulher quando deixa de se encaixar num dos estereótipos que os homens criaram é ameaçadora. Toda mulher não se encaixa nesse estereótipo. Isso é um tabu no mundo patriarcal.

Toda mulher quando assume que não se encaixa no lugar que lhe foi concedido, quando nega esse lugar e decide mudar a sociedade que a fez estar ali constrói parte do nosso império. Não falo aqui do matriarcado e não me venham com papo de feminismo como opressão dos homens, falo de um império em que todas as pessoas independentemente de seus gêneros (e de suas raças, sexualidades, nacionalidades, classes sociais etc.) são livres. E cada mulher que alimenta parte desse império é um totem na nossa história.

Nesse 8 de março, espero que nós mulheres sejamos totem-tabu. Um totem-tabu à nossa maneira, de acordo com as nossas regras. E, assim, construamos mais um pedacinho desse império que começou com Maria, com Capitolina e vai continuar conosco.

Hogwarts vai virar Brazuca 2, ou Clara Browne e a Rede Social Secreta

Imagem feita com a montagem de Hogwarts vai virar Cuba.

No começo de outubro, escrevi um ~pôust~ pensando sobre o mundo de Harry Potter e a comunidade bruxa brasileira.

Tudo começou com uma simples pergunta: como seria a Hogwarts brasileira? Mas aí virou uma grande discussão sobre a história da comunidade bruxa daqui e como isso se refletiria na(s) escola(s) de magia daqui. Acontece que, nesse meio tempo, a JK decidiu, do além, contar sobre a escola de bruxaria brasileira, a pouquíssimo criativa Castelobruxo – o que me deixou extremamente irritada, dado que, como sempre, ela errou tudo. COMO ASSIM ELA ERROU, CLARA?, você me pergunta. E eu te respondo: porque ela ignorou completamente toda a história de formação do Brasil (e de toda a América Latina, na real) e só fez um lance muito preguiçoso dizendo que nossa escola seria na Amazônia porque “ah, tem várias plantas, uns indígenas e o império inca chegou ali pertinho” e dizendo que seríamos bons em herbologia porque “ah, Amazônia tem várias plantas, néam rsrsrs”. Mas, enfim, eu não estou aqui pra dizer que a JK está errada. Estou aqui para discutir com vocês como o nosso processo de colonização teria interferido na comunidade bruxa. E, claro, com isso, mostrar como a JK está errada, mas isso só veremos no capítulo final: Clara Browne e a JK da Morte.

Pra relembrar vocês que ficaram com preguiça de clicar no link do outro post, comecei me fazendo – e tentando responder – algumas perguntas sobre como teria sido o processo de colonização bruxa aqui no Brasil, e algumas implicações que isso levaria. Também comentei que, como eram muitas perguntas (e com respostas enormes), decidi fazer uma série de posts e, já que estamos aqui, aproveito pra avisar que serão 7 posts no total (até porque, depois disso, não dá pra fazer muito mais piadinha mentira, tem Fantastic Beasts and Where to Find Them e também o The Cursed Child, mas deixemos pra depois).

Enfim, voltando ao Brasil, eu perguntei numa rede social secreta o que as migas achavam que aconteceria na comunidade bruxa brasileira pós processo de colonização. Depois de muita conversa e muito caps, anotei tudo num diário que vou fazer de horcrux se não conseguir atingir a imortalidade sendo uma escritora famosa e divido aqui com vocês nossas conclusões.

 

1. Como ficou a comunidade bruxa por aqui? Como ela se integrou?

Ok. Então bruxos europeus vieram para cá com a cabeça de colonizadores, bruxos de povos africanos foram trazidos como escravos e por aqui já existiam bruxos indígenas em suas comunidades. Como isso afeta o mundo bruxo?

Definitivamente, teríamos um sincretismo muito complexo. Cada região tem influências diferentes: além dos diversos povos africanos trazidos para diferentes lugares do Brasil e das inúmeras comunidades indígenas que se encontravam por aqui, temos também as diferentes colonizações – portugueses por todo o canto, holandeses no Nordeste, alemães no Sul, franceses no Sudeste… Isso sem contar os povos que vieram pra cá pós colonização – como japoneses e árabes.

Pelos pontos anteriores, já conseguimos perceber que, apesar da separação entre comunidade bruxa e trouxa, o modo de raciocínio político de ambas é no mínimo muito parecido (pra não dizer igual), por vir de uma questão cultural. Pensando assim, o que parece ser mais verossímil é que, de forma geral, a comunidade bruxa brasileira tenha se estabelecido como a nossa: nos moldes dos colonizadores, ou seja, da comunidade bruxa europeia. Da mesma forma que os portugueses trouxas decidiram catequizar os índios, os portugueses bruxos facilmente podem ter traduzido essa ideia para suas realidades, de forma a ensinar seus métodos mágicos aos bruxos daqui, como se a mágica europeia fosse a ~verdadeira mágica~.

É claro que é possível que a catequização bruxa tenha demorado mais para vir. Afinal, sabemos que a comunidade bruxa não é lá muito grande – então, quais as chances dos bruxos terem se encontrado assim logo de cara, não é mesmo? Mas apesar dessa demora um pouco maior, não há como negar que esse encontro se daria com europeus se achando o máximo e os índios se perguntando “omi, q q tá c/ t seno?”. É claro que, sendo os colonizadores que eram, os bruxos europeus se veriam como superiores, como mais civilizados, teriam todo aquele papo que já ouvimos milhões de vezes e reviramos os olhos cansados de tanta bobagem, prepotência e opressão juntas. Ao mesmo tempo, é também possível que os bruxos europeus buscassem ajuda dos bruxos indígenas para entenderem melhor o uso das plantas nativas para suas poções ou mesmo de pedras brasileiras para seus rituais. Os bruxos nativos, apesar de serem vistos também como selvagens, teriam seu valor por conhecer o solo daquela terra tão nova aos europeus. Os bruxos nativos seriam vistos com olhar antropológico, curioso, mas nunca estando no mesmo patamar de um bruxo do norte da linha do Equador.

Em compensação, em relação aos bruxos africanos, os quais tampouco conheciam as terras daqui, os europeus apenas os ignorariam, colocando-os sempre como escravos e sem reconhecer seus poderes. Possivelmente, os próprios bruxos escravizados preferiam manter suas habilidades em segredo, de forma a conseguirem se defender, sobreviver e ajudar sua comunidade assim.

 

2. Quais práticas e concepções a comunidade mágica acabou adotando no Brasil?

É claro que com tantas misturas, haveria um sincretismo mágico. É claro que haveria uma hegemonia europeia, mas não dá pra refutar a ideia de mudanças na comunidade mágica porque isso seria negar a fluidez da história e das relações humanas. O que, então, mudaria da Europa para o Brasil? Fiz aqui uma pequena lista de coisas que poderiam ter mudado.

  • Concepção de magia – apesar de isso não ser tratado pela JK em Harry Potter, a gente sabe por estudo de história mesmo que, de forma geral, enquanto na cultura europeia, magia parece ser algo meio misterioso e sobrenatural, em muitas das culturas indígenas e africanas, a magia é apenas uma forma de lidar com a natureza e com as energias do mundo. Apesar de nem todos terem esse ~dom~, a magia é vista como mundana. Sabendo disso, acredito que, no Brasil, chegamos a um meio termo, de forma que a magia é vista como energia (da mesma forma que os orixás ou os deuses indígenas, como o do povo tupi, são representações de diferentes energias da natureza), mas certas práticas são mais ~misteriosas~ (como acredito que seria o caso da adivinhação, que é uma magia mais praticada na Europa e, assim, continuaria com essa estigma de algo sobrenatural);
  • Uso de vassouras de forma não tão difundida – sejamos honestos: vassoura voadora é muito europeu. A vassoura só chegou aqui no BR com os gringos e elas eram usadas por escravos para limpar a casa. Bruxos indígenas não as conheciam, bruxos africanos as viam como parte de sua opressão, bruxos europeus as tinham como algo rebaixado, pobre. É muito mais provável que, durante o período de colonização, o transporte mais comum fosse mesmo aparatação e flu.
    É claro que, com a globalização, as vassouras chegaram ao Brasil, mas acho que o principal meio de transporte continuaria sendo o flu (dado que a aparatação só pode ser usada a partir dos 18 anos – regra a qual acredito que funcionaria aqui também, transferindo a ideia de carteira de motorista para uma carteira de aparatação). Acontece que, sem lareiras, teríamos que usar outra plataforma. Uma miga, na rede social secreta, deu a genial ideia de usarmos churrasqueiras em vez de lareiras. Já imaginei aqui uma festa de fim de ano dos coleguinhas de Hogwarts chamada flu na laje, com altas cervejas amanteigadas, whisky de fogo e umas boas caiporinhas (o equivalente mágico de caipirinhas, batizado com o nome de nossa querida Caipora) feitas com Velho Feiticeiro (da mesma origem do Velho Barreiro, só que mágica!). Mas convenhamos que nem todo mundo tem uma churrasqueira ou laje pra receber – assim, pensei que, talvez, o armário ou closet seria uma boa plataforma para o pó de flu; inclusive até vejo o ministério da magia brasileiro tendo que resolver problemas de encruzilhadas entre bruxos e bichos papões (?) ou sacis bagunçando as redes de flu!
    Outra ideia dada na rede social secreta foi de, em vez de usarmos pó e lareiras, usarmos água e chuveiros. A forma de transporte seria a mesma, mas com essa pequenina mudança. Fez bastante sentido pra mim! Mas acho que os meios de transporte brasileiros ainda estão abertos a mais ideias vemk contar a sua!;
  • Prática de magia sem varinha, com varinha e outros objetos – pelas culturas africanas e indígenas, se vê pouco o uso de objetos equivalentes a varinhas ao se tratar do controle de energias, então as chances de se ter uma prática mista faz sentido: há feitiços para se fazer com varinhas e outros para se fazer sem. Da mesma forma, também existem nessas culturas outros objetos que não funcionam como uma varinha, mas que são utilizados para práticas que, no mundo criado pela JK, poderiam ser lidas como magia. Assim, existiriam magias diferentes e específicas que seriam atribuídas a diferentes práticas. Por exemplo, nossas poções não precisariam de varinhas, como acontece na Inglaterra, e alguns de nossos feitiços também não demandariam varinhas. Imagino que estes seriam coisas mais relacionadas com a energia da natureza e não, tipo, expeliarmus da vida, porque aí o uso das próprias mãos, da voz e do corpo realmente importam muito mais, pois a pessoa está se conectando com o mundo sem intermediários (a varinha), o que aumenta o poder de sua magia.
    Também haveria o uso de pedras, cristais e outros objetos de origem natural para certas práticas mágicas. Esses objetos e rituais seriam tão internalizados em nossa cultura que sua história – de onde veio, como começou, quais povos usavam e para quais motivos – se perdeu ao longo do tempo, da mesma forma que certas práticas pagãs foram incluídas ao catolicismo no mundo trouxa. Apesar das origens terem se perdido ao longo do tempo, é claro que são práticas vindas dos povos oprimidos pelos europeus;
  • O uso da voz e da dança como prática mágica – são inúmeras as culturas africanas e indígenas que têm o canto como parte importante de diferentes rituais e, pensando no mundo bruxo, algumas dessas danças e desses cantos poderiam ser mágicos, sim. Movimentos específicos, em diferentes ordens, podem gerar mágicas específicas. Tons e melodias também. Mas será que essas práticas teriam sobrevivido à colonização? Provavelmente sim, mas definitivamente seriam práticas marginalizadas, mantidas apenas por famílias com ancestrais indígenas e/ ou africanos que decidiram manter tais tradições.
    Por serem atividades vindas de povos oprimidos, haveria muito preconceito em torno de quem as praticasse. É claro que, nas escolas, se diria da importância de tais práticas, de como não deve se ter preconceito contra elas, mas nunca as ensinando factualmente. As danças e os cantos continuariam sendo fechadas em pequenas comunidades de tradição indígena ou africana – e, claro, por aqueles bruxos de humanas (magias?) que fumariam o equivalente mágico da maconha com saião, fitas na cabeça e dançariam ao pôr-do-sol em algum gramado;
  • Uso de corujas – é claro que temos corujas no Brasil, mas convenhamos que elas não são as aves mais vistas por aqui. A gente mal vê coruja – só vemos as placas dizendo que elas podem estar por aí – e também mal fala de coruja. Acho que, na minha vida, já ouvi falar mais de calopsita do que de coruja, mas vai ver que é porque sou trouxa mesmo. De qualquer forma, não tenho muita certeza do quanto corujas seriam usadas como meio de comunicação e, portanto, me perguntei sobre outras possibilidades. Pensando no Rio de Janeiro, já imaginei vários miquinhos correndo com cartinhas pros bruxos escondidos pela cidade, mas tenho noção de que isso é um tanto quanto não prático (apesar de acreditar piamente que bruxos mais excêntricos alou família Bomamô, aka Lovegood brasileiros! com certeza teriam micos de mensageiros). Conversando com as migas, pensamos na possibilidade de serem usadas pombas, mas parece algo pouco estético para os bruxos, os quais bem sabemos que prezam por uma estética bem clara pelos livros de HP.
    Outras ideias que tivemos foram: calopsitas, andorinhas as andorinhas da minha casa são tão enormes e bizarras que elas comem a ração do meu cachorro, com certeza são seres mágicos, não é possível, bem-te-vis e outros pássaros assim. Minha dúvida fica por causa do tamanho, mas a verdade é que não é difícil solucionar esse problema com um pouquinho de mágica, não é mesmo? Encolher uma carta deve ser moleza pra quem faz coisas levitarem com 11 anos.

Essas foram apenas algumas das coisas mais óbvias que me vieram à cabeça. É difícil pensar como essas questões mais funcionais se aplicariam à realidade do Brasil, porque a verdade é que existem muitas possibilidades. Ao mesmo tempo, também tem a questão do quanto que os colonizadores teriam aceitado como mudanças e o quanto não teria sido apenas ignorado e considerado como ~errado~ ou ~inválido~, puramente de não ser originário da cultura europeia. E isso nos leva a…

 

3. Como fica o racismo na comunidade bruxa brasileira?

A mistura trouxa europeus-africanos-indígenas já ficou um lance complexo e cheio de níveis de racismo, AGORA IMAGINA NA COPA? Não, pera…

Existe um problema sério de racismo na comunidade bruxa. Ele não se dá em relação à raça da pessoa aparentemente apesar de que quantas pessoas não-brancas temos em Harry Potter? Quantas dessas pessoas têm a possibilidade de tratar sobre racismo no livro? Pois é, né, JK, troxona como sempre, mas sim em relação ao sangue delas. Bruxos descendente de bruxos são os brancos da comunidade mágica. Eles têm todos os direitos concebidos feat. privilégios bacanas feat. oprimem outros bruxos por aí. Depois, temos bruxos vindos da junção de uma pessoa trouxa com uma pessoa bruxa, que já não são vistos com bons olhos, mas são razoavelmente passáveis. Normalmente, essas pessoas têm o membro não-bruxo da família ofendido, mas elas em si não levam ofensas diretas necessariamente. Então, temos os descendentes de trouxas, os quais sofrem um racismo terrível, inclusive a ponto de ter uma corrente de estudo que afirma que tais bruxos teriam “roubado” os poderes de bruxos de linhagem bruxa. São eles que sofrem racismo abertamente, por mais que parte da comunidade bruxa critique a prática racista.

Mas e no caso do Brasil, em que não se tem apenas a questão da ascendência bruxa ou não, mas também do tipo dessa ascendência?

Como falei no item acima, a magia, no Brasil, sofreu uma série de mudanças apenas por concepções e práticas diferentes terem se deparado uma com a outra e, apesar disso, é a cultura europeia que se sobressai, por ela ter sido a cultura hegemônica, colonizadora. Mas como isso afetaria a comunidade bruxa daqui? Bom, se aprendemos o discurso do colonizador de que sua cultura é ~melhor~ ou ~mais correta~ do que a de outros povos, aprendemos também a olhar de forma preconceituosa as práticas desses povos. E, por “preconceituosa”, nesse caso, quero dizer racista mesmo.

Assim, digamos que o canto como prática mágica tenha sido visto pelos europeus como uma técnica inválida. Apesar disso, certas famílias ou comunidades continuariam a pratica-la, já que é uma questão cultural e tendemos a preservar certas tradições. Nesse caso, então, pessoas que usam o canto como canal para a magia são vistas como inferiores, não civilizadas até escrever isso dói em mim, socorro, sendo então oprimidas. Mas, novamente, como é uma questão cultural, os bruxos e bruxas que manteriam tal tradição seriam descendentes de povos africanos ou indígenas, o que volta a nos colocar a questão da raça em si. Considerando ainda que, durante a colonização, escolas de magia como Hogwarts já existiam na comunidade bruxa europeia, bruxos europeus certamente veriam bruxos de regiões como a África e a América como “não-civilizados”. Como bruxos “letrados”, o impacto da falta de uma instituição que centralizasse o conhecimento de magia levaria os colonizadores a verem os bruxos daqui como “selvagens” ou “primitivos” – como se a magia de tais povos não fosse suficientemente desenvolvida para eles.

Criaria-se, assim, dois tipos de racismo: relacionado ao sangue e relacionado à raça, de forma que os níveis de opressão ficariam bem mais complexo e precisaríamos novamente da luta interseccional pra acabar com isso.

Agora também é interessante lembrar que, na Europa, a questão de “pureza do sangue” é uma questão mais problemática do que aqui. A miscigenação no Brasil se tornou uma característica da nossa cultura o que não exclui o racismo que existe nela, o que torna também provável que a questão de ser puro sangue, mestiço ou nascido trouxa não tenha tanta força como opressão no Brasil e que o ponto principal do racismo na comunidade bruxa brasileira seja de fato sua ascendência.

 

E essas são algumas novas perguntas e respostas sobre a comunidade bruxa brasileira! Fiquem ligados que logo mais chega um patrono de urso na casinha de vocês com mais dúvidas e teorias!

Um presente de recomeço

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Hoje é o primeiro dia de 2016 e, de presente pra vocês, decidi fazer esse belo post maravilhoso cheio de imagens incríveis. É porque vocês são pessoas lindas, beijo pra todo mundo!

chris pratt

Passei dezembro quase que inteiro sem postar nada aqui porque estava viajando, e não contei pra vocês porque não tive tempo pra isso. Foi um fim de ano bem maluco. MAS cheguei de volta à minha casa ontem 6 horas da matina e deu tempo de fazer post sobre ano novo e tudo mais, mt loko tudo isso.

Bom, pra recompensar vocês por todo esse tempo quietinha e também em homenagem ao ano novo e sua vibe de renovação-renascimento-novidades, decidi mostrar pra vocês todas as fotos de bebês feios pintados na Europa que eu vi durante a minha viagem! E essa é uma decisão tão incrível que espero que, agora, nesse exato momento, vocês estejam gritando de tanta emoção.

snoop

Talvez, se você não é muito ligado nas artes plásticas, você nunca tenha percebido a maravilha que é uma pintura europeia com um bebê. Pode ser Jesus, pode ser o filho da rainha, pode ser um bebê desconhecido. Honestamente, não importa. O que importa mesmo é que os europeus são responsáveis por retratar os melhores bebês do mundo e todos nós devíamos agradecer solenemente a eles por isso. Por quê? Oras bolas pipocas caramelos fritos! Porque são os bebês mais feios que você já viu em toda sua vida e isso é maravilhoso.

Então, fica aqui esses bebês incríveis, muitos beijos e que essas imagens representem tudo o que desejo a todos nós nesse 2016 que mal conheço e já considero pakas.

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Beijos de luz :*

Ano novo, uma metáfora ruim e lobisomens

O desfile da Zebra742

Noite de ano novo sempre foi a noite mais esquisita do ano pra mim. É tanta carga colocada em uma só noite que, por mais que eu não seja a pessoa que gosta de fazer retrospectivas de fim de ano ou ponderar as coisas que aconteceram comigo ou com o mundo, uma espécie de nostalgia me atinge e me aflige. Vocês podem perceber isso apenas pelo fato de eu estar escrevendo esse texto às oito e meia da noite, no dia 31 de dezembro, quando obviamente ninguém mais vai ler textão na internet porque, bom, festas, migos, bebedeira, pular sete ondas etc e tal.

Mas se por algum acaso tem alguém aqui lendo isso, não me leve a mal: eu amo festas, migos, bebedeira, pular sete ondas etc e tal. Eu gosto de pensar na roupa que traz boas energias, nas cores do ano, no deus que vai nos orientar, nos fogos de artifício à meia-noite. Eu gosto muito de tudo isso, mas existe algo a mais na noite de ano novo que eu não sei explicar direito e, por isso mesmo, estou escrevendo um textão pra tentar definir o que é.

A primeira metáfora que pensei para essa noite é a lua, como se tivesse um lado brilhante e lindo e bonito que todo mundo olha e diz ooooh, mas que ao mesmo tempo tem um lado escuro que nunca se revela. Isso, no entanto, me soou muito brega e indigno de ser escrito por uma pessoa que aspira ser uma escritora séria em algum momento da vida e, sei lá, quem sabe ganhar o Nobel da literatura, ou pelo menos um Pulitzer, vai saber. Depois, isso me lembrou um post que circula pelos Tumblrs de astrologia, que é algo como “ela é como a lua, parte dela sempre brilha [insira aqui signos do zodíaco], parte dela está sempre escondida [insira aqui outros signos do zodíaco]”, que também é muito brega mas que ao mesmo tempo, lá no fundinho, sem eu querer admitir muito (e por isso mesmo estou admitindo pra qualquer um na internet ler), bateu em mim. Meu signo, espero que a esse ponto você já tenha imaginado, estava na lista do “parte dela está sempre escondida” e isso fez tanto sentido que eu guardei pra mim, escondido num lugar quietinho dos meus pensamentos, um lugar bem difícil de limpar.

E toda essa história de lua me lembrou também um teste que eu fiz no buzzfeed sabe-se lá quando, que era sobre qual animal mágico eu era. Eu esperava algo como um unicórnio ou um hipogrifo, mas o resultado do teste foi outro. Aparentemente, de acordo com o buzzfeed, eu sou um lobisomem.

Entenda uma coisa: eu amo testes estilo quem-ou-o-que-você-é e eu realmente acho que nos ajuda a entender melhor quem somos – seja pra concordar com o teste, seja para discordar dele; mas isso eu desenvolvo melhor outro dia. O importante aqui é que a descrição sobre eu ser um lobisomem fez muito sentido pra mim. Falava que eu conhecia o pior de mim, que eu sabia o que eu podia fazer e tinha muito medo disso e, por isso, eu tentava me controlar ao máximo para nunca chegar nesse ponto, que eu me esforçava para escolher sempre o meu lado bom.

Pois bem. Antes desse texto ser o que você está lendo agora, esse era um texto sobre Gossip Girl e como minha adolescência foi pautada em eu me metendo ou sendo metida em intrigas e picuinhas, mas acabei mudando o texto porque estava ficando pessoal demais e eu ainda não sei lidar com esse tipo de coisa, admito. Mas em todas essas histórias que escrevi e apaguei algumas vezes tinham um ponto em comum (que é o que me faz ficar meio mal toda vez que assisto Gossip Girl, apesar de adorar a série, mas não que isso importe). E eis que o ponto comum de todas essas histórias é exatamente o resultado de um outro teste que fiz no buzzfeed, que tem tudo a ver com a história do lobisomem.

Esse novo teste era sobre quanto porcento é o seu lado negro e a minha porcentagem foi extremamente alta, o que me chocou, mas que ao mesmo tempo fez certo sentido: 75%.

Eu não me acho tão cheia de coisas negativas assim, mas não posso negar que minha ansiedade me tomar por quase completo muitas vezes. Também não posso negar que exista uma tristeza dentro de mim e que eu tenho medo do tamanho dela. Por isso que eu luto todo o dia contra essas coisas. Por isso que eu me esforço muito, muito, muito – talvez muito mais que as pessoas que me conhecem acreditam – pra ser otimista e feliz e alegre e pimpante como eu sou.

Em outros pontos da minha vida, eu aprendi que nós somos quem escolhemos ser. E nós podemos mudar todos os dias, porque todos os dias fazemos escolhas. Inclusive, hoje, revendo Gossip Girl, a mãe da Jenny fala pra filha que quanto mais crescemos, mais nossas escolhas ajudam a construir quem somos e que o negócio é se você gosta de quem está se tornando.

Eu acredito nisso. Talvez porque eu seja meio lobisomem e não queira acreditar que, em luas cheias, eu viro um animal terrível que mata pessoas (talvez, no fundo, eu seja o Remus Lupin, mas nascida menina no Brasil), mas isso não importa. O que importa é que eu acredito piamente que podemos escolher quem somos, que podemos mudar, que é assim que vamos nos construindo e é assim que atingimos o tão famigerado, literário, filosófico estado do Ser. Porque Ser, antes de mais nada, é verbo intransitível, mas isso também é um papo pra outra hora.

E eis que chegamos ou voltamos à noite de ano novo. Uma noite de festa, alegria, comemoração, amor, boas energias, mas também uma noite em que se é colocada uma carga de mudança, decisões e renovações desesperadora. Porque eu não quero e nem consigo mudar de uma noite pra outra, porque eu já cansei de fazer listas de coisas que eu faria no ano novo e não consegui riscar um só item, porque sempre no meio da minha conversa com Iemanjá alguém me chama e pula em mim e eu me desconcentro, porque a real é que eu não quero mudar ou decidir ou renovar nada especificamente na noite do 31 de dezembro de qualquer que seja o ano.

Eu passo o ano inteiro sofrendo com as mudanças da vida, experienciando as melhores e também as piores coisas e é incrível e assustador e maravilhoso! E não importa o quão bom ou o quão ruim seja, é tudo sempre desgastante, porque viver é um desgaste – um desgaste excelente, que não devíamos querer trocar por nada no mundo, mas não deixa de ser um desgaste e tudo bem. A questão é: eu passo o ano inteiro mudando e me construindo e, quando chega o fim do ano, o que eu quero mesmo é relaxar. Mas, de repente, vem essa noite que te pede desejos, mudanças, retrospectivas… e eu só quero ver os fogos e dançar minhas músicas preferidas, feliz, plenamente feliz.

Mas até virem os fogos vem uma espera sem fim. Não são os dez segundos finais, é o dia inteiro num estranho mormaço, numa espécie de vazio que não faz sentido nenhum pra mim. E quando chega a noite e tudo fica confuso entre o tempo de se arrumar, de jantar, de fazer hora até os dez segundos antes da meia-noite. O vazio fica mais vazio e as conversas parecem fazer cada vez menos sentido e se tornar apenas uma eterna espera para o momento verdadeiro, para a hora em que tudo vai mudar. Então, essa hora chega, mas a vida não muda, mas a gente continua fazendo o mesmo todo o ano e eu não consigo entender o sentido disso.

Eu entendo e concordo e amo e aplico a ideia de renovação das energias. Eu gosto de pensar a virada da meia-noite como um momento em que coletivamente jogamos no mundo uma energia tão boa e tão forte (porque somos tantos!), que ela pode tomar conta de nossas vidas, do universo inteiro, que ela pode ser a coisa mais poderosa que existe no mundo. Essa concentração de positividade é incrível, é o que eu faço todo o dia pra ser quem sou, é a coisa que eu mais gosto no mundo – mesmo antes de dinossauros e sorvete de flocos. Mas até esse momento chegar, é como se estivéssemos tentando lidar com as nossas partes lobo coletivamente, como se estivéssemos tentando nos comportar e nos segurar, não nos perder no lado negro da lua para, finalmente, à meia-noite, encontrar a luz do sol e refleti-la lá do outro lado do universo.

Eu não sou de fazer desejos, mas em 2016, eu espero que deixemos de ser como a lua, de teme-la e que nos tornemos, cada um de nós, verdadeiros sois, radiantes de tudo que há de melhor. E que isso não seja tão difícil como tem sido nos últimos tempos.

(eu também desejo fazer metáforas mais interessantes).

Ou pior: expulsos

ou pior

Eu nunca fui muito Hermione, é verdade. Estudar nunca foi meu barato, a primeira carteira nunca foi meu habitat natural, livros grandes sobre assuntos da escola sempre me deram muito sono. Pensando academicamente, sempre fui muito mais o Ron ou o Harry – apesar de que eu não copiava a lição, simplesmente não fazia. Na real, nunca entendi esse lance da Hermione ler todos os livros e saber de absolutamente tudo, porque, honestamente, quem tem essa energia toda pra isso? E quem tem capacidade de armazenar tanta informação não sendo um computador com uma boa memória? E quem consegue se interessar por tanta coisa assim na vida? E tanta coisa acadêmica!!! Não é nem que o rolê da Hermione era umas bruxarias obscuras ou música bruxa ou sei lá. Era só “o que a escola comentar, tô querendo ler”. Tipo, sério, wtf?! Por mais curiosa que a pessoa seja, o nível da Hermione é assustador.

Também não aconteceu o que a Clara de 16 anos achava que ia acontecer, que é eu virar uma Hermione quando entrasse na faculdade e estivesse finalmente estudando o que gosto. Curiosamente, aconteceu o contrário: cada vez mais estudar tem sido difícil pra mim e me entendo como uma pessoa que aprende discutindo e colocando a mão na massa.

Isso tudo não significa que não gosto da Hermione. Eu adoro ela, apesar de não entender essa paixão pela academia. Adoro porque ela não se resume a isso; todo mundo que leu ou viu pelo menos uma das partes de Harry Potter sabe que a Hermione é uma pessoa muito maravilhosa. Ela é uma amiga leal, ela tem princípios, ela é forte pra cacete, ela ajuda quem precisa, ela quebra regras se necessário, ela enfrenta aqueles que vão contra seus princípios, ela guarda segredos etc. etc. etc.

A internet já falou muito de como a Hermione é incrível em milhões de sentidos (e vai continuar falando, porque, né, ela merece), mas as pessoas parecem sempre zoar a mesma coisa.

or worse expelled

Todos vocês riem dessa reação dela, concordam com o Ronny sobre prioridades, mas eu gostaria de dizer que entendo perfeitamente a Hermione e que, em certo sentido, ela tem sim razão: ser expulso pode ser muito pior que ser morto. Porque quando você está morto, mal ou bem, você não tem que lidar com nenhuma consequência, não tem como os problemas chegarem até você, porque acabou tudo, acabou a vida. Mas, sendo expulso, você ainda vai ter muita treta pela frente.

Fala sério, quem nunca na vida pensou que não era melhor morrer do que passar por uma situação mega difícil. Não digo com isso que é uma boa ideia ou mesmo que deva ser colocado como algo naturalizado, mas acaba que, hoje em dia, é sim. E nem estou falando da moda gótica vampira! A famigerada “queria estar morta” já é o suficiente pra provar meu ponto. Porque é isso aí: tem vezes que lidar com as consequências é difícil demais, que a gente não tem mais energia pra isso, que estamos cansados, derrotados, acabados e, aí, seria muito mais fácil (e bem menos desgastante) simplesmente não ter que lidar com nada disso. E, quando estamos mortos, nada disso importa. A dor é pra quem fica. A gente mesmo já acabou, não faz diferença.

Então a gente mesmo já vive falando isso normalmente, na nossa vidinha trouxa. Mas agora imagina em Hogwarts. Se você é expulso de Hogwarts, não é como se você pudesse entrar em outra escola e ficar de boa no mundo bruxo. Se você é expulso de Hogwartas, ACABOU SUA CARREIRA COMO BRUXO. FIM. ADEUS TODOS OS SEUS SONHOS DE SER AUROR OU MINISTRO DA MAGIA OU DONO DA ZONKOS. Quem leu o segundo livro, inclusive, viu muito bem o que aconteceu com o Hagrid. Ele foi expulso por um crime que nem cometeu e, por causa disso, destruíram a varinha dele (que é, em partes, a fonte de poder de um bruxo inglês). Não é uma coisa tranquila, gente.

Agora imagina você, que nasceu numa família trouxa, descobriu que era bruxo, teve a chance de viver um mundo completamente diferente, estuda diariamente sobre o assunto (inclusive, muito mais que qualquer outro bruxo nascido já no meio mágico), passou a construir sua vida inteira com essas perspectivas e aí você tem todos os seus sonhos destruídos porque seus dois bffs são uns otários. Como voltar para o mundo trouxa depois de ver o mundo bruxo? Como aguentar essa barra que é ter tido uma possibilidade dessa e perder por um motivo tão imbecil? Mesmo que apagassem a sua memória ou sei lá. É uma consequência pesadíssima essa. Perder tudo e ter que conviver com isso não é simples ou fácil. Quando a Hermione fala que “ou pior: expulsos”, ela tem toda essa história por trás, todo esse desejo por conhecimento e toda esse receio de perder isso por motivos dos quais ela nem concordava pra começo de conversa.

Encarar a realidade quando as coisas vão mal é muito, muito difícil. Estar vivo significa ter que lidar com consequências o tempo todo, significa enfrentar coisas que nem sempre queremos ou gostamos e, em momentos de crise, isso é pior ainda. Não quer dizer, no entanto, que é algo ruim. Não, claro que não. É uma coisa difícil, mas é isso que nos faz seguir caminhando e crescendo e aprendendo – e tudo isso é ótimo. Viver é uma delícia, sem sombra de dúvidas. Ninguém quer ou deveria querer morrer, porque viver é uma experiência incrível. Mas não venha me dizer que é fácil, porque não é.

Então, sim: eu entendo a Hermione e acho que toda a internet devia parar de zoar uma frase tão real. Na boa, vocês precisam rever suas prioridades, porque quem não revê conceitos estaciona na vida, e acaba morto.

Ou pior: expulso.

Como criar bons títulos™

O desfile da Zebra467

Não lembro quando descobri a força de um bom título – desde que me lembro, como leitora, já julgava minhas leituras por títulos que me convenciam e aqueles que só me davam preguiça –, mas foi aos 14 anos, quando estava no nono ano, que descobri como criar um título decente.

Era a aula antes do almoço e tínhamos que escrever um conto que valia nota para a matéria de português. Não lembro exatamente da proposta, mas meu conto era sobre o último homem do mundo. Basicamente: o sol tinha acabado e, por causa disso, todos haviam morrido, exceto esse único homem.

O texto estava pronto, eu era a única aluna que sobrara na sala e o sinal tinha tocado. O professor pediu para eu entregar o texto, mas eu disse que faltava o título. Então, ele me perguntou a história e eu contei. Ele sentou comigo e ficou pensando num título, mas só vinham ideias ruins – ou ideia alguma. Até que a fome apertou e a necessidade de escrever algo foi maior do que de criar algo decente. O professor disse:

– Escreve Solidão mesmo que tá bom.

Esse foi o pior título que eu ouvi na minha vida, honestamente. Mas eu estava com fome e, naquele ponto, já estava achando mais engraçado do que ruim. A questão é que eu não sabia se podia ser engraçada, eu não sabia se os leitores das minhas histórias entenderiam que a baixa qualidade era irônica, não que o título tinha sido criado por uma pessoa que levava a sério os poemas do Leminski. Assim, com essa insegurança, apenas olhei para meu professor e perguntei:

– Eu posso escrever isso?

E ele lindamente me respondeu:

– Você pode escrever qualquer coisa, o conto é seu. E, depois, sou eu que vou corrigir.

– Mas como eu escrevo isso?

– Escreve “solidão” e sublinha o “sol”.

Então, eu me inclinei sob o papel e escrevi: ”Solidão” e achei horrível, mas entreguei.

Eu não tenho a menor ideia do quanto tirei nessa redação, mas ali eu me liberei dos Títulos, com letra maiúscula. Ali, eu entendi que nenhum título vem como uma inspiração divina e que, pra chegar em algo bom, você tem que passar por muitas ideias horríveis. E foi aí que minha vida mudou. Eu sabia que nenhum outro professor ou professora aceitaria um título tão ruim e zoeiro como aquele, mas também sabia que era impossível alcançar uma porcaria maior. Então, no fim das contas, eu estava tranquila.

Minhas outras redações me deixaram melhor, mais calejada. Fui testando estilos de títulos diferentes, tentando resumir os textos o máximo possível no mínimo de palavras que conseguia, como se fosse uma versão mais pílula ainda do twitter. Até que cheguei na faculdade e descobrir que títulos gigantes não são um problema se você os abraçar com todo o coração.

Foram tantos, mas tantos títulos que comecei a criar que, hoje em dia, tenho mais título que histórias. Ou livros. Ou poemas. Ou qualquer coisa. Eu tenho uma quantidade surreal de títulos guardados. A ponto que, entre meus amigos, eu fiquei conhecida como a pessoa que dá títulos. E o que começou como uma ajuda em redações de vestibular durante o ensino médio acabou virando quase que uma das minhas principais funções na vida. Porque, sério, sempre que tem um título a ser criado, as pessoas me chamam pra ajudar.

Pensando nisso, venho aqui com dicas para como você chega em bons títulos, em títulos convincentes, naqueles títulos que uma pessoa que não é sua miga e nunca ouviu falar de você leia e fale “nossa, daora, vou gastar meu tempo lendo esse texto aqui”. Então, vamos ao que interessa!

 

Dica nº1: Brainstorming é essencial

Se você tem tempo para pensar num título, ou seja, se você não está escrevendo uma redação para nota durante a aula ou o vestibular, se joga nas ideias! Títulos não são fáceis, por isso mesmo que precisamos ter um brainstorm grande. Quanto mais ideias você tiver, mais chance de encontrar algo que se encaixe bem no seu texto. Se você puder discutir o título com alguma miga, melhor ainda! Uma pessoa que não está envolvida no texto da mesma forma que você consegue ter uma nova perspectiva do que está escrito e, portanto, trazer outras ideias que você não teria e que podem ser maravilhosas.

É aqui também o momento que você define o tipo de título que você quer. Um título de uma só palavra, como Persépolis? Um título com nome próprio, como Emma? Um título que é uma situação, como A missa do galo? Um título que parece mais uma frase, como Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra? Um título que resume o assunto, como Tratado geral das grandezas do ínfimo? Um título spoiler, como Cem anos de solidão? Um título com explicação, como Princesa – a história real da vida das mulheres árabes por trás de seus negros véus? Um título com nome de música, como Daytripper?  É a partir das ideias que vão surgindo no seu brainstorm que você vai entendendo o que quer como título. Às vezes, poucas palavras bastam, mas tem horas também que uma frase enorme faz bem mais sentido. E isso você só descobre durante o processo de criação.

 

Dica nº2: Não tenha medo de pensar coisas toscas

Brainstorm não é só pra ter várias ideias boas ou pelo menos razoáveis, mas também pra expelir as coisas ruins. Acontece que, quando estamos pensando em um título e pensamos em uma ideia ruim e não a falamos em voz alta, ela se impregna em nossa mente e toma conta de todo o espaço do nosso cérebro, nos impedindo de chegar a qualquer ideia boa – ou mesmo qualquer outra ideia.

Migas, prestem atenção quando falo: é preciso expurgar as ideias ruins. Não tenha medo de conta-las, de coloca-las pra fora. Até porque, muitas vezes, uma ideia ruim pode trazer uma boa risada, o que alivia a tensão da necessidade de se chegar num título bom. Honestamente: é muito importante o brainstorm ser recheado de risada, porque levar tudo muito a sério estraga a criatividade. Isso sem contar que uma ideia ruim pode ser transformada em algo interessante; alguém pode perceber algo de bom na ideia e apostar nisso e ficar legal.

 

Dica nº3: Vale zoar

Já falei no tópico anterior que é importante não levar as coisas muito a sério, mas é algo importante o suficiente para ter um tópico só pra si: galere, vale muito zoar! Zoação leva a risadas, leva ao desafio de se pensar algo além daquela zoeira, leva a ideias não óbvias, e tudo isso pode ser muito bom para um título. Zoar é uma forma de incentivar a criatividade e, num momento de criação, isso é essencial.

 

Dica nº4: Pire nos círculos semânticos (vale usar dicionário)

As palavras remetem a outras palavras, a sentimentos, a ideias, a coisas. Você dizer “ensinar” é diferente de você dizer “ajudar”, mesmo que exista um ponto de intersecção entre essas duas palavras. Isso é porque as palavras têm círculos semânticos diferentes, ou seja, seus significados abrangem uma série de outras ideias, e essas que podem ser úteis para o seu título (ou joga-lo por água abaixo). Para isso, os dicionários (de significado, de sinônimo, de analogia etc.) são uma ótima ajuda, porque eles têm um arsenal enorme de outras  palavras, o que pode te ajudar a chegar onde você quer.

Entender o círculo semântico das palavras também é uma forma de dirigir o leitor ao que você quer dizer no texto. Tanto no sentido de surpreende-lo quanto no sentido de deixar bem claro qual é seu ponto. A escolha é sua. O importante é você não ser pego de surpresa quando alguém falar que achou que o texto que você escreveu sobre relações amorosas assexuais era sobre gostar de bolo caseiro. Para criar um título bom, você precisa saber o que as palavras significam além delas mesmas.

 

Dica nº5: Crie e use referências

O exemplo que dei no ponto anterior, sobre relações assexuais e bolo, faz sentido. Assim como faz sentido falar de Taylor Swift e gaslighting ou educações alternativas e Harry Potter.

Existe uma brincadeira na comunidade assexual que diz que assexuais preferem bolo a sexo. Blank Space da Taylor Swift é uma grande risada na cara de quem fez gaslighting com ela. Hogwarts é uma escola extremamente tradicional, mesmo tendo magia no currículo escolar.

O que quero dizer com isso é: você pode e deve usar referências nos seus títulos, da mesma forma que usa nos seus textos. Sabe aquela pesquisa que você fez sobre o assunto? Sabe aquela fala da personagem que te marcou? Sabe a música que você ouviu em looping enquanto escrevia teu texto? Sabe aquele último parágrafo que você fez uma metáfora 10/10? Usa essa parte pro título.

Faça brincadeiras, trocadilhos, seja muito intelectual, abrace seu lado poético. Tudo isso fica mais fácil com referências que você mesmo pode criar.

 

Dica nº6: Seu texto tem a resposta

Essa é a maior Verdade que existe. Assim mesmo, com letra maiúscula e tudo. O seu título, de alguma forma, tem que estar no texto – afinal, o título é o nome da sua obra, é o faz daquele amontoado de palavras uma coisa única, indivisível, de completa coesão e coerência a não ser que seja o último livro de uma saga YA, aí dá pra dividir em dois filmes tranquilamente, aparentemente. Você talvez não tenha percebido, mas todas as dicas que dei até agora, de alguma forma, voltam ao que você tem escrito, voltam ao que já existe.

Miga, seu texto tem a resposta. Seu título já foi escrito. E foi escrito por você! Mas se você ainda não consegue enxergar isso dentro do seu texto, vão aqui algumas perguntas que podem te ajudar a chegar nesse ponto essencial que vem em forma de título:

  1. Qual o assunto central do seu texto?
  2. Tem alguma palavra que se destaca nele?
  3. Tem alguma personagem que se destaca nele?
  4. O ambiente é importante?
  5. Existe alguma metáfora ou analogia forte no seu texto?
  6. Algum sentimento prevalece durante a leitura?
  7. Existe alguma imagem central ou forte no texto?
  8. O texto se passa em alguma situação específica, como noite de natal, páscoa, aniversário etc.?
  9. Tem alguma ideia que se repete ou mesmo é constante durante a leitura?
  10. Você usa alguma referência musical, cinematográfica, literária etc. que pode ser trabalhada?

Essa são só algumas perguntas que podem te ajudar a encontrar o ponto nevrálgico, aquilo que melhor abrange sua criação. Você pode sempre pensar em outras a partir do que trata seu texto. Você também pode vir me perguntar, tem problema não.

 

Agora, pra vocês verem que eu não estou de sacanagem e que eu mesma sigo essas dicas e funciona, deixo aqui alguns títulos meus (alguns com links pros textos):

Primavera fora de época – pra Capitolina, sobre revoluções durante a história;

Alices no país do espelho – pra Capitolina, escrito com a Bleche, sobre distúrbios alimentares;

A passagem mais barata para [insira aqui um lugar real ou imaginário de sua preferência] – pra Capitolina, escrito com a Sofia, sobre como a ficção nos faz viajar sem sair do lugar;

Da linha à entrelinha: análise comparativa entre as formas das poesias modernista e marginal – trabalho de faculdade, sobre, bem, o que já diz o título;

Poeira do universo – uma série de poemas sobre o universo e pessoas e como somos de fato poeira estrelar;

A incrível saga do unicórnio que perdeu a bunda – uma zine que ainda não imprimi porque sou bunda mole, mas é basicamente um unicórnio em busca de suas nádegas;

Vida de unicórnio não é fácil
Vida de unicórnio não é fácil

O não-projeto do anti-projeto – trabalho de faculdade, sobre poesia marginal (que acabou rendendo nesse texto pra Capitolina);

Gênesis – outra zine que não consegui imprimir ainda, mas que fala basicamente sobre o surgimento do mundo.

 

Tem mais uma série de outros títulos (como disse, tenho mais título que obra pronta), mas como são coisas não publicadas, não vou jogar aqui na internet pra estranhos roubarem todas as minhas ideias. Vocês podem ver sempre as coisas que eu escrevo na Capitolina e na Pólen também.

As gentes da literatura infantil, como sobrevier a elas e um voto pela polêmica

peanuts festa 2

Toda área de trabalho tem seus clubinhos especiais, aquele grupo de migas que te olham de cima a baixo e falam que você não pode sentar com elas porque é quarta-feira e você não está de rosa. Pois é, colegas. A gente acha que clubinhos acabam na escola, mas a verdade que tenho descoberto é que, depois dos 13 anos ninguém mais verdadeiramente amadurece. As pessoas continuam sentindo amor e ódio intensamente, criando picuinha a torto e a direito e, claro, formando seus clubinhos pra poder julgar quem ficou de fora rsrsrs.

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Não é necessariamente um problema, no sentido de que é claro que pessoas com pensamentos próximos vão se encontrar e se aproximar. E isso é bom. É bom poder encontrar pessoas que te deixam confortável e que façam com que você se sinta menos estranha no mundo. Nesse sentido, os clubinhos são ótimos. Você já sabe que tem o clubinho X que pensa de uma forma e que o clubinho Y pensa de outra forma. E, se você discordar de todo mundo, você pode sempre começar o seu próprio clubinho, mesmo que seja bloco do eu sozinho. (sim, a rima foi proposital) (não, eu não gosto desse álbum) (sim, eu odeio muito Los Hermanos e nunca vou entender essa ocorrência musical que eles criaram e pessoas gostaram).

A moda tem seu clubinho, as artes plásticas têm seu clubinho, a música tem vários clubinhos dependendo do gênero musical, a academia tem seu clubinho. Toda área tem seu clubinho, mas eu acabei por cair no clubinho da literatura infantil. Ops.

Como uma pessoa que não sabia o que queria, eu decidi abraçar tudo o que dava pra abraçar. Poesia, prosa, artes plásticas, teatro, música, feminismo, astrologia, educação, zoeira. Eu fiz milhões de mapas conceituais pensando nas coisas que queria e, nesse meio tempo, acabei caindo no universo da literatura infantil (prosa/ poesia + ilustração + educação + zoeira, pareceu uma boa equação). Poxa, eu já curtia uma série de livros, já me interessava trabalhar com editoração, sempre quis trabalhar com diálogo entre texto e imagem. Pois bem, né?, muito bacana. Foi assim que fui fazer cursos sobre o assunto.

Eu fiz cursos de ilustração, de edição de livros infantis especificamente, cursos de livro-álbum (aka: aquele livro que só tem imagem, 0 palavras) e fui também fazer matéria sobre literatura infantil na minha faculdade. Conheci gente maneira que me faz dar risada da vida, mas em geral conheci umas pessoas nada a ver que me fizeram perder a fé na humanidade. Pensando nisso, decidi contar pra vocês os três grandes clubinhos dessa área, mas de forma personificada. Assim, caso estejam afim de entrar pro universo da literatura infantil, vocês já ficam ixpertos com o que vão topar pelo caminho.

burn book
Adulto nº1: “Mas a criança adoooora esse tipo de coisa”

É aquele adulto com ar de professora ruim do primário que acredita que a infância é só um mundo lúdico e maravilhoso. Esse adulto sempre fala as coisas mais óbvias com o tom de alumbramento, como se estivesse descobrindo que a roda roda naquele instante. Ele esquece que o universo da crítica literária passa muito além dos contos de fada e acha que está arrasando quando fala sobre a Disney e, principalmente, quando revela ~o final original~ de qualquer conto clássico, mesmo que todo mundo já saiba (porque ouvimos isso desde que deixamos de ser consideradas crianças). Esse adulto acredita que criança gosta de tudo que tem música e cor, acha Alice no País das Maravilhas uma história muito contemporânea, mesmo tendo feito 150 anos agora, e acha incrível sempre que um personagem da literatura mundial aparece no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Provavelmente, seu livro de cabeceira e ~guia pra vida~ é O Pequeno Príncipe.

Adulto nº2: “Mas o mercado é foda”

É aquele adulto que, quando decidiu entrar pro meio da literatura infantil, provavelmente pensava de forma muito parecida como o Adulto nº1, mas se desiludiu quando deu de cara com o mercado. Ele é aquele cara que diz que concorda quando você fala algo bonito ou engajado, mas logo em seguida ele vai destruir suas ideias e dizer que “é triste, mas é o mercado”. Basicamente, ele é o pessimista do rolê. Ele acredita piamente que o capitalismo acaba com todos os sonhos e que o único jeito de sobreviver ao mundo é cedendo à entidade Mercado – o que foi basicamente o que ele fez: deixou de buscar produzir coisas de qualidade e passou a publicar livros imbecis porque “é isso que vende” (esquecendo-se, é claro, de que se ele não produz livros infantis de boa qualidade, obviamente estes nunca serão vendidos). Seu livro preferido provavelmente é algum do Bartolomeu Campos de Queirós, que fala sobre as dores da vida com uma lírica que beira ~o olhar inocente de uma criança~.

Adulto nº3: “Não existe literatura infantil, só literatura”

É aquele adulto acadêmico que sofreu os preconceitos dos coleguinhas que desdenham da literatura infantil como forma de arte e, por causa disso, em vez de defender a área de sua escolha, prefere negar a existência do nicho infantil. Em outras palavras, é o adulto que nega o que faz. Ele defende que o livro é objeto de arte e ignora a realidade pra poder se defender (ou, quem sabe, pra dormir em paz com suas escolhas de vida). Esse adulto ignora tudo o que o Adulto nº2 fala, jurando de pé junto que o preço dos livros ou se eles serão lidos ou não por crianças não importa, um literata que ignora o leitor. É um elitista. Provavelmente, seu livro preferido não é nem um livro infantil ou que fala da infância, é apenas um clássico que a Academia Brasileira de Letras considera ~literatura~. Deve ser algo como Em busca do tempo perdido ou alguma coisa bem amargurada do Valter Hugo Mãe.

 

Esses são os tipos mais comuns da galera da literatura infantil. Todos eles são bem chatos. Se vocês querem saber, admito que, pra mim, o menos pior é o cara do mercado, porque pelo menos ele tem pé no chão (mesmo que esse chão seja o chão do fundo do poço). O tipo nº1 me dá coceira especialmente porque subestima demais a criança, mas o pior mesmo é o terceiro puramente por ser um elitista. Mal ou bem, os dois primeiros clubes ainda consideram o leitor, mesmo fazendo isso errado.

i'm scared

Agora, você me pergunta: Clara, como sobrevivo a essa gente? Como eu sobrevivo a esse universo?

Primeiro ponto: é legal ir nos eventos, fazer cursos, conversar com as pessoas. É importante porque você vai ouvir essas pessoas falando e vai descobrir os pontos que você discorda e os pontos que você concorda com elas. Também é ali que tem um montão de outras pessoas que estão fazendo o mesmo que você. Lembre-se: não é porque as pessoas parecem estar interessadas que elas concordam com o que está sendo dito. Quantas vezes você mesmo não fingiu estar super interessado em um papo péssimo? Ou sorriu e balançou a cabeça quando alguma figura de autoridade falou alguma coisa absurda, mas você deixou passar só pra não criar caso? Pois é, você tem que achar essas pessoas.

Uma possibilidade é ficar de olho nas pessoas que estão se movimentando muito durante a palestra – elas provavelmente estão bem incomodadas. As pessoas que estão dormindo também podem ser bacanas, mas é mais difícil contata-las porque, bem, elas não estão muito conscientes nesse momento, néam. Isso também funciona para cursos. Busque as pessoas que estão desenhando ou que parecem não estar prestando atenção. As chances de elas serem maneiras são enormes. Você pode começar com um comentário ambíguo, um olhar de cansaço ou mesmo aquela pergunta com o maior tom de sinceridade que você consegue (“você tá curtindo isso?”). É infalível pra peneirar os interessantes dos cansados!

Se o evento estiver muito ruim, você pode sempre (e eu recomendo muitíssimo) sair do auditório e ir comer os biscoitos que dão de graça. Outras pessoas que também não aguentaram a conversa lá dentro estarão ali e você pode conversar com elas. Inclusive: foi isso que fiz no último evento sobre literatura infantil e foi ótimo! Não só conheci pessoas interessantes, como também reencontrei amigos de outros eventos em que ficamos tomando café e criticando o elitismo da academia!

Agora, se você for que nem eu e adorar uma boa polêmica, fale. Se você está em um curso, pergunte ao professor, critique-o. Ele é humano, ele tem erros. Discuta de uma forma respeitosa, mostre os pontos dos quais você discorda e aproveite o debate! É sempre muito bom quando isso acontece numa aula. Caso o professor não esteja aberto ao diálogo e te dê uma fechada, também não se preocupe: outros alunos que concordam com você irão comentar contigo o caso depois.

Em eventos, se você tiver forças para esperar até o final, quando se abre a perguntas, levante a mão e fale também! Mas, por favor, não se esqueça de fazer uma pergunta! Afinal, sem isso, não vai ter muito debate. Um exemplo pessoal mas do qual me orgulho muito foi em um evento do Conversas ao Pé da Página, um evento de literatura infantil bem acadêmico, que fui. Na mesa, havia um monte de adultos 40+ falando sobre jovens e adolescentes, como eles não se interessam tanto assim por ler e como a leitura deles é outra. Aquilo me deixou possessa, claro. Eles não tinham propriedade nenhuma sobre o tema, nenhum deles era jovem ou adolescente e claramente havia um milhão de outras pessoas que os organizadores do evento podiam ter chamado que representariam muito melhor jovens e adolescentes (e, sim, estou falando de jovens e adolescentes que trabalham com literatura). Então, eu peguei o microfone, a última pergunta, e disse meu nome, o que fazia e comecei que “gostaria de observar que não existe nenhum jovem ou adolescente falando por si ou por sua geração nesse evento, então como vocês acham possível que tenhamos uma conversa produtiva quando excluímos essas pessoas do diálogo?”. Foi uma bela palha na fogueira e, no fim, UM MONTÃO DE GENTE VEIO FALAR COMIGO!!! Até uma das organizadoras veio correndo me explicar como montaram a mesa e eu pude dar uma lição sobre representatividade! E depois pessoas incríveis vieram agradecer por eu ter falado o que elas estavam pensando, foi lindo. Acho que nunca troquei tantos cartões quanto naquele dia. (Inclusive, descobri esse ano que fiquei conhecida como “a revoltada do Conversas” entre algumas pessoas e me fico orgulhosa disso).

Amigues, a verdade é que você nunca será a única pessoa a pensar diferente do que se está dizendo lá na frente. Provavelmente, 1/3 da galera também discorda dos clubinhos e da Regina George. Mas você só vai saber disso se você falar o que pensa, se você conversar, discutir, argumentar. Nós estamos muito acostumados a ficarmos quietos porque é confortável não se expor, mas sem essa exposição, nunca vamos encontrar as outras pessoas que estão à margem como nós, que discordam de tudo aquilo mas não sabem como enunciar. São pessoas inteligentíssimas, que deveriam estar lá em cima palestrando, mas não fazem parte das Plastics. São as pessoas que, em vez de serem amigas da Regina, são migas do Snoopy – e todo mundo sabe que a galera do Peanuts é muito mais pra frentex e interessante que as meninas malvadas (tá no nome, gente, não tem como ser bom!!). E você só vai chegar no Snoopy se você falar. Sem essa conversa, os clubinhos vão continuar os mesmos e as áreas ficarão sempre meio estáticas.

A polêmica é necessária porque a mudança é necessária. E é assim que sobrevivemos aos clubinhos da literatura infantil (e todos os outros clubinhos que existem por aí): mudando-os.

 

Ó nossa turma que daora, migas!
Ó nossa turma que daora, migas!

Não, não é o bolinho

clara browne

Todo mundo adora um trocadilho; eu sei, eu também adoro. Trocadalho do carilho é sempre shola de bow. É uma forma rápida, compacta de se divertir. Inclusive, o trocadilho ficou tão difundido na nossa cultura que até mesmo os pernósticos dos críticos literários tiveram que aceitar essa zoeira na literatura com os movimentos Modernista e da poesia marginal. Qualé, fala sério, você não acha mesmo que “eles passarão, eu passarinho” era antes de uma poesia linda só uma zoeira das boas? Pois era sim. A base da gracinha do poema é exatamente trocar e surpreender, gerando graça. Esse processo, na vida da gente como a gente, é também conhecido como o querido, ilustre, famigerado trocadilho.

Não me levem a mal, eu amo demais trocadilhos. A galera que convive comigo sabe o quanto eu adoro uma zoeira em pílulas. Mas, assim, quando ouvimos o mesmo trocadilho quinze mil novecentas e trinta e duas vezes (e eu fiz questão de escrever por extenso o número pra dar mais trabalho pra vocês mesmo), as coisas começam a ficar meio chatas. Pera… Você ainda não entendeu onde esse texto vai dar? Pois bem, te ilustro agora mesmo:

– Qual o seu nome? – pergunta pessoa desconhecida para mim.

– Clara.

– Ai, nossa, você é bem clarinha mesmo! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

*dou longo suspiro*

Galera, eu sei que meu nome é bacana. Eu gosto muito dele também. Clara Browne é ótimo! É sonoro, é marcante, é maneiro. Se eu não gostasse, teria escolhido usar meu outro sobrenome. Então, assim, estamos de acordo quanto ao fato de ser um nome daora. Mas vamos fazer alguns combinados? Porque essa quantidade de trocadilhos e piadinhas que escuto com o meu nome deixou de ser divertida quando eu tinha 15 anos. E sabe por quê? PORQUE EU JÁ ESCUTEI TODOS ELES. Aliás, eu INVENTEI grande parte deles. Porque isso também acontece: quando você tem um nome que todo mundo acha divertido, você aprende a antecipar a piada antes que outros a façam. É uma questão de sobrevivência. As leis da selva não são necessariamente justas.

E é a mesma coisa de família: você pode falar mal e fazer piadas da sua família, mas pessoas de fora não. Pois bem: eu posso fazer piadas com meu nome, você que não tem meu nome não pode. Aceite.

Agora que estamos todos grandinhos, acho que já podemos conversar melhor sobre o assunto. Acredito que já estamos no ponto que ninguém vai se sentir ofendido ou particularmente atacado quando eu pedir encarecidamente aos senhores e às senhoras que PAREM DE FAZER TROCADILHOS COM O MEU NOME.

Eu sei que vocês se acham divertidos.

Eu sei que vocês se acham inovadores.

Eu sei que vocês acham que estão quebrando o gelo.

Eu sei de tudo isso e eu vou contar um segredo pra vocês: vocês podem até ser divertidos e inovadores e bons pedreiros do gelo, mas quando vocês fazem trocadilho com o meu nome, vocês só estão repetindo uma legião de outras pessoas que fizeram o mesmo. Não é engraçado, não é inovador e juropordeussemfigas que vocês não conseguem quebrar o gelo comigo dessa forma. E eu sei! Eu sei que vocês acham de verdade que com vocês é diferente! Mas, amigos e amigas, eu juro do fundo do meu coração: vocês não estão sendo maneiros.

Vocês não acreditam, eu sei disso também. E é por isso que aqui recolho uma série de coisas que escuto frequentemente. De amigos, professores, pessoas desconhecidas na rua, galera que vem bater papo por causa da Capitolina, gente que precisa do meu nome pra cadastro de qualquer coisa. Respirem fundo, se divirtam, deem suas risadas agora e NUNCA MAIS FALEM ESSAS COISAS PRA MIM.

 

  1. O clássico dos clássicos

Essa foi a frase que eu mais ouvi a minha vida inteira.

– Posso pegar uma caneta emprestada?

– Posso tirar uma dúvida?

– A resposta é 3?

– Quer almoçar comigo?

– Nos encontramos às 16hs?

Para todas as perguntas do universo, a mesma resposta:

– Claro, Clara. *risadinha de quem se achou esperto*

Minha. Vida. Inteira. Ouvindo. Essa. Porcaria.

Toda vez que eu perguntava algo nas aulas de física, o professor me respondia assim. TODA VEZ!

Toda vez que eu falo qualquer coisa que dê pra dizer “claro”, AS PESSOAS NÃO CONSEGUEM SE CONTER!!!!!!

Gente. NÃO É ENGRAÇADO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

CONTENHAM-SE!!!!!!!!!

  1. O clássico dos clássicos condensado

Quando parte das minhas relações passou a ser pela internet (especialmente por causa da Capitolina), o “Claro, Clara” se condensou. Como vocês sabem, ninguém gosta muito de escrever nas internets, dá preguiça etc. Então, conseguimos chegar numa forma maravilhosa. Assim, peço que caso vocês não consigam se conter como pedi acima, vocês escrevam dessa forma:

Clar@.

Só, pelamordedeus, não escrevam “rs” depois. É tudo o que peço. Obrigada.

  1. Nossa! Você é tipo o bolinho!

Vamos aprender: brownie = bolinho, Browne = meu sobrenome. Não é igual. Não sou tipo o bolinho. Sou tipo uma pessoa, obrigada.

  1. Você é um doce mesmo

A primeira vez que eu ouvi essa piada foi em uma aula de literatura, no ensino médio. Era um professor machista que dava em cima das garotas. Na hora da chamada, ele disse com um sorrisão no rosto:

– Clara, que é um doce!

Aquilo me irritou tanto, ainda mais vindo dele, que minha resposta foi:

– Não!

Ele nunca mais fez uma piadinha com meu nome. Amém.

Mas, agora, vamos ~esclarecer~ uma coisa: em geral, eu sou uma pessoa fofa e querida e eu tento me empenhar pra ser legal. Em geral, se eu não estou sendo legal, é porque eu estou tímida. Mas também pode ser porque eu não gosto de alguém que está na rodinha de conversa. A questão é: se você acabou de descobrir meu sobrenome, é porque não somos muito próximos. Se não somos muito próximos, VOCÊ NÃO TEM COMO SABER SE EU SOU UM DOCE OU NÃO. Então só não fala isso. Tipo, de verdade. Não. Vlw.

  1. Você é bem clarinha mesmo

Já demonstrei como esse diálogo se dá lá em cima, mas repito aqui só pra poder dizer: GENTE. É CLARO, NÉ? CLARO CLARA. CLAR@. ETC. É uma questão de genética, sabe? Mas meus pais não esperaram eu nascer, viram que eu era branquela e falaram NOSSA, AGORA SIM SABEMOS O NOME DESSA CRIANÇA: CLARA. Eu não sou personagem de contos de fada, eu sou de um tal plano chamado realidade. Eu não sou a Branca de Neve que ganhou esse nome porque tem a pele branca como a neve. Eu ganhei meu nome porque meus pais acharam bonito, acharam que tinha a ver com uma filha deles e foi isso aê. Tem nada a ver com mais nada. Não é uma ironia, uma coincidência, é só um nome. Tá de boas. Se vocês continuarem assim, daqui a pouco vou ouvir vocês dizendo que “escola” tem “cola” e “felicidade” tem “fel” – e aí serei obrigada a gritar no ouvido de vocês durante uma semana.

  1. E onde tá a sua irmã gema?

Em geral, essa pergunta é feita por homens mais velhos que querem se enturmar, então minha resposta de praxe é:

– Junto com a casca.

ELES ACHAM ISSO HILÁRIO.

Mas é porque eles não tiveram que ouvir isso desde que aprenderam a falar.

Eu entendo que essa piada tem dois trocadilhos que podem parecer divertidos: clara-gema e gema-gêmea. Mas, assim, não é tão engraçado assim. Vocês não precisam insistir tanto nesse trocadilho. Ele é bem bobo, na verdade. Cansa a minha beleza (e de todas as outras Claras também).

  1. Nossa, mas você é gostosa mesmo! HAHAHA

GENTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!! SOCORROOOOOOOOOOOOO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃOOOOOOOOOOOOOOO! PELAMORDEDEUS NUNCA FALEM ISSO PRA NINGUÉM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Tem machismo nisso aí. Tem MUITO machismo nisso aí! Não é engraçado!!! É péssimo!! PAREM, PELAMOR, PAREM!!!

  1. Clara Cupcake, ou até mesmo Gema Cupcake

Olha, minha mãe falar isso é super fofo, porque ela é minha mãe e tem o mesmo sobrenome que o meu. Pras outras pessoas: não façam isso, por favor. Eu nem gosto de cupcake. Não é um bolinho gostoso, tem muito enfeite pra ser bom e é muito caro pra não valer o gosto mediano. Tanto bolo que existe por aí… Tem bolo de chocolate, formigueiro, pão de ló… Mas mesmo assim, sabe, deixa meu nome. Ele já tem sonoridade de zoeira, não precisa ir além. O mesmo serve pro meu primeiro nome. Já tá bom, não precisa de mais.

  1. Brown = Marrom, Browne = Marrone?

Não.

  1. Mas esse é seu nome mesmo?

Deixei essa por último, porque depois de tantos trocadilhos você até começa a se perguntar se meu nome é DE FATO Clara Browne. Mas, gente, cá entre nós, POR QUE RAIOS EU MENTIRIA MEU NOME PRA VOCÊS???

É muito engraçado porque toda vez que falo que meu nome é Clara Browne, as pessoas 1. dão uma risadinha e dizem “que legal”, ou 2. perguntam se eu tô falando sério. Mas isso pode ser em qualquer situação – passando meu e-mail, fazendo cadastros, conversando no bar, assinando coisas. Chegou em um ponto tão absurdo que, uma vez, eu fui pra coordenação do meu colégio e o coordenador da área de humanas leu meu nome na folha e perguntou:

– Seu nome é mesmo Clara Browne? Achei que fosse um pseudônimo!!!

Agora, vocês, pessoas sensatas que estão lendo meu blógue, me respondam: POR QUE E COMO EU IA CRIAR UM PSEUDÔNIMO NO COLÉGIO??? COMO EU IA COLOCAR ISSO NA CHAMADA? COMO EU IA ASSINAR TODAS AS MINHAS PROVAS COM UM PSEUDÔNIMO???? ISSO NÃO FAZ SENTIDO NENHUM!!!!

 

Agora que vocês sabem as coisas pelas quais passo no dia a dia, peço encarecidamente que, antes de fazer qualquer trocadilho ou outro tipo de piadinha com meu nome, você pense 32 vezes antes e se pergunte “mas essa piada é agregadora? Ela inova ou traz algum tipo de surpresa para alguém que viveu 21 anos com tal nome?”. Se a resposta for não, apenas pare.

Att,

Clara Browne.

Hogwarts vai virar Brazuca OU Clara Browne e a Comunidade Blogueira Filosofal

Créditos completos à página Hogwarts vai virar Cuba

[a imagem acima é totalmente creditada à página Hogwarts vai virar Cuba. Não tenho nada a ver com maravilhosa arte, sou apenas uma fã dessa belezura.]

 

Minha relação com Harry Potter sempre foi meio engraçada, porque sempre amei muito a história, mas a forma como ela é contada (coladinha na orelha do Harry) me irritava profundamente. Mas eu, como todas as outras pessoas razoavelmente decentes do mundo, era apaixonada por aquele universo mágico. Eu queria saber de tudo daquele mundo, queria aprender todos os mínimos detalhes. Comecei a pesquisar sobre os diferentes animais, a história da magia, fiquei horas e mais horas discutindo com minhas amigas como seríamos se fossemos bruxas. Aí, eu cresci e fiquei meio tranquila, até que passei dois meses morando em Londres e tudo voltou com muito mais força. Eu estava EM LONDRES. DO LADINHO DO BECO DIAGONAL. Cês ‘tão ligados disso?! É claro que estão. Se vocês abriram esse link é porque são fãs de Harry Potter, sei bem como é.

Mas a coisa mais curiosa que entendi sobre Harry Potter estando lá na terra dele é que, na real, o que a J. K. Rowling fez foi simplesmente pegar todas as coisas inglesas e adicionar uma magiazinha. Fim. Todo o resto é o Reino Unido como ele é. As comidas, os meios de transporte (tirando vassouras, claro), o governo, até os castelos são meio naquela onda. E saber disso só me deixou ainda mais intrigada sobre esse mundo mágico. Tão intrigada que cheguei a um ponto que passei umas três tardes com a Sofia falando basicamente SÓ de Harry Potter.

Acontece que, depois de tantas teorias, tantas conversas, tantas elaborações sobre o mundo mágico, fiquei pensando: e o Brasil, como fica?

A gente sabe que a comunidade mágica é pequena, mas que ela está espalhada por todo o planeta. Tem bruxo na França, na Noruega, na Bulgária, no Egito. É de se esperar, então, que tenha gente aqui no nas nossas terras (aliás, tem sim: no quarto livro de HP o Ron comenta que um dos seus irmãos tinha um penpal brasileiro). Não é porque estamos abaixo da linha do Equador que acabou comunidade bruxa, tchau, trouxas, isso aí é terceiro mundo e magia não se mete com essa gente rsrsrsrs. Pelamor, né. E pensando nisso foi que me veio a questão: como seria a comunidade mágica brasileira?

A primeira coisa que pensei é que ela deve ser bem heterogênea. Deve misturar a magia de muitos povos, e isso deve ser poderosíssimo se unido. Mas, com a colonização, fica difícil pensar o quanto esses conhecimentos foram agregados e o quanto esse processo não separou e até mesmo exterminou boa parte dos saberes mágicos – tanto dos povos indígenas, quanto dos povos africanos. Também pensei que, com um país tão grande como o Brasil, não é possível que só exista uma escola de bruxaria por aqui. Até porque a cultura (e com isso, os saberes mágicos) são muito diferentes aqui. Imagino que teria que ter, pelo menos, uma escola por região. A partir disso, fui tentando criar o mundo mágico que existe por aqui, mas nós, trouxas, não temos conhecimento.

Acontece que pensar no Brasil, ou em qualquer país colonizado, é sempre mais complexo, porque as relações históricas são muito diferentes do que o caso de países colonizadores, por exemplo, a Inglaterra. E, bom, para pensar o momento atual da comunidade mágica brasileira, temos que pensar também na história dela; as comunidades mágicas de cada região refletem muito sua cultura.

Com isso, fui pensando em algumas considerações sobre a comunidade mágica daqui. Mas o que começou com apenas algumas perguntinhas simples se tornou quase uma teoria da conspiração com a quantidade de ideias e discussões que esses questionamentos trouxeram. Assim, o que seria um único post sobre a comunidade bruxa brasileira se tornou uma série de posts!!! *confete e serpentina sendo jogados*

Por que é tão bom que seja uma série e não 01 pôust apenax? Oras bolas! Primeiro porque quanto mais tempo falando sobre o universo mágico e Harry Potter melhor. Segundo porque dá pra ter mais discussões sobre o assunto e chegar a teorias mais detalhadas, discutidas e, claro, coerentes com as questões que estão sendo colocadas. A ideia é que todo mundo venha conversar sobre a comunidade mágica brasileira e que isso traga reflexões não apenas sobre um mundo fictício, mas também que consigamos pensar em questões políticas e sociais mais a fundo (e depois a gente lança um livro chamado Clara Browne e A Comunidade Blogueira Filosofal). Então, vamos ao primeiro ponto: a colonização.

1. Quando os portugueses vieram pra cá, vieram bruxos também? Isso foi de forma organizada? O governo português fez algum acordo com os bruxos pra colonizarem juntos outras terras?

Lendo as conversas da Sofia com o Paulo, a gente percebe que a J. K. não parou muito pra pensar sobre as relações políticas dos bruxos. Sabemos que existem ministérios e que o primeiro ministro trouxa sabe da existência do primeiro ministro bruxo, mas meio que acaba por aí. Não sabemos como funciona a política bruxa e como era a relação bruxos-trouxas antes do Estatuto Internacional de Sigilo da Magia, mas temos uma ideia que não era a melhor coisa do mundo dado o histórico de perseguição bruxa etc. Assim, quando pensei na expansão marítima portuguesa, a primeira pergunta que me fiz é: será que o governo trouxa pensou na possibilidade de comunidades mágicas em outros continentes? Com isso, será que eles teriam feito algum acordo com os bruxos de uma colonização conjunta?

Como a história da magia é muito separada da história que conhecemos, acredito que não. O que parece é que os trouxas foram fazendo as coisas por conta deles e pronto. Ainda mais se pensarmos na questão do rechaço à comunidade bruxa, as chances dos governos terem se unido num momento como esse só existiriam se realmente houvesse um problema em que só o uso da magia resolveria – e mesmo assim, acho que os bruxos só aceitariam se tivesse ~algo em troca~. Mas a falta de interesse dos bruxos pelos trouxas (que transpassa absolutamente toda série Harry Potter) já indica que essas chances são realmente mínimas.

No entanto, o que é muito possível é que bruxos tenham vindo junto com trouxas para a colonização por conta própria. Sabemos que muitos bruxos eram bem relacionados a famílias trouxas importantes e que não é difícil para eles passarem por pessoas não-mágicas. Assim, minha teoria (discutida com a Sofia, amor da minha vida, anjo que veio dos céus pra passar dias discutindo teorias do mundo bruxo comigo) é que alguns bruxos, interessados em expandir seus domínios (mágicos), embarcaram nas grandes navegações à procura de novas terras a se colonizar. Eles se estabeleceram por aqui e, de forma orgânica, começaram novas comunidades bruxas nesses lugares que vieram a ser considerados países mais tarde.

2. Será que os portugueses conseguiram trazer bruxos dos povos africanos?  

Sabemos pelo livro História da Magia, da Batilda Bagshot, que os trouxas não eram muito bons em identificar bruxos. Durante a inquisição, por exemplo, ela conta que pouquíssimos bruxos foram identificados e, os que foram, conseguiam fazer feitiços para escapar do fogo e, ao mesmo tempo, enganar os trouxas (e essa palavra, nesse caso, fica com um duplo sentindo maravilhoso! Obrigada à tradutora de Harry Potter por essa possibilidade). Acontece que, apesar disso, os feitiços são criados a partir de necessidades bruxas. O que isso significa? Oras, que uma coisa é conhecer as armas dos trouxas (como no caso dos bruxos europeus) e poder se preparar para se defender, como aconteceu durante a época de perseguição, agora outra coisa é você não ter conhecimento dessas armas e ter que se defender delas.

Os povos africanos não tinham familiaridade com as armas europeias. Como então os bruxos dessas comunidades conseguiriam defender (a si e a todos)? Não é porque são bruxos que não estão eximidos da morte, prisão, colonização ou mesmo escravatura.  Trouxas ou bruxos, todos os humanos podem ser afetados por doenças desconhecidas, armas de fogo e estratégias não comuns ou mesmo desconhecidas. Assim, a resposta é: sim, portugueses também escravizaram bruxos de povos africanos.

3. Bruxos africanos, a partir do ponto que já conheciam as armas europeias, conseguiram se libertar?

Depois de certo tempo submetidos à escravatura, é claro que os bruxos africanos sacaram a conduta portuguesa e conseguiram voltar seus poderes à proteção pessoal, pelo menos. É possível que possam ter criado feitiços que os ajudassem a sobreviver às condições ao qual eram submetidos e, muito provavelmente, alguns deles conseguiram escapar (assim como estudamos nas aulas de história). A questão é que, apesar dos poderes, um humano (bruxou ou trouxa) sempre terá dificuldade em viver fora de comunidades, então as chances de sobrevivência de bruxos foragidos não deviam ser tão mais altas do que de um escravo não-bruxo.

Apesar disso, o que provavelmente pode ter acontecido também é que alguns desses bruxos podem ter se encontrado e criado suas próprias comunidades, ou melhor, seus próprios quilombos. É possível que houvesse quilombos misturados, com trouxas e bruxos se passando por trouxas, da mesma forma que podem ter havido também quilombos apenas de bruxos. Aliás, imagina o quão sensacional não deve ser um quilombo bruxo? Imagina o quão sensacional uma versão da história em que Zumbi dos Palmares era um bruxo? Alguém, pelamordedeus, cria uma (fan)fic assim, preciso ler essa história.

 

Bom, por enquanto, ficamos com isso. Contem as ideias que tiverem nos comentários, porque temos muito a pensar sobre o assunto!